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Quando a universidade deixa de ser apenas lugar de formação e passa a ser ambiente de desenvolvimento

Por Valter Joviniano de Santana Filho*

Há momentos em que uma instituição de ensino superior supera os seus muros sem mudar a sua natureza. Ela continua formando pessoas, produzindo conhecimento e qualificando profissionais, mas passa também a participar, de forma mais direta, da construção do futuro econômico, tecnológico e social do lugar onde está inserida. É isso que Sergipe começa a viver com a chegada da Global Drones ao Tiradentes TechPark, recentemente instalado no campus da Universidade Tiradentes.

Não se trata apenas da instalação de uma empresa em um espaço universitário. Também não se trata de abrir uma filial comercial ou de ocupar uma sala dentro de uma instituição de ensino. O significado é mais profundo: uma empresa de base tecnológica, com atuação nacional e experiência no desenvolvimento de soluções com drones, inteligência artificial, inspeção, mapeamento e aplicações industriais, passa a desenvolver parte de sua trajetória dentro de um ecossistema acadêmico de inovação em Sergipe. Esse movimento merece ser compreendido em perspectiva.

Experiências brasileiras já demonstraram que ambientes de inovação ganham força quando conseguem aproximar universidades, centros de pesquisa, empresas, startups, setor produtivo e instituições voltadas ao desenvolvimento. Em Santa Catarina, por exemplo, ecossistemas de inovação consolidaram-se ao longo dos anos pela capacidade de transformar conhecimento, empreendedorismo e tecnologia em empresas competitivas. A própria trajetória da Global Drones dialoga com esse ambiente: uma empresa que nasceu conectada à inovação e hoje alcança presença nacional, atuando em áreas estratégicas para a economia contemporânea.

Sergipe passa a construir agora uma empreitada semelhante aquilo que assistimos em outros lugares, mas respeitando suas características, sua escala e suas vocações. E é importante dizer: não falamos de algo completamente desconectado da trajetória da instituição. Ao longo de sua existência, a Universidade Tiradentes tem atuado também como uma importante indutora do desenvolvimento em Sergipe.

A Unit nasceu como colégio, transformou-se em faculdade, tornou-se universidade, expandiu-se para o interior e ajudou a modificar a dinâmica urbana, educacional e social do estado. O campus Farolândia, em Aracaju, é um exemplo concreto de como uma instituição de ensino pode transformar o entorno, atrair serviços, gerar circulação de pessoas, produzir oportunidades e dar novo significado a uma região da cidade.

Com o tempo, a Unit compreendeu que educação superior de qualidade exige mais do que salas de aula. Exige pesquisa, pós-graduação, internacionalização, inovação, ambientes de prática e relação permanente com os desafios reais da sociedade. A criação e consolidação do Instituto de Tecnologia e Pesquisa, o fortalecimento dos programas de pós-graduação stricto sensu, os resultados alcançados na avaliação da Capes e a implantação do Tiradentes Innovation Center mostram que essa trajetória não foi improvisada. Ela foi planejada e construída passo a passo. Agora, com o Tiradentes TechPark, essa trajetória ganha uma nova camada.

Sergipe já possui iniciativas relevantes no campo da ciência, tecnologia e inovação, cada uma com sua história, sua vocação e sua contribuição para o desenvolvimento do estado. O que se destaca, neste caso, não é uma lógica de substituição ou comparação, mas é a sua natureza profundamente universitária. Trata-se de um parque tecnológico que nasce dentro de um campus, inserido no ecossistema Tiradentes e integrado ao cotidiano acadêmico da Unit.

Essa característica dá ao projeto uma singularidade importante. As empresas que passam a fazer parte desse ambiente não estão apenas próximas da universidade. Elas estão dentro de uma dinâmica institucional que busca integrar ensino, pesquisa, extensão, inovação, empreendedorismo e formação profissional. No Ecossistema Tiradentes, essa integração é parte da própria governança acadêmica e institucional, com o objetivo de aproximar ao máximo os cursos de graduação, os programas de pós-graduação, os pesquisadores, os estudantes, os laboratórios, os centros de inovação e as demandas reais do setor produtivo.

É nesse sentido que o Tiradentes TechPark carrega um DNA universitário. Sua força não está apenas na infraestrutura física ou na atração de empresas, mas na possibilidade de transformar a presença dessas empresas em experiência formativa, pesquisa aplicada, desenvolvimento tecnológico e oportunidade concreta para Sergipe.

Esse ambiente nasce sediado em um campus universitário, mas com uma visão que não se limita à universidade. Ele se estrutura em diálogo com a estratégia estadual de desenvolvimento e em parceria com instituições que pensam o futuro de Sergipe, a exemplo da Agência Sergipe de Desenvolvimento (Desenvolve-SE) e do instituto Euvaldo Lodi (IEL/SE). Esse ponto é essencial: inovação não se faz de forma isolada. Ela exige articulação, confiança institucional e capacidade de construir pontes entre quem forma, quem pesquisa, quem produz, quem empreende e quem planeja o desenvolvimento regional.

