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Notícias do Serra-Velha

Gravura de Joaquim Prado de Aragão sobe a serração da velha

Dr. Francisco José Alves

fjalves@infonet.com.br

(Dep. de História/UFS)

Vivendo sob a vigência do Estatuto do Idoso (2003), da lei Maria da Penha (2006) e da recente Lei do feminicídio (2015), é-nos difícil imaginar o quanto a moralidade coletiva brasileira até bem pouco tempo, foi dura com as idosas. Evidência dessa intolerância contra as idosas “malcomportadas” é a serra-velha, que vigeu no Brasil até a segunda metade do século 20 e, ainda hoje, ocorre nalgumas localidades. Do serra velha temos registros em pontos diversos do território nacional.

Compulsemos algumas notícias sobre esse “inocente” ritual coletivo, mas antes, conceituemos o avoengo ritual.

O lexicografo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1910-1989) dá-nos um belo retrato do serra velha. Informa-nos o estudioso: “brincadeira que se realiza em dois dias da semana santa, especialmente no sábado de aleluia, na qual um grupo de foliões serravam uma tábua como se fosse uma velha entre lamúrias e gritos”. O dicionarista também informa que o costume ocorria fora da quaresma, à porta de pessoas e pouca popularidade e/ou facilmente ridicularizáveis. Como se vê, o estudioso fornece os elementos básicos do rito: o que, quem, quando e para que. O folclorista Câmara Cascudo também elucida o costume. Ele informa sobre uma outra função da serração: manifestar desagrado à porta de chefes políticos decaídos ou derrotados em eleições.

Apresentada a brincadeira, vejamos algumas notícias de sua ocorrência nos séculos 18, 19 e 20.

A serração da velha no século 18 foi reportada com muita minúcia pelo romancista Joaquim Manuel de Macêdo (1820-1882), famoso autor de A Moreninha (1844). Em um romance histórico, ambientado no século 18, o escritor dedica um capítulo ao ritual quaresmal. Focaliza os atores, as ações, os cenários e as razões de ser do costume. Embora não seja uma fonte de primeira mão, o relato do ficcionista parece calcado em fontes coevas, em testemunhos do século 18 consultados pelo autor para a feitura da obra.

Conforme o romancista, os atores do rito eram “mancebos folgazões”, isto é, jovens brincalhões, simulando índios, africanos ou mouros. As ações consistiam em deslocar-se pelas ruas conduzindo uma barrica sobre um estrado provido de rodas, cantar, serrar a barrica (que supostamente continha a velha supliciada) e, finalmente, comer os alimentos guardados na barrica. O cenário era as ruas do Rio de Janeiro. O seu propósito, no entender do autor, era diversão, uma trégua nos rigores da quaresma interrompida com a realização do rito.

Sobre a “serração da velha” no século 18, no Rio de Janeiro, então capital da colônia, dá-nos um outro vívido retrato o historiador Luíz Edmundo de Melo Pereira Costa (1878-1961). O estudioso reporta como era o folguedo naquela época. Nos diz ele que a folia simulava a punição de uma velha “condenada ao suplico do serrote”. Constava do rito, além dos motejos contra a velha, a sua tortura e morte por meio da serração. O autor elenca os “crimes” da velha: má filha, má mulher, má sogra, má avó.

Além dos cronistas, viajantes do século 19 também reportaram a folia. O viajante Johan E. Pohl (1782-1834), visitante do Brasil entre 1817 e 1821, por exemplo, fornece vívida notícia da “serração” nos começos desse século. O autor presenciou o rito (nos termos do autor “farsa”) na cidade de Goiás, em abril de 1819. Conforme o viajante, o objeto da serração da velha era “uma mulher idosa, mas inda coquete”. Os protagonistas eram os soldados. Na variante goiana observada por Pohl, havia até um testamento da velha lido em voz alta no qual se vituperava as vaidades da vítima.

