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A Revolta de Fausto Cardoso

Por Gilfrancisco*

Bacharel em Direito, foi promotor público, poeta, filósofo, político e jornalista. Colaborou para jornais do Rio de Janeiro: O Dia, Diário de Notícias, A Imprensa, O Debate e Aurora. Foi assassinado numa revolta acontecida na capital sergipana, em 28 de agosto de 1906, na praça que tem o seu nome. Após sua morte foi feito nome de clube de futebol, de uma praça e palácio, desfruta prestígio excepcional como nenhum outro em sua terra. Sua imagem está bem presente no tempo, influenciando o comportamento político de muitos sergipanos.

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Fausto Cardoso iluminou o pensamento de gerações sergipanas. Empolgou a mocidade. Extasiou os pequenos. Despertou os humildes. Fez vibrar os famintos de desenvolvimento, os sedentos de justiça.

                        Ariosvaldo Figueiredo (1923-2008)

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Nasceu Fausto de Aguiar Cardoso na vila sergipana de Divina Pastora, distante de Aracaju 39 km, no engenho São Felix, em 22 de dezembro de 1864. Seus pais foram o tenente-coronel Félix Zeferino Cardoso e D. Maria do Patrocínio de Aguiar Cardoso, figuras proeminentes da região, proprietários dos mais abastados que viviam do massapê e do braço escravo, como de resto a aristocracia açucareira do Brasil da época. Em Divina Pastora iniciou os primeiros estudos na escola do Padre Antônio Joaquim Paiva, em Maruim de onde sai para o colégio do Padre Francisco Viana de Melo, em Capela e conclui no curso primário.

Em seguida vai para a capital estudar humanidades no Ateneu Sergipense e conclui o curso secundário no Colégio Sete de Setembro, e de lá saindo para prestar exames para a Faculdade de Direito de Recife, em 1882, formando-se dois anos depois, tendo sido, na época, aluno de Tobias Barreto (1839-1889). Apesar de não ter sido aluno brilhante, soube bem utilizar os recursos da sua inteligência, sempre foi distinguido com muita estima, pelos seus mestres durante o seu tempo de estudante em Recife.

Faculdade de Direito

Seu ingresso na tradicional Faculdade de Direito, foi descrito pelo colega Moreno Brandão:

            Num dos dias do primeiro semestre do ano de 1882 estava na Faculdade de Direito de Recife um mocinho imberbe, franzino e de figura empolgante, que teve a singularidade de vestir ao avesso o fraque cinzento que traja na ocasião. (1)

Irreverente e inquieto, era conhecido na república onde morava, como “cidadão irrequieto das repúblicas estudantis”, mereceu de Manoel Cabral Machado, um depoimento sobre essa fase estudantil de sua vida:

            Temperamento extrovertido, Fausto conquistou a afeição dos mestres e colegas, tornando-se conhecido da sociedade recifense. Frequenta os aristocráticos salões do Recife… Nas repúblicas o acadêmico namorava a vizinha mais bonita. E, explicava, era o meio mais próprio para receber presentes. (2)

Convalescimento

Adoecendo e sem condições de tratamento onde residia, vai para Salvador, à procura de cuidados mais adequados, e tem uma passagem rápida. Lá projeta-se na sociedade baiana, discursando inclusive numa visita à Salvador do Barão de Cotegipe, o grande estadista do Império. (3) De volta a Recife, continua o mesmo de sempre, estudando e frequentando as noitadas estudantis. Após a conclusão do curso jurídico, deixa finalmente Recife, aonde não mais retornaria.

