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22 de junho de 2026
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Professores acuados, um modelo fragilizado e a formação… quem segura?

Por Mairim Russo Serafini* e Lucindo Quintans Júnior**

Poucas relações na vida acadêmica são tão intensas, prolongadas e emocionalmente carregadas quanto a relação entre orientador e orientando na pós-graduação. Trata-se de um vínculo assimétrico por definição, atravessado por expectativas, frustrações, idealizações, algumas decepções e disputas simbólicas. É única, porque pessoas não se repetem, mesmo quando ocupam o mesmo espaço. Ainda assim, o debate público insiste em tratá-la de forma simplória. De um lado, o aluno elevado à condição de vulnerável permanente. Do outro, o professor reduzido à figura automaticamente suspeita. Essa leitura rasa não esclarece o problema, apenas o empobrece e adoece ambos.

É evidente que existem práticas abusivas na academia. Há autoritarismo, humilhação, assédio moral e uso perverso do poder, e isso precisa ser nomeado e combatido. Esse debate é necessário e merece atenção própria, sobretudo num momento em que o aumento dos afastamentos de estudantes e docentes por depressão e outros adoecimentos psíquicos sinaliza que algo mais profundo está em colapso. O ponto cego, porém, começa quando a régua se desloca e toda exigência passa a ser lida como violência, todo limite como opressão. Nesse embaralhamento, perde-se algo fundamental: a distinção entre abuso e rigor, entre autoritarismo e responsabilidade formativa.

A psicologia e a psicanálise ajudam a compreender, pelo menos em parte, por que essa confusão se tornou tão frequente. Freud já apontava que toda relação com figuras de autoridade reativa conteúdos infantis: o medo de errar, a necessidade de aprovação, a sensibilidade excessiva à crítica. O orientador, ao cortar um parágrafo, negar um avanço apressado, sugerir o caminho mais seguro que a experiência ensinou, ousar propor atalhos ainda não trilhados ou simplesmente apontar uma falha metodológica, acaba esbarrando diretamente no investimento narcísico do aluno. Isto é, atinge a imagem que ele construiu de si como alguém competente ou já “pronto”. Mas a pós-graduação é exatamente o contrário disso: um processo de formação.

Quando os circuitos de autoavaliação estão sob alta carga emocional, a crítica deixa de ser processada como informação corretiva e passa a ser registrada como ameaça. O foco se desloca do texto, do experimento ou da hipótese para o próprio sujeito, que interpreta o feedback como diminuição pessoal. Diante desse processamento defensivo, a frustração tende a ser convertida em estratégias de autoproteção. A crítica é reinterpretada, a intenção é deslocada e o outro passa a ocupar o lugar de ameaça. O efeito colateral é claro: preserva-se o senso de integridade subjetiva, mas interrompe-se o aprendizado.

Lacan foi ainda mais direto ao afirmar de forma inequívoca que aprender implica aceitar o não saber. O orientador, nesse sentido, ocupa uma função estrutural: a de sustentar o limite entre o desejo de saber e a ilusão de já saber. Quando diz “isso ainda não está bom”, ele não está exercendo poder pessoal, mas representando uma exigência do próprio campo científico. O problema é que essa função simbólica passou a ser confundida com autoritarismo, como se todo limite fosse expressão de abuso.

Vivemos um tempo em que se confunde empatia com ausência de frustração. Espera-se que o orientador acolha, compreenda, valide, mas que não confronte. A formação acadêmica exige confronto com o real: com o erro, o tempo, a complexidade do conhecimento, as metas e o próprio modo de funcionamento de uma pós-graduação escolhida de forma consciente. Quando a crítica é interditada em nome do conforto emocional, o processo formativo inevitavelmente se empobrece.

Do ponto de vista Junguiano, muitos conflitos na orientação revelam a chamada sombra: afetos difíceis de admitir, como inveja, ressentimento, rivalidade e sentimento de inadequação. Em vez de reconhecer esses conteúdos como parte do próprio amadurecimento psíquico, o aluno os projeta. Assim, o orientador passa a ocupar o lugar daquele que “causa” o mal-estar, quando muitas vezes ele apenas o torna visível.