Neste sentido, a presença da Desenvolve-SE nesse processo é especialmente relevante, porque ajuda a conectar o ambiente acadêmico às oportunidades de atração de empresas, fortalecimento produtivo e desenvolvimento econômico. Quando uma instituição voltada ao desenvolvimento atua como ponte entre o potencial tecnológico de uma universidade e as demandas estratégicas de Sergipe, cria-se uma condição concreta para que o estado deixe de ser apenas consumidor de soluções e passe também a ser ambiente de criação, produção e inovação.

A chegada da Global Drones simboliza esse novo tempo. Ela não representa apenas uma empresa a mais em Sergipe. Representa a possibilidade de termos, dentro do ambiente universitário, uma operação voltada ao desenvolvimento de produtos, à fabricação, à aplicação tecnológica e à formação de pessoas. Isso muda a lógica da relação entre ensino e mercado. Os estudantes não terão apenas contato com um laboratório simulado. Eles poderão conviver com problemas reais, processos reais, tecnologias reais e desafios reais de uma empresa que atua em setores estratégicos.

Nesse modelo, o mercado deixa de ser apenas o destino final do aluno depois da formatura. Ele se torna parte da sala de aula. Ao mesmo tempo, a indústria deixa de ser uma abstração apresentada em slides e passa a ser ambiente de aprendizagem, estágio, pesquisa aplicada e desenvolvimento profissional.

Para a graduação, isso significa formar estudantes mais preparados para os desafios concretos do mundo do trabalho. Na perspectiva da pós-graduação, isso significa ampliar a possibilidade de transformar pesquisa científica em solução tecnológica. Para os pesquisadores, significa ter uma ponte mais curta entre descoberta, prototipagem, validação e aplicação. E para as empresas, significa a proximidade de talentos, laboratórios, conhecimento acumulado e novas perguntas científicas. Finalmente, para Sergipe, significa dar um passo importante na direção de uma economia mais intensiva em conhecimento.

Esse talvez seja o ponto mais importante: Sergipe não pode se limitar a ser consumidor de tecnologias desenvolvidas fora. O estado precisa criar condições para atrair empresas, desenvolver produtos, formar talentos, gerar propriedade intelectual, criar soluções e participar das novas cadeias de valor. E isso não se faz apenas com discurso. Faz-se com ambiente, infraestrutura, articulação institucional e projetos concretos. A instalação da Global Drones no campus da Universidade Tiradentes, dentro desse ecossistema de inovação, é um desses projetos concretos.

É claro que esse movimento não nasce pronto. Um parque tecnológico se consolida com tempo, governança, resultados, atração de novas empresas, interação com pesquisadores, envolvimento dos alunos e capacidade de entregar valor para a sociedade. Mas todo processo transformador precisa de referências iniciais. E a chegada de uma empresa com esse perfil é, sem dúvida, um marco para Sergipe. Assim, mais do que celebrar uma inauguração, é preciso compreender o que ela anuncia.

Ela anuncia que uma universidade em Sergipe pode ser também ambiente de inovação produtiva, sem deixar de reconhecer a importância de outros espaços já dedicados à ciência, tecnologia e inovação no estado. A singularidade aqui está na presença da empresa dentro do ambiente universitário, em diálogo direto com estudantes, professores, pesquisadores, laboratórios e projetos acadêmicos. Anuncia que a formação profissional pode acontecer em contato permanente com empresas de base tecnológica e que o desenvolvimento econômico pode nascer da aproximação entre educação, ciência, empreendedorismo e instituições voltadas ao futuro.

Anuncia, sobretudo, que Sergipe pode atrair empresas não apenas para vender produtos, mas para desenvolver tecnologia, formar pessoas e gerar novas oportunidades. Esse é o papel mais nobre da educação superior: formar pessoas e, ao mesmo tempo, ajudar a transformar a realidade em que essas pessoas vivem.

Quando uma universidade investe em ciência, inovação e empreendedorismo, ela não está se afastando da educação. Ao contrário, está qualificando a educação que oferece. Está ensinando aos seus alunos que aprender não é apenas absorver conteúdo, mas participar da construção de soluções. Está dizendo aos seus professores e pesquisadores que o conhecimento pode circular para além dos artigos e dos laboratórios. Está dizendo à sociedade que desenvolvimento se faz com infraestrutura física, mas também com inteligência, cooperação e visão de futuro.

Sergipe vive um momento importante. E a parceria entre Universidade Tiradentes, por meio do Tiradentes TechPark, Desenvolve-SE, IEL/SE e Global Drones mostra que há caminhos possíveis quando as instituições compreendem que o futuro precisa ser construído de forma coletiva.

Portanto, a chegada da Global Drones não é somente uma conquista de uma empresa. Tampouco é uma conquista de uma universidade apenas. É um sinal de que Sergipe possui amplas condições de entrar em uma nova fase, na qual educação de qualidade, inovação, tecnológica e desenvolvimento econômico caminham juntos. E quando isso acontece, todos ganham.

*Diretor de Relações Institucionais do Grupo Tiradentes e ex-Reitor da UFS.

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

 

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