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Troco antecipado

Marcelo Rocha *

Nunca esqueci, no alto dos meus 10 anos, de um texto chamado “troco antecipado”, lido em uma publicação infanto-juvenil, no setor de piadas.

Nele, uma criança explicava ao pai, após a reprimenda da professora, que houvera agredido o coleguinha por receio de ser agredido por ele. Logo, a agressão se justificava por ser um troco antecipado.

O ataque à Polônia, que deu origem à segunda guerra mundial e todo o seu desenvolvimento, foi explicado como “ataque preventivo” (ou troco antecipado)…

De pronto, hoje, recordo-me de um outro texto, tratando sobre a atual geração adulta, na faixa dos 40 anos de idade, que é o retrato fiel de crianças e adolescentes que cresceram mimados e sem frustrações. O que parece explicar a negação – que muito se vê por ai – de todo e qualquer fato real que se oponha às suas crenças.

Está posto nas ruas: se não pensa igual a mim é burro, alienado e/ou me faz oposição. Pouco importa – não somente o direito de me expressar, mas – se meus argumentos são razoáveis.

E a coisa é tão patológica que mesmo quando você explica a um leigo – por exemplo, nas “ciências jurídicas – uma questão técnica e mostra que ele está defendendo uma aberração sem a menor fundamentação (às vezes saída de um boato ou de um meme) ele simplesmente, com uma soberba doente, age como se fosse o dono da verdade e você estivesse falando alienadamente.

Iria falar, nesse sentido, dos doutores bacharéis nas letras jurídicas que perfilam com abusos não apenas ao direito em si, mas aos princípios constitucionais, princípios estes que, ao mesmo tempo, vivem a evocar em defesa dos seus clientes… Melhor não falar mesmo…

Pois bem, esses dias vi alguém comentar sobre Lula estar usando sentimentalismo para manipular…

ora, ora!

Há um ódio coletivizado e alimentado por diversos segmentos na última década em relação a Lula e Dilma.

Tão claro esse ódio que não é preciso discorrer muito, basta prestar atenção como os que odeiam se manifestam, uns acham normal xingá-los a torto e a direito, outros concordam com o uso da silhueta de Dilma como alvo para treino de tiro e muitos outros, sem a menor vergonha da própria falta de educação, mandaram Dilma “tomar no c*” em plena abertura da copa do mundo.

Realmente, quem percebe paixão e ódio como meio de manipulação aponta um dedo hoje, mas não enxerga que a realidade das ruas hoje e nos últimos anos são, exatamente, os três dedos que se lhe voltam.

E voltam-lhe com clareza ímpar. Mas sem aceitarem a frustração do intento feita pela realidade, negam-na. Talvez igual ao menino mimado que leva a bola embora se não deixarem-no jogar, pois não se enxerga perna de pau…

* Marcelo Rocha é capitão da Polícia Militar de Sergipe.

 

 

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