Clube Revolucionário

Em Sergipe, foi nomeado promotor de Capela, Gararu, Riachuelo e Laranjeiras. Casado com a prima Maria Pastora, leva uma vida tranquilamente com os ares sertanejos, dedicando-se a leitura, escrita e meditação, tentando recuperar o tempo “perdido” nas noitadas recifenses. Mas o prolongamento desse sossego o irritava, por isso transfere-se para Riachuelo e, em 1887 para a promotoria de Laranjeiras, onde encontrou campo fértil para suas atividades intelectuais. (4)

Fausto Cardoso ingressa no Clube Revolucionário, onde as ideias do jovem promotor não agradam aos políticos conservadores e monarquistas. Desta forma, abalando as instituições decadentes e retrógadas da província, o que motivou seu afastamento da Promotoria, somente reintegrado ao cargo em 1889, com a ascensão do gabinete liberal. No Rio de Janeiro um ano depois, ingressou no magistério, destacando-se como sociológico e jornalista. Eleito deputado federal por Sergipe para o período de 1900-1902, foi reeleito para o segundo mandato. Notável tribuno, Fausto Cardoso era vibrante e impetuoso, conforme vários depoimentos da época. Muitas de suas orações políticas na Câmara federal suscitavam violentos protesto, que não o inquietavam, devido sua superioridade intelectual.

Fausto versus Olímpio

A inimizade entre ambos teve inicio em Recife, quando eram estudantes do curso de Direito. Olímpio Campos decidiu-se pela vida eclesiástica, principalmente por ter sido amigo do padre Felix Vasconcelos Barreto. Ordenado no Seminário da Bahia, assumiu funções em Sergipe, sendo vigário da Catedral em Aracaju, além de deputado geral no império (1885-1886), (1886-1889). Com a Proclamação da República foi intendente de Aracaju, deputado estadual e presidente da Assembleia Constituinte em 1892, tornando líder de forte força política no Estado.

O Monsenhor Olímpio Campos era um árduo defensor da formação religiosa dos jovens estudantes, uma luta que teve início em 1881, durante o mandato do presidente da província Inglês de Sousa, escritor positivista que transforma o ensino religioso em facultativo. (5) Olímpio conseguiu ser deputado estadual e realizou a principal meta da campanha, que fora reimplantar na escola normalista, por meio de projeto lei, o ensino religioso.

Ideais Republicanos

Levado pelos conselhos de Felisbello Freire (1858-1916), considerado um republicano histórico, quer na redação de O Republicano, no governo do Estado, no Congresso Nacional, no Ministério da Fazenda dom Governo Floriano Peixoto, aderiu à sua campanha e fez com que o advogado criasse o Partido Progressista em 1906 e fizesse uma revolução, formando na capital uma espécie de exército de libertação.

Fausto era um lutador em prol da liberdade, da formação de uma sociedade democrática, senhor de um estilo fluente, elegante, enérgico, fascinando as multidões com sua palavra franca, veemente. Enquanto o Olímpio Campos representava as forças tradicionais e conservadoras. Sobre sua conduta escreveu Fausto Cardoso:

            Dizem que invectivo de uma maneira horrorosa o “santo” padre Olímpio. Pois, não há homem mais tremendo do que este, quando escreve contra os outros.

Derrubada de Guilherme Campos

O acordo firmado entre Olímpio Campos e Martinho Garcez, levava a crer que Fausto Cardoso havia sido apoiado por Olímpio, mas o parlamentar leu na Câmara federal vários telegramas provando que não havia sido eleito por ele, e sim por Garcez. Pois, era do conhecimento de todos que Olímpio se pôs tenazmente aos nomes de Fausto e Silvio Romero. Além da luta pessoal entre Fausto e Olímpio, existia ainda o choque de mentalidades, levados pelo livre pensamento, contra o dogmatismo. O Movimento de 1906 foi consequência das doutrinas, que a partir da segunda metade do século XIX revolucionaria o pensamento nacional, com os sergipanos Tobias Barreto e Silvio Romero, para concretizar sua evolução política e social.

 Essas ideias políticas e filosóficas foram absorvidas pelos integrantes do movimento durante toda a sua trajetória:

            Prepararam-na, aos poucos, bacharéis imbuídos dos ideais da época tobiática – moços que ouviram a palavra do mestre, na cátedra gloriosa do Recife – e jovens idealistas, expulsos da Escola Militar, em consequências dos diversos movimentos revolucionários do começo do século, que retornavam à terra natal, com a carreira cortada, mas repletos de são idealismo. (6)

Estopim

O incidente começa na madrugada do dia 10 de agosto, quando o sargento Papa-Rosa, juntamente com o alferes reformado do Exército, Otaviano Mesquita e Liberato Mesquita, prendem o oficial de Estado e levantam a tropa. Rebelado o quartel, marcham os soldados para o ataque ao Palácio. Deposto Guilherme de Souza Campos (1850-1923), que havia sido, por sete vezes, Presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe (1899-1905) e eleito Presidente do Estado em 1906.