O arguto estrangeiro registra outros componentes do rito coletivo: a figuração da velha como boneca de palha, a leitura do seu testamento, a serração da boneca e a queima de seus “restos mortais”. Pohl também consigna o temor das possíveis vítimas quando se aproximava a quaresma e a reação violenta dos parentes delas. Diz ele: o rito “sempre termina em pancadaria…”

Os jornais oitocentistas também dão notícias da realização da serra-velha em vários quadrantes do território nacional. Como exemplo podemos citar nota do Jornal do Comercio, datada de 1839, registando a venda de um testamento de uma velha serrada por 400 reis em Niterói. Ou ainda, a nota de um diário de Porto Alegre, O Rio Grandense consignando a realização do “serra velha” dentro dos festejos do carnaval –não na quaresma.

Os jornais brasileiros ainda noticiam a serra velha na segunda metade do século 19. Assim, temos notícia da festa em jornais do Recife, de Maceió e de Ouro Preto.

O Jornal do Recife, de 17 de abril de 1879, lastima que naquela capital ainda se realize “este inaproveitável divertimento” e notifica um princípio de conflito entre o povo (brincantes) e a polícia.

O Gutemberg, da capital das Alagoas, em 29 de março de 1896, publica nota de um grupo incomodado com um serra velha prestes a se realizar. O rito é, no dizer dos autores da nota, “selvagem, nefando, nojento e inqualificável. A polícia deve coibir a realização da festa. “

De fins do século 19, temos um registro da serração no Rio Grande do Norte, na Vila Imperial do Paparí (atual Nísia Floresta). O “código de posturas” da vila, datada de 1897, estabelecia em um dos seus artigos a proibição do costume e punia os infratores com a multa de cinco mil réis.

Também temos notícias do serra velha no primeiro decênio do século 20. A nota vem do Recife, de um diário daquela capital. Nas notas policiais da edição de 11 de Abril de 1909, A Província noticia um desfecho violento de um serra velha ocorrido no Bongy. Incomodado com uma serração da velha que se realizava a sua porta, Antônio Joaquim de Santana desfechou um tiro de espingarda contra um grupo que fazia o serra velha em frente a sua residência. O agressor foi preso, diz a nota, e o ferido foi hospitalizado.

Nova notícia da serra velha vem do Rio Grande do Norte e ocorreu em Março de 1959. O rito foi presenciado por Fernando Luiz da Câmara Cascudo, filho do folclorista Câmara Cascudo. Realizou-se na então fazenda Pititinga, atualmente cidade do Rio Grande do Norte.

Os indícios deixados pelo rito da serração parecem indicar algo da sua função social, a sua razão de ser. A serração, ao que parece, manifesta uma polícia dos costumes exercida pela comunidade (não pelo estado, como ocorrerá depois). O rito era um modo de censurar comportamentos desviantes. Aqui o elemento fundamental é o vexame público. O mal comportado pagava o preço da chacota pública pelos seus pecados. A função do rito era clara: punir desviantes e evitar que outros lhe seguissem o “mau exemplo”.

Assim era o serra-velha antigamente.  

Fontes utilizadas

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010. p. 1991.

CASCUDO, Luiz da Câmara. Serração da Velha. Dicionário do Folclore Brasileiro. 9. ed. São Paulo: Global, 2000. p. 633.

MACEDO, Joaquim Manuel de. As Mulheres de Mantilha. Rio de Janeiro: Garnier, 1871. v. 2. Capítulo 54. p. 125-130.

EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro no tempo dos Vice-Reis. Brasilia: Senado Federal, 2000. p. 175-182. (1ª ed de 1932).

POHL, J. E. Viagem ao interior do Brasil. Rio de Janeiro: INL, 1951. V.1. p. 334 Edição Original de 1832. (1832-1837)

O Rio Grandense. Porto Alegre, 23 de Maio de 1850. p. 2.

Notas Policiaes. A Província, Recife, nº 80. 11 de Abril de 1909. p.1

Aviso a polícia. Gutemberg, Maceió, 29 de Março de 1889. p. 1.

A Província de Minas, Ouro Preto, 7 de Março de 1889, p 1.

Notas policiaes. Jornal do Recife, Recife, 17 de abril de 1879. p. 1

Jornal do Comercio, Rio de Janeiro, 1º de Março de 1839. p. 4.

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