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A República Velha, Lampião e a Era Vargas

Por Marcelo Rocha *

Muitos fatores integram a explicação do fato de ser Lampião – Virgulino Ferreira da Silva – personagem histórica das mais famanazes.

Argumentos históricos, sociológicos e antropológicos, dentre outros, são capazes de indicar de modo profundo ou bem delineado (amplamente) a explicação para tal. Também é verdade que a muito do que se escreve – a maioria maciça – carece de um método minimamente capaz de assegurar uma certa confiabilidade, algo que somente ele é capaz de fornecer.

Assim sendo, em que pesem os escritores de boa fé, muito se vê pessoas comprometidas com seus próprios interesses – desde os financeiro, passando pelos enaltecedores de uma ou outra personagem ligada a si até os vaidosos que querem mesmo forçar uma autovalidação do seu conhecimento sobre  o assunto ou da própria família, como se fosse o dono da “verdade histórica” ou o guardião do conhecimento histórico específico.

Nesse diapasão, tudo já se viu nos escritos do cangaço, desde a santificação de criminosos – de todos os lados, passando pela mudança desleal, mas pensada, dos fatos, até a invenção de fanfic’s – quando se inventa algo propositalmente.

Lamento bastante a quantidade de tempo e esforço que alguns gastam em suas investigações – evitarei o uso do termo pesquisa de forma indiscriminada, reservada à melhor proporcionada pelas Ciências – quando podendo produzir algo realmente útil, não o fazem. Friso não ser conhecedor da História como alguém que tenha formação específica ou que empreenda pesquisas robustas e estruturadas, mas sou um curioso – ou como diria um amigo, “um burro esforçado”, com a mínima noção da diferença entre História e Memória.

Sigamos.

Portanto, considerando a tal produção maciça citada, observo que apesar da quantidade de obras sobre  o tema – Virgulino é o segundo mais biografado na América Latina – o grosso do que se transmite é, infelizmente, carente de profundidade mínima diante da complexidade do tema ou mesmo de precisão. Pergunto-me se isso decorre de falta de capacidade ou, pelo contrário, apenas é a escolha.

Nesse sentido, a cereja do bolo é ainda ter de ouvir o recorrente questionamento sobre Lampião ser herói ou bandido, nada tão superficial. Obvio que não me refiro a quem não se debruça sobre o assunto.

Talvez a diferença de se buscar o passado com o mínimo distanciamento como faz  o Historiador, ao invés de observá-lo através de afetos ou somente percepções pessoais seja a chave para entendermos melhor esse tema.

E não se trata de qualificar, pois o conhecimento estruturado e o popular, ambos, tem seu espaço e importância. Não à toa, temos as duas maiores e incontestáveis referências sobre Lampião em um Historiador de ofício e um Memorialista: duas matrizes do que se existe e do que ainda está por vir.

Ninguém poderá iniciar pesquisa séria sem passar pelas fontes de Antônio Amaury Correia de Araújo, o dentista que escarafunchou o nordeste em busca dos relatos dos sobreviventes, e  de Frederico Pernambucano de Mello que trouxe a complexidade do fenômeno  Cangaço. A História e a Memória por ambos produzidas se complementam e valorizam mutuamente, nos permitindo a generalização e a sintetização do assunto, como se espera desse tipo de assunto.

Mas esse equilíbrio não ocorre na sucessão ambos, apesar da observância de mais pesquisas cientificas ultimamente, elas não integram o grosso do que se tem disponível em livrarias (físicas ou digitais), pelo contrário.

E dentro desse balaio que enchi até aqui, debruço-me sobre um tema de pouca atenção, que vem a ser as razões profundas do surgimento de Virgulino como Lampião.

Uns dizem que foi Zé Saturnino, com quem se desentendeu e desse desentendimento teria virado o bandoleiro que assolaria o nordeste. Outros, mais desavisados de ouvir falar, acreditam que ele era um ladrão ou arruaceiro comum, que assim fez por ser pobre. Argumentos desse tipo explicam na especificidade, apenas.