Depostas as autoridades, organizada uma assembleia revolucionário e ilegal, aguardou-se durante 18 dias, que os poderes federais do país solucionassem à ação dos revoltosos. São momentos difíceis da vida política de Sergipe. O comando da revolta lhe é entregue pelos companheiros, e adesão em torno do seu nome começa a crescer. Três dias após assumir o novo governo e dava seus primeiros passos, com atos meramente administrativos.

Nos momentos decisivos, Fausto tomou o rumo do Palácio, juntamente com os poucos que aderiram a empreitada. Quando adentraram no Palácio, o General ordenou a força que evacuasse os manifestantes, e de repente travou-se a luta: João Mota foi ferido num braço, Nicolau atingido mortalmente, o tenente Franco comandava a tropa, conseguir expulsar os invasores do Palácio, entre alarido e desordem, cai mortalmente ferido Fausto Cardoso aos 42 anos de idade, em 28 de agosto de 1906.

Morte dos políticos

Os seguidores de Fausto Cardoso, bem como seus familiares, atribuíram a responsabilidade da sua morte, ao Monsenhor/político Olímpio de Souza  Campos (1853-1906), chefe inconteste do situacionismo sergipano. Nunca ficou apurada a verdadeira origem do disparo fatal. A 9 de novembrodo mesmo ano, na capital da República, onde se encontrava no exercício do seu mandato de senador, Olímpio Campos foi morto na Praça XV, no Rio de Janeiro, provavelmente pelos filhos de Fausto, Humberto e Armando Cardoso.

Além de político e pensador, Fausto deixou uma obra poética praticamente desconhecida até hoje, não mereceu ainda um estudo crítico, até daquele que a ela dedicou João Pereira Barreto em 1903. (7) Peça fundamental pelo pioneirismo e pelo depoimento elucidativo, do amigo e conterrâneo que acompanhou de perto sua trajetória. Grande parte desse material esparsos em periódicos de Sergipe, Alagoas e do Rio de Janeiro, continua impossibilitando uma visão mais apurada do conjunto deste importante acervo para as letras sergipanas.

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Palavras de Fausto Cardoso

                 E riram e me chamaram doido, porque em nome da história e da ciência, pedi a ditadura para um povo que se dissolve e se precisa reerguer!

                E como reerguê-lo, digam-me, sem curar essa chaga que o corrói e o devasta? E como curá-la sem ferro e sem fogo se ela é crônica, extensa, profunda, fatal?

                E não se haviam de revoltar traiçoeira e covardemente, contra quem apontou o facho que a deve destruir, os sensatos que dizem, riram, me chamaram doido, e aí crescem e se desenvolvem, engordando?

                É uma revolta de micróbios que se alentam e proliferam no pus de uma úlcera, contra o cautério que dela se aproxima para a destruir, destruindo-os.

                Ninguém os vê; ninguém os percebes. Mas eles se alvoroçam e fervilham instintivamente assombrados ante a destruição possível do meio que lhes é propício e fecundo.

                Deve-se, porém, recuar por que eles tremem de se aniquilarem?

                Não. Não, porque o organismo não pode continuar sob a ação de uma ferida aberta, gangrenada, esvurmante, mortal.

                E se a crise, como se vê e se sente, é moral e não política, é de caráter e não legal, o remédio que se lhe deve aplicar e o que a história aponta e os fatos indicam – a ditadura. (8)

                                                                              =====

 Revolta de Fausto

             A Revolta de Fausto Cardoso é significativa de um momento de cisão na fração hegemônica da burguesia sergipana, momento crítico em que as camadas médias urbanas encontram condições de se pronunciar. O discurso antioligárquico das camadas médias urbanas e vinculadas pela própria cisão oligárquica, que busca, no fundo, a recomposição do poder. O movimento é compreendido assim na sua ambiguidade: o ataque ao caráter elitista, fechado e dominador do grupo no poder é a linguagem de que se serve também a dissidência situacionista.

