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Salinas do Aracaju: ascensão e crise, séculos 19 e 20

As salinas eram importantes fontes de renda em Aracaju e Socorro

O Brasão de Aracaju, um dos símbolos oficiais da capital de Sergipe, um dos Estados da região Nordeste do Brasil, estampa em seu escudo, entre outras coisas, a figura de um cata-vento e porções de sal, simbolizando o extrativismo desse minério. E por que uma salina estaria, ali, no quartel superior direito dessa representação municipal?

Simplesmente porque Aracaju foi, até a metade do século XX, um tradicional produtor salineiro. Aliás, um dos topônimos fluviais da capital sergipana reclama essa atividade: rio do Sal, afluente do rio Sergipe, que separa o município de Aracaju do de Nossa Senhora do Socorro, antiga região salineira, zona norte de Aracaju. Assim, em tempos idos, produziu-se naquela área este importante condimento da cozinha universal.

Consideremos então a relação histórica entre Aracaju e as marinhas; sinônimo de salinas ou praias onde se represam águas salgadas a fim de que se evaporem, deixando o sal. Antes mesmo de se tornar capital da província, a área da povoação de Santo Antônio do Aracaju possuía tradição salineira. Um antigo testemunho de 1761, por exemplo, afirma que as margens do Sergipe eram “abundantes de salinas, das quais se provê toda a Capitania e algumas vizinhas” (JABOATAM, 1914: 52).

Além da fartura, do consumo interno e da exportação, outra velha fonte, de 1808, informa que o sal era produzido, como alternativa de sobrevivência em tempos de seca na lavoura, “escavando nas praias do Aracaju grandes fossos, onde, depositadas as salgadas águas e expostas por um mês aos excessivos calores do sol, evaporam de si as partes aquosas; e fica no fundo dos grandes receptáculos quadrados o sal cristalizado”. (SOUZA, 1878: 17). Segundo as fontes, apesar do método artesanal, produzia-se considerável quantidade de sal nas praias fluviais do Aracaju.

Além dos testemunhos anteriores, também confirma a abundância salineira da região o Imperador D. Pedro II, em sua visita à província em 1860. Escreveu o monarca: “Santo Antônio do Aracaju, antiga povoação de Aracaju, num alto a ¼ de légua, donde se goza de boa vista, vendo-se tabuleiros de salinas, que é gênero de bastante comércio neste rio”. Da mesma forma que o Imperador, outro testemunho corrobora, em 1881, a importância da comercialização e da produção de sal de cozinha às margens dos rios aracajuanos e circunvizinhança; desta vez, porém, com certa precisão quantitativa. Diz o documento: “… há o sal preparado nas salinas de Aracaju e Santo Amaro (…), artigo esse que dará lugar a importante comércio e que calcula em 20.000 alqueires”. (BUENO, 1881: 28 e 33).

Não só a produção e o comércio salineiro na região das praias do Aracaju no século XIX eram relativamente intensos, mas também o número de proprietários ligados à extração do sal era surpreendente. De acordo com o Catálogo dos Inventários Judiciais da Comarca de Aracaju, que abrangia os termos fronteiriços de Nossa Senhora do Socorro e da Capital foram levantados 178 (cento e setenta e oito) proprietários de salinas e suas benfeitorias (tanques, coalhadores, armazéns e alqueires de sal), ou seja, cerca de 34% dos inventariados entre os anos de 1811 e 1900.

Isto implica dizer que as salinas eram o meio de vida de muitos pequenos e médios proprietários rurais, uma vez que os bens declarados denotavam a pertença neste estrato social, com média, por exemplo, de 03 (três) escravos por inventariado. Desse modo, o sal era um produto estratégico não somente em tempos de estio, mas em todas as estações devido, por um lado, à demanda pelo produto; e por outro, à demasiada presença de áreas de mangues alagados e de riachos com água salobre; como a do rio do Sal.

Quanto à demanda pelo produto ela se verifica, por exemplo, através de uma queixa policial em 1870, na qual o sr. Isidio José de Faria Góes acusa o sr. João Francisco dos Santos de subtrair determinada quantia de sal do armazém localizado nas suas salinas em Aracaju. Desse modo, vê-se quanto o sal era um bem de significativo valor a ponto de ser aberto inquérito policial por sua falta. Esta importância se confirma também num Recurso de Apelação Judicial de 1893, no qual o apelado, Francisco da Silveira Rocha, é acusado de ser depositário infiel de alqueires de sal pertencentes à firma em liquidação Coelho & Maia, da qual é liquidante o apelante, José Rodrigues Bastos Coelho. O valor do sal como bem a ser protestado na Justiça deve ter varado certamente o século seguinte, até quando as salinas resistiram às aniquilações socioambientais pelas quais a região do rio do Sal passaria.

