
Por Péricles Andrade*
Uma câmera apontada para pessoas dentro de uma universidade pública pode registrar um acontecimento, mas também construir uma narrativa. Quando uma visita se transforma em confronto filmado e divulgado nas redes sociais, o episódio passa a integrar uma disputa pela interpretação pública da instituição e pela legitimidade de seus integrantes.
É esse processo que analiso a partir da visita de representantes da extrema direita sergipana à Universidade Federal de Sergipe (UFS), em outubro de 2026. O episódio apresenta semelhanças com estratégias observadas em outras universidades brasileiras, nas quais a provocação, a exposição pública e a circulação digital de conflitos questionam a legitimidade das instituições de ensino superior. A comparação não pressupõe coordenação entre os envolvidos, mas permite examinar práticas semelhantes de comunicação política.
Da gravação à construção de uma narrativa política
Nas redes sociais, vídeos não apenas registram acontecimentos: a seleção de imagens, os enquadramentos e a circulação podem produzir interpretações parciais, mesmo quando as gravações são autênticas. Os debates sobre sistemas desinformativos e redes de desinformação ajudam a compreender como esses conteúdos adquirem sentidos políticos. Nesse processo, a chamada “lacração” pode funcionar como estratégia de exposição pública: o confronto é encenado ou amplificado para gerar reações, conquistar visibilidade e reforçar a imagem da universidade como adversária ideológica.
A circulação dos registros prolonga o embate para além do campus, convertendo um episódio localizado em instrumento de disputa política. Dinâmicas semelhantes foram observadas em episódios na Universidade de São Paulo, em 2025, e na Universidade Estadual de Feira de Santana, em outubro de 2026, nos quais ações contra integrantes da comunidade universitária alimentaram disputas sobre a legitimidade dessas instituições.
Embora os casos tenham circunstâncias próprias, sua aproximação permite identificar um repertório recorrente: confrontar integrantes da comunidade universitária, registrar a interação e ampliar sua repercussão para disputar a imagem pública da instituição. No caso da UFS, importa investigar como a divulgação das imagens pode contribuir para representá-la como espaço de doutrinação ou adversária política, deslocando a atenção de suas atividades acadêmicas para uma narrativa de antagonismo.
Essa disputa pode transformar divergências pontuais em questionamentos à própria legitimidade das universidades públicas, obscurecendo sua diversidade, produção científica e função social. Isso não significa presumir manipulação ou coordenação, mas analisar como os conteúdos são produzidos e difundidos. No caso sergipano, é fundamental distinguir a crítica legítima de práticas que contribuem para deslegitimar a instituição.
Sergipe não é um caso isolado
O episódio da UFS ganha significado mais amplo quando relacionado às disputas políticas que, nos últimos anos, têm colocado as universidades públicas brasileiras no centro de campanhas de deslegitimação. Em diferentes contextos, essas instituições são apresentadas como espaços de doutrinação ideológica, enquanto a produção científica, sobretudo nas Ciências Humanas, é associada a supostos projetos de manipulação política e moral. Esse cenário foi analisado em discussões sobre os ataques da extrema direita às universidades públicas.
A semelhança entre esses episódios não está necessariamente nos atores envolvidos ou nas motivações de cada caso, mas no repertório utilizado: transformar o conflito em conteúdo de ampla circulação, enquadrar a universidade como adversária ideológica e mobilizar a audiência em torno dessa representação. A expressão lacração ajuda a compreender como a confrontação pública pode se converter em desempenho político nas redes, nas quais a repercussão do vídeo passa a ter importância própria.
O fenômeno também se relaciona a disputas mais amplas sobre a autonomia das instituições de ensino superior, discutidas em análises dos ataques da nova direita às universidades brasileiras e da ofensiva neoconservadora contra as universidades federais. Essas pesquisas ajudam a situar o episódio sergipano em um quadro nacional de tensões entre projetos políticos, produção de conhecimento e autonomia universitária.
A guerra cultural e a universidade como inimiga
A construção da universidade como adversária política costuma recorrer a acusações de “doutrinação ideológica”, “marxismo cultural”, “esquerdismo” e “ideologia de gênero”. Essas expressões deslocam o debate de decisões e práticas verificáveis para uma suspeita generalizada sobre a instituição e seus integrantes.
As Ciências Humanas e Sociais tornam-se alvos preferenciais porque investigam temas como desigualdade, racismo, religião, gênero, trabalho, democracia e relações de poder. A produção de conhecimento sobre esses assuntos pode questionar hierarquias estabelecidas e confrontar projetos políticos conservadores. Em vez de debater pesquisas específicas, a acusação de doutrinação procura desqualificar os próprios campos de conhecimento.
O problema não está em questionar uma teoria, discordar de uma interpretação ou exigir rigor científico. Essas práticas fazem parte da vida acadêmica. A deslegitimação ocorre quando a discordância deixa de se concentrar em argumentos e evidências e passa a atribuir à universidade uma intenção política uniforme, como se docentes, pesquisadores e estudantes constituíssem um bloco ideológico homogêneo.