Quase não se fala, porém, sobre o outro polo dessa relação. O que acontece quando o aluno ultrapassa limites de forma recorrente? Quando fala com desrespeito, manipula afetivamente, desconsidera acordos, tensiona a relação e transforma a orientação em um campo permanente de conflito? Assim, o ensinar passa a exigir cálculo demasiado, cautela desproporcional e silêncio onde deveria haver diálogo. Esses comportamentos também adoecem. Professores adoecem. E esse sofrimento costuma ser silenciado, naturalizado ou, o que é igualmente grave, deslegitimado.

Uma pesquisa nacional recente expõe um dado alarmante: oito em cada dez professores já pensaram em abandonar a carreira. Embora faltem números específicos sobre o ensino superior, esse mal-estar percorre as universidades. Cresce o desestímulo para ensinar, pesquisar e orientar na pós-graduação, não pela ciência, mas por ambientes percebidos como hostis, marcados por vigilância permanente, judicialização difusa e uma burocracia que recai quase exclusivamente sobre quem está no meio do processo. O efeito é previsível: estados contínuos de alerta, esgotamento e retração. Perdemos bons docentes sob o peso do assédio silencioso, da sensação de inutilidade do esforço e da sobrecarga crônica. Diante disso, a pergunta deixa de ser por que tantos desistem, e passa a ser outra, bem mais simples: por que continuar?

Há ainda um ponto estrutural pouco discutido: a necessidade de reconhecer papéis diferentes no processo de formação acadêmica. Isso não tem a ver com autoritarismo ou abuso de poder, mas com a própria lógica do ensino e da pesquisa. O orientador ocupa esse lugar não por ser “superior”, mas por ter mais experiência, responder institucionalmente pelo trabalho e representar os critérios, os prazos e as exigências da ciência.

Quando essa assimetria é negada, não se produz igualdade, mas confusão. O aluno passa a se colocar no mesmo plano de decisão sem ainda ter atravessado o percurso formativo necessário. O orientador, por sua vez, é impedido de exercer sua função. O resultado não é emancipação, mas a desorganização do vínculo, o empobrecimento da formação e resultados cada vez menos promissores para a pesquisa e para quem deveria ser transformado pelo processo: o orientado.

É preciso afirmar algo que parece ter se tornado impronunciável: nem todo desconforto é violência. Nem toda cobrança é abuso. Nem toda dor é injustiça. A pós-graduação não é um espaço terapêutico, embora convoque afetos profundos. Ela é, antes de tudo, um espaço de formação intelectual e ética, que exige tolerância à frustração, responsabilidade subjetiva e capacidade de escuta.

Ao infantilizar o aluno, retiramos dele a chance de amadurecer. Ao demonizar o rigor, esvaziamos a própria ideia de formação acadêmica. E ao silenciar o sofrimento dos orientadores, criamos um ambiente em que o limite vira tabu e o conflito, patologia.

Talvez seja hora de ampliar a pergunta. Em vez de discutir apenas quem protege o estudante, é preciso perguntar também: quem sustenta o orientador? Quem legitima o exercício responsável do limite? Quem reconhece que a formação científica exige tensão, confronto e tempo?

Enquanto essa conversa não for feita com honestidade, seguiremos chamando crescimento de violência, crítica de ataque e rigor de abuso. O resultado é previsível. Em nome de uma proteção mal compreendida, a universidade vai abrindo mão justamente do que deveria preservar: a formação de sujeitos intelectualmente sólidos, emocionalmente responsáveis e capazes de sustentar, sem terceirizações, o próprio desejo de saber.

*Profa. Dra. Mairim Russo Serafini. Pós-Graduação em Psicanálise Clínica, Doutora em Ciências da Saúde, Professora do Departamento de Farmácia e do PPGCS/UFS. mairim@academico.ufs.br

**Prof Dr Lucindo Quintans Júnior. Professor Titular no Departamento de Fisiologia da UFS e docente dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas (PPGCF) e Ciências da Saúde (PPGCS). lucindo@academico.ufs.br

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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