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25 de agosto de 2026
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Boa Morte, uma tradição secular na vida de Cachoeira

Por Gilfrancisco*

Durante os anos 70 realizei inúmeras viagens a Cachoeira, algumas em companhia do professor José Calasans (Coordenador de Extensão da UFBA), Augusto Mascarenhas (Vice-Reitor da UFBA.) e Edval Passos (Vice-Governador), os dois últimos cachoeiranos. Na época trabalhava na Reitoria da UFBA, pela manhã na Procuradoria Jurídica, chefiada pelo Procurador Geral Edvaldo Pereira Brito, a tarde na Tesouraria com o Sr. Asclepíades Soledade e nas folgas de ambos os turnos desenvolvia algumas atividades culturais no Prodesc (Programa de Desenvolvimento de Cachoeira). Coordenado pela Extensão.  As constantes viagens eram para efetuar pagamentos a fornecedores ou prestadores de serviços, como Casa de Cultura Paulo Adorno, Restaurante Gruta Azul, Pousada do Preto Velho, realizar palestras, resolver algumas pendências administrativas e financeiras do projeto. Foi através de Dadinho e Carneirinho (antigos Ticoães) que conheci alguns membros da Irmandade da Boa Morte, mas somente mais tarde, em 1981, depois de assistir o documentário 35 mm “A Irmandade da Boa Morte”, dirigido por Alonso Rodrigues é que pude entender melhor o funcionamento e a importância cultural dessa sociedade feminina secreta. 

Idosas Negras – Na primeira quinzena de agosto, como acontecem todos os anos, a cidade de Cachoeira vive e participa de uma manifestação cultural das mais ricas e significativas que se tem notícia, no Recôncavo baiano: a festa de Nossa Senhora da Boa Morte. Celebrada desde os primórdios do movimento abolicionista, a festa preserva até hoje seus traços característicos, individualizados, marcados pelo sofrimento de um povo que lutou para alcançar a sua liberdade. E é exatamente este o significado da celebração: o agradecimento à Nossa Senhora pela liberdade conseguida a duras penas, com a realização de várias cerimônias, culminando com a Assunção de Nossa Senhora.

Embora garantam que não exista nenhuma preferência de cor, as irmãs afirmam que de “preferência e tradicionalmente escolhem as negras”. Sem nenhuma ajuda dos órgãos oficiais, as irmãs organizam a festa com o dinheiro que conseguem através de donativos públicos, sendo que “os mais humildes é que colaboram mais. Dos grandes comerciantes, a gente consegue muito pouca coisa. O pessoal de fora prestigia mais do que a gente da terra”.

Em 1950, a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, em Cachoeira, contava com 60 participantes, tinha uma igreja própria e na época das festas (duas por ano), as irmãs vestiam exuberantes roupas brancas, adornadas com caríssimas joias de ouro maciço. Em 1975 tinha apenas 16 membros e não tinha igreja. Segundo relato de algumas irmãs, afirmam que a festa, antigamente, começava sempre no dia 13 de agosto, com a sentinela e a missa de “corpo presente”, depois, todo mundo ia para a Ajuda, onde era realizada a ceia: no dia 14, havia a procissão. Hoje, embora o programa continue o mesmo, as datas não são mais fixas.

Cada ano é eleito uma juíza que é quem coordena os trabalhos de organização especial, mas a eleição da “Juíza” foi abolida por causa das dificuldades financeiras. A exigência para alguém entrar na Irmandade é de que seja uma pessoa concentrada e de boa vida. As mais novas, ficam como “irmãs de bolsa”, até serem votadas para ocupar algum dos quatro cargos da diretoria: escrivã, tesoureiro, juíza e procuradora. É justamente no mês de agosto em que a cultura negra ganha festa em Cachoeira na Bahia. A cidade inicia seu ciclo com a chamada “esmola geral” no início do mês de agosto, e à alvorada de foguetes, quando quatro religiosas saem pelas ruas de Cachoeira, fantasiadas de baianas pedindo donativos para a festa.

Devoção das Irmãs – Sociedade fechada, fiel zeladora das tradições culturais enraizadas, a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte guarda ainda os traços fortes de sua origem, como a admissão exclusiva de mulheres idosas e negras em seus quadros, tradição que continua sendo seguida religiosamente. Até o fim da escravidão, as irmãs mantiveram a tradição distante de possíveis modificações em sua estrutura.