                As deposições se sucederam no Sergipe republicano. Já o primeiro governante não pode concluir seu mandato e o primeiro “presidente” constitucional enfrentou uma duplicata de poderes. O que há, pois, de diferente e especial na deposição de 1906? Desde 1899 consolidara-se o primeiro grande grupo oligárquico do período republicano, que resistira até a dissidência aberta no partido governista, em 1902. A oposição, esmagada, emudecera e buscava um acordo com o Governo, na perspectiva de conseguir uma cadeira na Câmara dos Deputados. A nova oposição, nascida nas eleições de 1906, tem outra estratégia. Ela se alia a dissidência governista e se dirige as camadas populares, falando em tomar o poder com elas, ainda que não para elas. Sua força provém igualmente do aparecimento de um político prestigioso junto ao Governo Federal, que compensa com empregos federais os benefícios que no partido governista distribui a seus correligionários e acena com uma vitória garantida também por acordos feitos com os grandes condutores da política nacional. É Fausto Cardoso, ligado ao presidente Rodrigues Alves e dono de prestígio indiscutível, como orador, jornalista e escritor. Numa fase em que o controle da “política dos governadores” se transferira do presidente da República para o Rio Grande do Sul, pelas mãos de Pinheiro Machado, o prestígio de Fausto Cardoso,  construído sem proteção do líder gaúcho, não foi suficiente para garantir o aval da União a troca do grupo no poder: a revolta foi esmagada, com a reposição de um Governo internamente contestado.

(Impasses do Federalismo Brasileiro-Sergipe e a Revolta de Fausto Cardoso. Rio de Janeiro. Paz & Terra/UFS, 1985. 2ª edição, Editora UFS, São Cristóvão, 2014.)

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 Notas

  1. Moreno Brandão. Fausto Cardoso-esboço biográfico. Penedo. Typ. De Carvalho Filho, 1909.
  2. Manoel Cabral Machado. A tragédia de Fausto Cardoso. Revista de Aracaju, nº 6, 1957.
  3. João Mauricio Wanderley (Barão de Cotegipe, 1815-1889), político e magistrado baiano, deputado (1843-1856), senador (1856-1889), sempre representando a Bahia, da qual foi também presidente (1852), ministro da Marinha (1855-1868), da Fazenda (1865), de Estrangeiros (1869, 1875 e 1886) e presidente do Conselho de Ministros (1885-1888).
  4. Laranjeiras era a Atenas sergipana, considerada na época uma cidade progressista, com foros de intelectualidade e foco republicano na província.
  5. Herculano Marcos Inglês de Sousa (1853-Pará/1918-Rio de Janeiro), um dos introdutores do naturalismo na literatura nacional. Publicou as obras: O Cauculista (1876); O Coronel Sangrado (1877); História de um Pescador; Contos Amazônicos (1892) e o Missionário (1888), considerado seu melhor romance.
  6. José Calasans. Fausto Cardoso. Salvador, 1970.
  7. José Pereira Barreto. Sergipanos Ilustres: Fausto Cardoso. Aracaju, Jornal de Sergipe, 12 de julho de 1903. Jackson da Silva Lima (org.) Esparsos e Inéditos de Fausto Cardoso – vol. VI. Aracaju, Governo do Estado de Sergipe, 1980.
  8. Trecho de Lei e Arbítrio, célebre discurso pronunciado por Fausto Cardoso, na Sessão dos Câmara dos Deputados de 9 de julho de 1902.

*Gilfrancisco é jornalista, escritor, Doutor Honoris Causa pela UFS. Membro do Grupo Plena/CNPq/UFS e do CPCIR/CNPq/UFS

gilfrancisco.santos@gmail.com

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