Quando a instituição é representada como inimiga da sociedade, suas contribuições deixam de ser consideradas e seus integrantes passam a ser tratados como suspeitos. A crítica a uma decisão específica pode, assim, converter-se em desconfiança indiscriminada em relação à ciência, à formação universitária e à própria legitimidade da educação pública. A extrema direita não inventou todos os conflitos que atravessam as universidades, nem detém o monopólio da desqualificação política. A questão é identificar quando determinadas acusações são mobilizadas de maneira recorrente para produzir uma imagem de inimigo e justificar a rejeição da instituição como um todo.
A UFS entre o confronto e os resultados
A avaliação da UFS precisa considerar também aquilo que a instituição efetivamente realiza. O Ranking Universitário Folha (RUF) 2026 colocou a universidade na 33ª posição entre 205 universidades brasileiras e na sexta colocação no Nordeste. Entre as instituições públicas avaliadas, a UFS ocupa o 30º lugar.
A universidade tem onze cursos entre os 30 mais bem avaliados do país em suas respectivas áreas. Fonoaudiologia aparece na 12ª posição nacional; Física, na 17ª; História, na 18ª; Ciências Sociais, na 20ª; Enfermagem e Relações Internacionais, na 21ª; Geografia, na 24ª; e Artes Visuais, na 26ª. Letras, Engenharia Elétrica e Medicina também figuram entre os cursos destacados. A pesquisa científica constitui outro destaque: a UFS ocupa a 34ª posição nacional nesse indicador.
Esses dados não tornam a universidade imune a críticas. Um ranking não mede todas as dimensões da vida acadêmica, e o bom desempenho em determinado indicador não elimina problemas administrativos, conflitos internos ou falhas que precisam ser apuradas. Se há denúncias, que sejam investigadas; se existem irregularidades, que sejam demonstradas; se há decisões questionáveis, que sejam debatidas. O que não se justifica é transformar situações particulares em provas suficientes da ilegitimidade de toda a universidade.
Autonomia universitária não é imunidade à crítica
No caso da UFS, a visita filmada tornou-se objeto de disputa nas redes sociais. É necessário verificar se as imagens, contextualizadas, sustentam as acusações divulgadas ou são utilizadas para desqualificar a instituição. Também é fundamental distinguir esse episódio dos acontecimentos de 8 de outubro e fevereiro de 2026, que possuem circunstâncias próprias e não devem ser associados sem evidências de coordenação.
A autonomia universitária, assegurada pelo artigo 207 da Constituição Federal, não exclui transparência, fiscalização ou responsabilização. A crítica democrática é legítima, mas exige informações verificadas e apuração dos fatos. O problema surge quando vídeos substituem a investigação, episódios distintos são reunidos sem comprovação ou questionamentos pontuais se transformam em ataques à legitimidade da universidade.
Quando a universidade é reduzida a uma cena de confronto, ficam em segundo plano suas atividades de ensino, pesquisa e extensão, assim como os debates sobre financiamento, condições de trabalho, acesso e permanência estudantil.
Há uma contradição em reivindicar o direito de fiscalizar a universidade enquanto se privilegiam a provocação e a exposição pública em detrimento da apuração. Quando o confronto se torna um fim em si mesmo, a lacração substitui o argumento e a política do ódio transforma diferenças em hostilidade permanente.
Minha trajetória intelectual e profissional foi profundamente marcada pela UFS, à qual reconheço uma dívida de formação, conhecimento e oportunidades. Essa relação não exige silêncio diante de falhas, mas o compromisso de enfrentá-las com seriedade. A universidade pública não precisa de blindagem, mas tampouco deve ser reduzida a caricaturas produzidas para viralizar. Precisa de crítica responsável, transparência e condições para cumprir suas funções sociais.
O caso sergipano integra uma disputa mais ampla, na qual a deslegitimação do conhecimento e a circulação digital de confrontos ultrapassam uma instituição ou um estado. A defesa da universidade pública exige atenção tanto aos acontecimentos locais quanto às estratégias que se repetem em diferentes contextos, sem pressupor que os episódios sejam idênticos ou coordenados.
Uma universidade democrática deve aceitar críticas e responder por seus atos. Uma sociedade democrática, por sua vez, precisa avaliar essas críticas sem confundir episódios distintos, atribuir intenções sem evidências ou tomar a repercussão de um vídeo como prova suficiente de sua narrativa. Distinguir crítica de desqualificação, registro de enquadramento e conflito de produção de inimigos é parte da disputa contemporânea pela vida pública.
A UFS ocupa a 33ª posição nacional no RUF 2026, mas sua relevância está também no conhecimento que produz e em sua contribuição para Sergipe. A crítica democrática deve melhorar a universidade, não torná-la alvo permanente de deslegitimação.
*Professor Titular da UFS
O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.