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Alessandro joga fora reeleição que parecia encaminhada

Por Marcos Cardoso*

O jogo da política não permite certas atitudes que prejudicam o interesse público ou a estabilidade institucional. Ao conceber o rejeitado relatório final da CPI do Crime Organizado, o senador Alessandro Vieira (MDB) pode ter jogado fora a oportunidade de uma reeleição que parecia encaminhada.

Concluindo pelo indiciamento de três ministros do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, o relator carimbou o desvirtuamento da CPI que foi criada originalmente para investigar o crime organizado e a atuação de facções no país, especialmente ligadas ao narcotráfico.

Ele esqueceu ou não percebeu que a política não deve ser encarada apenas como espetáculo ou torcida, mas sim com prestação de contas e responsabilidade. Que, no exercício do poder, não se deve agir com ódio ou tentar se vingar de adversários. E que, no caso em análise, comportamentos autoritários que ameacem o Supremo Tribunal Federal e o estado de direito são incompatíveis com o jogo político democrático.

Talvez Alessandro tenha sido usado pelos senadores que pressionaram para mudar o foco da comissão e driblar as resistências à criação de uma desejada, pela oposição, CPI que investigasse o Banco Master e suas relações com autoridades, tendo na alça de mira os supremos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.

Tanto quanto os indiciamentos propostos, também chamou atenção o não indiciamento dos responsáveis por organizações criminosas, os lavadores de dinheiro da Faria Lima, o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que autorizou a compra do Banco Master, e Daniel Vorcaro, dono do banco, que corrompeu meio mundo de gente — inclusive, com suspeita não esclarecida de favorecimento aos dois ministros do STF.

“Esse ato de indiciamento é um ato de grande responsabilidade porque você está lidando com a confiança e a vida das pessoas. Isso é muito grave e isso é muito sério dentro da democracia. (…) Se eu não provar isso, eu não posso presumir”, ponderou o presidente da CPI, senador Fábio Contarato (PT-ES), igualmente delegado de polícia como Alessandro Vieira.

Logo depois da leitura do relatório, derrotado por 6 a 4, após manobra política que contou com a urgente atuação do Planalto e do próprio STF, os ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli e até Flávio Dino denunciaram o desvio de finalidade em relação ao objeto original e a tentativa de intimidar ministros da corte.

O presidente Edson Fachin saiu com uma nota em defesa da instituição, mas considerada tímida por alguns dos seus pares. Gilmar Mendes fez uma representação à Procuradoria-Geral da República contra o relator da CPI do Crime Organizado por crime de abuso de autoridade. Se a PGR entender que houve crime, denunciará o senador ao próprio STF, porque senador tem foro privilegiado.

Mas o pior que pode acontecer a Alessandro Vieira é a rejeição do eleitorado da direita democrática, de centro, e até de centro-esquerda que votaria nele e deve repensar o voto a partir desse episódio nada democrático encenado pelo senador por Sergipe. O que aconteceu no encerramento da CPI repercutiu muito mal não só no STF. A imprensa nacional inteira bateu duramente após o vexame naquela sala do Senado. E isso cobra um preço.

Até então disputando espaço com Rogério Carvalho (PT), André Moura (União) e Edvaldo Nogueira (PDT), como pretendentes às duas vagas ao Senado, Alessandro Vieira vai acabar brigando pelo voto da direita mais conservadora, eleitorado preferencial de Rodrigo Valadares (PL) e André David (Republicanos).

Há pouco visto como nome quase de consenso no combate ao crime, ele também foi o relator no Senado do Projeto Antifacção (Marco Legal do Combate ao Crime Organizado – PL 5.582/2025). Havia sido indicado pelo presidente Davi Alcolumbre para relatar a proposta do Executivo que cria a figura penal de facção criminosa e endurece penas por reconhecer nele a experiência como delegado de polícia e pelo seu perfil técnico. A Lei Antifacção foi promulgada em março deste ano.

Na obsessão pela punição ao STF, confirmada na relatoria da CPI do Crime Organizado, no entanto, parece ter sobressaído a personalidade lavajatista, aquela que promove a degeneração do Direito e pavimenta caminhos para retrocessos democráticos.

Alessandro Vieira levantou a bola do STF, que andava meio murcha, e se queimou.

*Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

Foto: Carlos Moura/Agência Senado

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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1 Comment

  1. Antonio da Cruz disse:

    É o retrato vivo da siituação real exatamente no universo da polícia. Foi uma bala perdida como acontece normalmente no Brasil afora. Isto, quando a polícia não mata inocente ou um desafeto e forja uma situação de confronto. O delegado que foi eleito à sombra de bolso naro aderiu ao lavajatismo e muda de partido como de camisa, não poderia fazer diferente. Ele parece uma máquina falando: não expressa qualquer espécie de sentimento, o que lhe dá a aparência de homem sério, mas é apenas um fascista bolsonarista que diz rejeitar Bolso naro, agora, por conveniência. Fascistas destroem tudo para reinventar o mundo dos absurdos, onde os seus desejos egóicos prevalecem. A inclusão do STF no relatório além de capturar votos na sua bolha, foi um gesto de vingança, porque o STF decidiu por não liberar todos os sigilos bancários e dar habeas corpus para alguns dos indiciados convocados não comparecerem. Certamente que existem outras formas de contestar o STF, mas o relator procurou o atalho mais impactante.

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