Ora, Zé Saturnino sozinho não era capaz de conter Lampião e seus irmãos em uma gesta. Na verdade não o foi, somente com o apoio dos seus parentes e das autoridades aliadas conseguiu expulsá-lo, e sua família, de Pernambuco.

Lampião também não era pobre ou, pior, miserável, pelo contrário, sua família era próspera com seu tropel de burros de almocrevia. E se considerarmos que a citada expulsão quebrou economicamente sua família que empobreceu, temos mais um elemento pouco contextualizado, mas de primordial necessidade de se conhecer. A briga com Saturnino, importante, não se sustenta sozinha, nesse ponto.

E quem nos trás luzes a isso é a pesquisa de Sarmento (2019) – “Virgulino cartografado”, clarificando o entendimento acerca das relações de poder e dessas relações com o próprio surgimento de Virgulino como Lampião.

O desentendimento de Virgulino e Saturnino, antes de ser um desentendimento de vizinhos (furto de cabras e bodes pertencentes à Lampião), pode (e deve) ser visto como o desdobramento final do último capitulo das disputas de poder entre os Carvalhos (Zé Saturnino) e os Pereiras (Sinhô Pereira/Lampião).

E em que pese parecer uma disputa local de poder – o que também o era – antes retratava a disputa sucessória de poder entre um grupo que houve hegemônico durante o império, os “Pereiras” (o Barão do Pajeú era um Pereira), que em fins do século XIX ruiria junto com o golpe que depôs Pedro II e o grupo dos “Carvalhos” (Coronel Jeronimo Pires de Carvalho, proeminente membro) que com o advento da República alçaria o poder de forma incontestável.

Era o deslocamento  do poder das mãos dos Pereiras, que no império era assegurando pelo poder central do Imperador,às mãos dos Carvalhos, agora perfilados aos governos locais, agora dotados de poder capaz de conter as oligarquias historicamente ligadas à monarquia finda. Eis a tormentosa última década do século XIX e as primeiras do século seguinte – nos quais Lampião é forjado – quando, tal qual as décadas que sucederam a Independência de Pedro, anos antes, novas instituições são empoderadas como modo de assegurar a consolidação do novo regime.

É do lado “inimigo” da República (Pereiras) que Lampião está. É do lado amigo do novo regime (Carvalhos) que se integram Saturnino e todos os que se omitiram à busca de uma razoável solução ao desentendimento deste com Saturnino, causando a ruína da família de José Ferreira, culminando no seu assassinato, pelo Tenente Lucena.

Agora temos uma visão mais cristalina de como se estrutura o cangaço do início do século XX, especificamente o operado por Lampião. Saímos de explicações que deixam a desejar, passando a entender como operava o poder à época e como estar de um ou outro lado poderia ser vantajoso ou não. Na lide entre Lampião e Saturnino, a família de Lampião foi toda expulsa da região com anuência de autoridades, enquanto Saturnino não moveu meio metro de cerca, sendo que este fora o inicialmente acusado de abater animais dos ferreiras.

Resta claro que todas as soluções impostas aos ferreiras lhes foram desvantajosas, mesmo intermediadas pelo poder que deveria agir de modo impessoal.

Virgulino, após entrar definitivamente no cangaço, aprenderia logo como se relacionar com o poder, tirando proveito disso. Chegando a aliar-se com ao menos um Interventor, auxiliando-o até em campanhas eleitorais – como bem cita Frederico Pernambucano de Mello em “guerreiros do Sol”. Saberia muito bem como se posicionar diante do poder e, por isso, saberia amealhar dentre os coronéis muitos amigos (leia-se coiteiros), o que lhe permitiu fundamentalmente reunir as condições para se manter no crime por quase 20 anos.

E por mais óbvio que possa parecer – ou não – muito assiste razão crer que a nova transição de regime operada por Vargas após 1937, atacando novamente as oligarquias que lhe pudessem atrapalhar a consolidação de seu poder, foi também a responsável pelo fim do Cangaço e de Lampião, vez que aquele bando nômade perambulando pelas caatingas há décadas era uma demonstração de fraqueza do poder central.

Eis Virgulino, que vira Lampião na esteira da consolidação da República e que será extinto junto ao fim desta primeira fase republicana do país.

É tenente coronel, membro da Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço. 

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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