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Sergipana, escritora, comunista e silenciada

Alina Pain trabalhando em seu escritório

Nascida em 1919 na cidade de Estância (SE), Alina Leite Paim é professora por formação e romancista de mão cheia, prefaciada e elogiada por ninguém menos do que Graciliano Ramos e Jorge Amado. Embora tenha escrito 10 livros, alguns dos quais publicados fora do Brasil, esta comunista, feminista e atuante socialmente ainda é desconhecida do meio acadêmico e do público em geral.

A professora Ana Leal Cardoso, da Universidade Federal de Sergipe, destaca o fato de as obras de Alina Paim estarem “repletas de personagens femininas e feministas que lutam por um mundo mais justo. De ‘Estrada da Liberdade’ (1944) a ‘A Correnteza’ (1979), a luta da mulher por um espaço mais democrático e inclusivo está presente. Sua narrativa é construída por uma sensibilidade artística bem trabalhada, capaz de traçar caminhos que levam o (a) leitor (a) a diferentes ‘mundos’: do Nordeste rural à vida de mulheres trabalhadoras”, explica.

Em recente artigo, o pesquisador e professor Gilfrancisco dos Santos relata que com três meses de idade, Alina Paim mudou-se com os pais para Salvador. Ao perder a mãe, foi para Simão Dias (SE), morar na casa dos avós paternos, “onde sofreu muito com a rigorosa educação dos parentes, principalmente pelas constantes e severas repreensões das três tias solteironas. A severa educação que recebera nesses primeiros anos, de certa forma contribuiria para sua aprovação em 1932, no primeiro ano do curso fundamental com distinção nos exames de suficiência do Colégio Nossa Senhora da Soledade, em Salvador”.

De acordo com a professora Ana Leal Cardoso, “considerando-se a abrangência temática da obra da escritora em tela, que aborda desde as questões políticas no Brasil (A Hora Próxima), a educação (Estrada da liberdade e Simão Dias), à situação do idoso na atualidade (A sétima vez), dentre outras, a luta das mulheres por melhores condições de vida parece ser o foco principal. Assim, entendemos que a obra e a vida desta escritora, incansável lutadora pelos direitos não só das mulheres, mas do ser humano na sua completude, está a exigir uma pesquisa que lhe dê visibilidade, colocando-a no patamar de algumas escritoras brasileiras já conhecidas no meio acadêmico, tais como Clarice Lispector, Lygia Fagundes Teles, Raquel de Queiroz, entre outras”.

Primeiro romance

A romancista sergipana casou-se em 1943, com o médico baiano Isaías Paim. Por influência do amigo e escritor Jorge Amado, o casal mudou-se para o Rio de Janeiro. Como na época não conseguisse trabalho, Alina foi ensinar na escola para filhos de pescadores, na Ilha de Marambaia. “Aí escreveu seu primeiro romance, ‘Estrada da Liberdade’, publicado em fins de 1944, com enorme repercussão nos meios literários e de público, esgotando-se em quatro meses a primeira edição”, conta Gilfrancisco.

E o pesquisador prossegue: “Publicado pela Editora Leitura, do Rio em 1944, o romance Estrada da Liberdade retrata a vida de uma professora cheia de idéias, em contato com a amarga realidade de sua comunidade de bairro proletário, onde tenta aplicar métodos modernos de aprendizagem. Alina baseou-se em sua infeliz experiência para escrever. Conheceu a fome e a miséria da infância baiana abandonada, de quem ela se apaixonou e que muito contribuiu para levá-la a colocar a sua arte a serviço do povo”.

A professora Ana Leal Cardoso escreve que “em ‘A sombra do Patriarca’ delineia-se também o perfil da escritora comprometida com a história, a partir do ponto de vista feminino, dando voz às personagens que são capazes de subverter os padrões sociais e estruturais e instalar o caos na ordem patriarcal do mundo rural nordestino. Trata-se de um romance muito bem escrito, que apresenta um elenco de personagens diversificado, vivendo em um mundo que parece pertencer tão somente ao patriarca do engenho Fortaleza, o Sr. Ramiro”.

E a professora da UFS continua a narrativa: “O núcleo dramático está centrado na visita que Raquel, sua sobrinha e a protagonista central, faz à fazenda. Chegando lá, a moça se depara com um mundo obscuro e opressor, bastante diferente daquele que conhece na cidade grande, em que a família urbana já se ajustou aos novos papeis que as transformações sócio-econômicas impuseram às mulheres. Dentre essas transformações destaca-se a extensão da instrução a crescentes contingentes femininos, alargando, assim, os horizontes culturais da mulher”.

Comunista e perseguida

Gilfrancisco relata, ainda, em seu artigo que, “como integrante do Partido Comunista, Alina Paim exerceu atividades políticas diversas, tendo convivido durante meses com mulheres dos trabalhadores ferroviários que participaram ativamente da grave da Rede Mineira, de grande repercussão nacional. Por isso sofrendo perseguições e pressões de toda ordem inclusive processo judicial”.

De acordo com a professora Ana Leal Cardoso, a sergipana Alina Paim “é mais um desses casos de escritoras esquecidas pela crítica literária e pelo público em geral. Só recentemente, essa romancista tem sido objeto de estudos no espaço acadêmico da Universidade Federal de Sergipe, graças ao pioneirismo das nossas pesquisas sobre as escritoras sergipanas do século XX, iniciadas no primeiro semestre de 2007”.

E a professora Ana tem razão quando ao interesse que, felizmente, começa a ser demonstrado pela obra da romancista sergipana: ainda esta semana, a coordenação do Curso de Letras da Faculdade Estácio de Sergipe promoveu um Sarau Filosófico, que contou com a palestra ministrada pelo professor Márcio Carvalho com o tema “Repensando o cânone: a produção silenciada de Alina Paim”. Segundo o educador, o fato de ter sido comunista contribuiu significativamente para que sua vasta obra tenha sido levada ao esquecimento. “A maior dificuldade dos pesquisadores é porque os livros de Alina Paim só tiveram uma edição, que se esgotaram logo”, afirma Márcio Carvalho.

Autora da dissertação “O Imaginário da Educação no Romance Estrada da Liberdade, de Alina Paim”, a então mestranda da Universidade Federal de Sergipe, Fabiana dos Santos, conta que a romancista “permaneceu ao lado do psiquiatra Isaías Paim, companheiro e grande incentivador de sua obra literária, por cerca de quase 50 anos, vindo a divorciar-se no final da década de 80. Naquela ocasião, foi morar com Maria Luíza, filha adotiva. Por questões pessoais, transferiu-se para a cidade de Campo Grande (MS), passando a residir com Maria Tereza, filha legítima, até o dia do seu falecimento, em primeiro de março de 2011”.

Os romances de Alina

– A Estrada da Liberdade (1944)

– A sombra do patriarca (1950)

– A hora próxima (1955)

– Sol do meio-dia (1961)

– O círculo (1965)

– O sino e a rosa (1965)

– A chave do mundo (1965)

– Simão Dias (1979)

– A correnteza (1979)

– A sétima vez (1994)

Por Adiberto de Souza (Crédito/Facebook de Alina Paim)

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