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Cidadão Kane

Por Marcelo Rocha *

Orson Welles, em seu filme “cidadão Kane”, sua obra máxima e, para muitos, a maior da cinecultura, narra uma estória baseada na história de William Handolph Hearst, que no filme chama-se Charles Foster Kane – daí o cidadão Kane.

Quando assisti o filme, em meados da década de 90, ainda na adolescência, a imagem do cidadão Kane extremamente poderoso me foi marcante.

O filme começava pelo fim, com Kane à beira da morte clamando por “ROSEBUD”, um seu brinquedo de infância. O clamor do antes homem todo poderoso, que havia dito ser impossível se “perder quando se aposta na ignorância do povo”, agora era por um simples brinquedo de criança, mostrando que, apesar de toda pompa e circunstância, nada somos ou, em regra, não percebemos as coisas como elas são.

Pois bem.

Welles, o gênio que transmitiu a falsa guerra dos mundos por ondas de rádio, tinha fina percepção.

O exemplo de Hearst era muito significativo à época.

E hoje ainda o é, muito.

Ora, somente isso para justificar pessoas que  acreditam em ameaça comunista. Tanto acreditam que elegem candidatos que se propõem a combatê-lo.

Ora, pois!

Se a guerra fria não houvesse acabado há quase 30 anos e as relações econômicas tornado-se mais complexas desde então, crer em ameaça comunista não pareceria um delírio psicodélico. Mas, apesar de sê-lo, ainda há muita gente que se julga consciente e que – talvez pensando com o fígado – tem plena certeza que há um “espectro” comunista rondando o mundo.

Parece ser muito óbvio que essas pessoas sofrem um processo ideologizador subliminar e inconsciente, afinal, há uma construção ai que só pode ser acatada por quem não conhece do que fala e, por isso mesmo, repete algo que lhe foi “intuído”.

Não para por aí, há criticas a um tal de comunismo fabiano, médicos cubanos guerrilheiros para dominar a américa, enfim.

Não à toa, é possível que ainda haja remanescentes da doutrinação lulinha/friboi, que se recuse a crer que Joesley não é testa de ferro de Lulinha…

Nem aqueles veteranos ensandecidos da guerra do vietnã – que são retratados de forma bem caricatas em alguns filmes – seriam capazes de tanta inventividade.

Domesticamente, mesmo com bancos batendo recordes de lucros anuais, com influência direta da alta taxa de juros e do extremo percentual de transferência do nosso PIB pro mercado financeiro, essa turma diz até hoje que o governo Dilma era comunista…

(“Que brisa é essa, mana?”)

Outra ideia incutida, é a neopredileção por candidatos que “não são políticos”.

Juízo elementar: se nosso sistema é político e o cabra não é político, o lugar dele não é na política, ora, política foi feita para políticos!  Se o cara é oriundo do mundo empresarial, no qual inexiste eleições e direito administrativo, como ele pode funcionar em um ambiente que ele desconhece e/ou até mesmo refute?

Qual a lógica ou razoabilidade disto?

E o pior, se opta pela política acaba por se tornar um, o que, pela lógica dos que defendem que político não presta, o faz, de imediato um tipo integrante do rol dos que não prestam. É mole?

É o óbvio.

Realmente, nunca se perde quando se aposta na ignorância de um povo.

A pena, é que quem apostou demorará muito até implorar por Rosebud, mas, ainda assim, poderá ter quantos quiser.

Kane/Hearst tinha boas lembranças de Rosebud, fosse ele um trenó ou a atriz Marion Davies, suspeito que muitos destes demorarão a entender que não terá direito a um Rosebud tão doce quanto o Kane/Hearst…

Será a prova concreta de que nunca se perde quando se aposta na ignorância.

P.S. “Fatores como o início da Grande Depressão (1929), desemprego maciço, as humilhações do Tratado de Versalhes (1919), o descontentamento social com o regime democrático ineficaz, o apoio do povo alemão aos partidos socialistas e o temor de uma revolução socialista levaram a alta burguesia alemã, empresários e o clero a apoiarem a extrema direita do espectro político, optando por extremistas de partidos como o Partido Nazista.”

* Marcelo Rocha é capitão da Polícia Militar de Sergipe.

 

 

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