O quadro da Irmandade, que já contou com a participação de cerca de 200 mulheres, reúne hoje cerca de 50 irmãs provenientes não só de Cachoeira, mas de outras cidades do Recôncavo, como São Felix, Maragogipe, Muritiba, Santo Amaro e até mesmo Salvador. Para entrar na Irmandade é preciso, antes de tudo muita devoção a Nossa Senhora da Boa Morte. Geralmente, as mulheres devem estar na faixa acima dos 40 anos, porque a partir dessa idade, segundo as irmãs, começam a perder o interesse material e sexual, fortalecendo o espiritual e a dedicação, de corpo e alma à devoção.

A candidata à Irmandade fica em observação durante três anos, quando as irmãs mais velhas, além de lhe transmitir os ensinamentos, observam o seu procedimento e avaliam sua responsabilidade. Nesse período, a iniciante é chamada “irmã de bolsa” e tem como função ajudar nos preparativos da festa, principalmente no recolhimento de donativos, sem, contudo, ter direito ao uso das vestes tradicionais da Irmandade durante a festa quando se apresentam, todo o tempo de branco, com a tradicional roupa de baiana. Após os três anos de observação, a candidata atinge o status de irmã.

As Ceias – Oferecidas à comunidade pela Irmandade da Boa Morte, têm um significado muito especial dentro da festa. Em cada noite, as irmãs servem diferentes iguarias, seguindo um ritual, que “é de princípio, uma tradição que as mais velhas ensinaram”. A primeira ceia acontece numa sexta-feira à noite, depois dos atos solenes da Igreja Matriz. A segunda se realiza no domingo, depois da “Procissão da Glória”, quando as irmãs oferecem para o almoço uma feijoada e dão início à parte profana da festa, com muito samba-de-roda. Na segunda-feira, é dia do cozido, com todas as verduras da região e, na terça-feira, o caruru e o mungunzá são disputados pela comunidade à noite, em meio a um animado samba-de-roda.

A ceia de sexta-feira é caracterizada como ceia branca, seguindo, uma tradição afro, de não se comer dendê neste dia, por ser dedicado a Oxalá, o pai de todos os Orixás. Tem o mesmo significado da ceia da sexta-feira da Paixão, quando se faz jejum e abstinência de carne. A ceia é sentimental, porque todos têm que guardar aquele dia, demonstrando sentimento pelo desaparecimento de nossa Senhora. O branco é sinal de sentimento, amor. “Assim como a comunhão é pão e vinho, para as irmãs, usam o peixe, o pão e o vinho”.

A provedora inicia esta ceia arrumando os alimentos na mesa, ajudada pelos membros da comissão, enquanto as irmãs aguardam silenciosamente. ,As comidas são arrumadas de forma harmoniosa, em uma comprida mesa de banquete, forrada com toalha de linho branco, rendada, oferecendo um visual colorido e variado, despertando o paladar e o apetite à simples visão de tão expressiva manifestação artística. Pronta a mesa as irmãs jogam pipoca (doboru) em toda a área da casa e nos presentes, significando a purificação a limpeza de corpo e alma, de acordo com o preceito para Omolu, Orixá que tem poderes sobre a saúde e a doença.

Assim como cristo dividiu o pão e o vinho com seus apóstolos, as irmãs repartem, com os presentes, o vinho, um pouco de pão, bacalhau e outros frutos do mar, preparados de várias maneiras. Depois de todo o público está servido é que as irmãs repartem entre si os alimentos. A ceia transcorre em um clima de muita serenidade e respeito, como convém a um momento de pesar. Muitas irmãs comem com as mãos, dispensando os talheres, mantendo uma tradição herdade de seus ancestrais.

O jornalista e escritor Odorico Tavares (pernambucano radicado na Bahia) ressaltou a perpetuação desta tradição dizendo no seu livro “Bahia Imagens da terra e do Povo” (1967): “Os anos desabam sobre a velha cidade, mas a confraria prossegue através dos tempos. Enquanto houver as pretas de Cachoeira, enquanto elas tiverem braços para trabalhar e coração para amar a sua santa, jamais a irmandade desaparecerá. A sua congênere da igreja da Barroquinha da capital desapareceu com o progresso, mas a de Cachoeira prossegue vigilante e ativa”.

Patrimônio – Todo o patrimônio original dos escravos foi comprado por elas, mas não há registro de como o conseguiram. Poucas ainda guardam as peças antigas, em estilo africano. A maioria foi vendida para custear as festas. Restam uma coroa de prata banhada a ouro, um para de brincos cravejados com brilhantes, um peitilho com 370 diamantes, um resplendor de prata e ouro com uma ametista e um par de sapatos em ouro, sob guarda do Museu das Alfaias, em Cachoeira e no Museu Costa Pinto, em Salvador.