Entrando no século XX, a produção das marinhas em Aracaju é documentada por pesquisadores, cronistas e memorialistas. Nesse contexto, um dos maiores produtores e comerciantes de sal de Sergipe foi o mesmo do Recurso de Apelação impetrado em 1893, o sr. J. R. Bastos Coelho. Seu filho publicou em 1956 um livro de crônicas sobre a vida do salineiro e costumes de Aracaju do início daquele século, acentuando os negócios do pai. Segundo ele, “nos afluentes do rio Sergipe existem as mais numerosas e melhores salinas do Estado”.

Desde o final do século XIX que Bastos Coelho era proprietário de salinas na periferia de Aracaju (Bugiu, Getimana e Taiçoca). Tudo indica que ele e outros grandes negociantes compraram várias marinhas dos pequenos produtores do século XIX, os quais eram proprietários de terras com salinas naqueles arrabaldes. A venda das pequenas salinas para negociantes mais capitalizados não é improvável porque em significativa parcela dos Inventários do XIX aparecem dívidas a pagar.

A salina do sítio Bugiu (atual conjunto residencial), por exemplo, pertenceu a dois pequenos sitiantes, como se nota pela declaração de bens inventariada, possuindo o primeiro apenas um escravo e o segundo, somente dois. Já sob o controle de Bastos Coelho, a salina do Bugio possuía 160 (cento e sessenta!) coalhadores – enquanto as outras tinham de 20 a 40 -, e dezenas de empregados. O velho e rico salineiro também possuía várias embarcações. Seu maior barco era o “Salinas”, que suportou na viagem inaugural cerca de 2.500 (dois mil e quinhentos) sacos de sal. Pelo que se nota, apesar de ter outros empreendimentos, grande parcela da riqueza do negociante Bastos Coelho derivava do rio do Sal. (BASTOS COELHO, 1956: 16 e passim)

A riqueza econômica de Sergipe também contava com a significativa participação da extração de sal para exportação na primeira metade do século XX. No Álbum de Sergipe, de 1920, por exemplo, o sal aparece como o segundo maior produto em quantidade (Kg.) exportada, só perdendo para o açúcar. Com relação ao valor monetário adquirido com a exportação, ele vai para quarto lugar, perdendo para o açúcar, o tecido e o arroz. Isto se explica pelo baixo preço do produto no mercado. No entanto, o sal sempre se encontrava nos patamares dos produtos de maior exportação sergipana. Em 1917, conforme ainda Álbum, Sergipe produziu quase 15 milhões de quilos de sal, ou seja, cerca da metade da produção sacarina. Com certeza, a participação das salinas do Aracaju nesta estatística foi bastante significativa. (SILVA, 1920: 76-77).

Em 1948, por seu turno, o escritor Mário Cabral lembra que “no município de Aracaju existem cinqüenta salinas, produzindo em média, anualmente, cerca de 200.000 (duzentos mil) sacos de sessenta quilogramas”. Após dar razão aos números, ele escreve liricamente: “É bonito, ao entardecer, o espetáculo dos grandes armazéns, dos carregadores, dos tanques e das „marinhas‟, das gigantescas pirâmides de sal, cintilando, ao sol, como brilhantes alvadios engastados no aro escuro das „bancas‟ sem fim”. (CABRAL, 2001: 167).

Passados sessenta anos, no entanto, a bacia do rio do Sal sofreu enorme deterioração. Iniciou-se uma intensa e desordenada ocupação imobiliária de suas margens; formaram-se bairros da chamada “periferia desestruturada”. Por conseqüência disto, atualmente, a qualidade físico-química de suas águas apresenta altos índices de coliformes fecais que tornam o rio do Sal impróprio para o lazer e a pesca. Some-se a isto o alto grau de poluição decorrente do lançamento de efluentes industriais e residenciais ao longo de seu curso. (ARAÚJO; et al, 2006: 37-38).

No Aracaju, há poucas décadas, as salinas se extinguiram; e com elas toda uma cultura salineira. Resta-nos dizer que o tempo das salinas do Aracaju ficou apenas nas memórias como uma época evocada, por exemplo, nos poemas de Jacintho Figueiredo em homenagem a Aracaju de antanho. Dizia o poeta em 1955: “Outrora, o rio vinha docemente/ Beijar a areia … e hoje, não vem mais;/ Hoje ele encontra pedras, tão somente,/ As pedras que se alinham pelo cais.” (FIGUEIREDO, 2000: 63).

As últimas salinas que resistem à ação do processo de ocupação desordenada da área da grande Aracaju são as que se localizam no município vizinho de Nossa Senhora do Socorro; contígua à área de nosso estudo. Lá ainda resistem as últimas unidades familiares que produzem sal para consumo local, cujo destino será certamente a extinção pelos mesmos motivos ocorridos na vizinha capital, a transferência do capital imobiliário e industrial para a região; além da ocupação ilegal de áreas de mangue pela população, sem nenhuma infra-estrutura sanitária. Com isto, vislumbra-se a ampliação da periferia desordenada na região metropolitana da capital de Sergipe.

Por Amâncio Cardoso (Instituto Federal de Sergipe).

Fonte: Blog do Ricco (Crédito/Grupo Minha Terra é Sergipe)

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