Durante os dias de festas, as joias são entregues a sociedade e depois devolvidas as prateleiras. A imagem de Nossa Senhora da Boa Morte, também adquirida pelos negros, data do século XVIII. Os mais importantes trajes da Irmandade são longas saias pretas, plissadas, com forro vermelho, becas de veludos preto, forrados com cetim vermelho e batas brancas bordadas. Têm ainda um torço, chamado toalhinha, e o bico, lenço que levam ao pescoço, no dia de procissão pela Ressurreição e na sexta-feira Santa nas ceias, as irmãs vestem-se com roupas brancas de baianas.

Tradição – Há mais de 180 anos cachoeira era habitada por negros escravos e seus senhores. Nesse tempo, nasceu a devoção a Nossa Senhora da Boa Morte, transformada numa das mais importantes tradições dessa natureza. A Irmandade da Boa Morte, fundada em 1823, por negras alforriadas, tem como objetivo promover as festividades por ocasião de Assunção de Nossa Senhora da Boa Morte, em agosto. A cerimônia realiza-se com o pagamento da promessa e a gratidão dos ex-escravos pela liberdade.

Com mais de duzentos negros, na época da escravatura, a Irmandade é formada hoje por poucos membros. O simbolismo de raro luxo que ainda nutre a celebração e a fusão do espírito religioso com a graça profana do samba-de-roda faz da Boa Morte um das poucas manifestações populares cuja autenticidade leva o respeito da população e a admiração dos visitantes.

A sociedade da Boa Morte não segue regulamentos escritos, não se considera instituição, nem despreza certas formalidades em suas homenagens à santa. Há cerca de vinte validades em suas homenagens à santa. A partir de 1960 fez-se um livro de fundação que acabou sendo queimado por uma irmã esclerosada.

As religiosas mais antigas desconhecem o conteúdo desse livro destruído, mas conservam os rituais, pela tradição dos vários anos de prática. Uma congregação exclusiva de mulheres, as irmãs dizem que nunca tiveram necessidade de incluir homens em seus quadros, existindo a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Martírios, exclusivamente para homens. A direção da sociedade é feita por quatro irmãs, distribuídas nos cargos de procuradora geral, provedora, tesoureira e escrivã cuja ocupação é simbólica porque elas quase nunca sabem escrever.

Cidade Histórica e Mística – Cachoeira é uma cidade forte e mística, a mais negra da Bahia. Desde a colonização do recôncavo, com a implantação dos engenhos de açúcar, ela abrigou o maior número de negros escravos, de várias nações africanas. Talvez por essa razão a cidade tenha em suas raízes a influência marcante da cultura africana que, miscigenada às tradições católicas, resultou nas manifestações sincrético-religiosas como a que celebra a Irmandade da Boa Morte.

Situada no recôncavo, a 109 quilômetros de Salvador, cachoeira nasceu à margem do rio Paraguaçu, quando, no século XVI, os engenhos de cana-de-açúcar começaram a ser instalados na região, marcando a presença, ao mesmo tempo, do elemento português e do africano. É testemunha ainda viva dessa época a capela de Nossa senhora da ajuda, em torno da qual moravam os colonizadores. Em 1822, a cidade abrigou senhores de engenho do recôncavo e parte da população de Salvador dos ataques do general Madeira de Melo.

Em 25 de junho desse ano, o senador da Câmara de Cachoeira proclamou o Príncipe Dom Pedro “defensor e protetor deste Reino do Brasil”, tendo a população desempenhado um papel saliente nas lutas da independência. Pelos feitos na guerra, Cachoeira foi considerada Cidade Heroica, pela Lei nº43 de 13 de março de 1837.

Terra de muitos heróis e grandes personalidades da história do Brasil, Cachoeira notabilizou-se também por seu patrimônio histórico cultural e arquitetônico, tanto que, por força de outro decreto, o de nº68045, do governo federal, a cidade converteu-se em Monumento Nacional, integralmente tombado pelo SPHAN – Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Entre os monumentos de engenharia da cidade, destaca-se a Ponte ferroviária D. Pedro II, que liga Cachoeira a São Felix com 365 metros de comprimentos, construída no século XIX, por ordem do imperador, quando de sua visita à cidade. Além de histórica, Cachoeira é a cidade mais negra e mística da Bahia, reunindo o maior número de candomblés de todo o estado, preservando tradições como a festa da Boa Morte.

*Gilfrancisco é jornalista, escritor, Doutor Honoris Causa concedido pela Universidade Federal de Sergipe -UFS. Membro do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia e do Grupo Plena/CNPq/UFS e do GPCIR/CNPq/UFS

gilfrancisco.santos@gmail.com

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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