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24 de julho de 2026
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Pianos em Sergipe: notas sobre um bem musical e simbólico, séculos XIX e XX

Por Amâncio Cardoso*

O piano, instrumento musical de origem europeia, foi trazido ao Brasil com mais intensidade após a chegada da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro, vinda em 1808 com o príncipe regente D. João VI (1767-1826). Assim, logo após a abertura dos portos e os tratados firmados com a Inglaterra, a entrada e difusão do instrumento musical pelo Brasil se acentuou.[1]

Helena Abud sentada ao centro com suas alunas, 1933. Fonte: BARRETO, Armando (Org.). Cadastro Comercial, Industrial, Agrícola e Informativo do Estado de Sergipe. Aracaju, 1933. p. 57-58; p. 407.

Com isto, o piano se inseriu no país ao longo dos séculos XIX e XX, obtendo diferentes representações e o advento de novos ofícios vinculados (ensino, conserto e restauro). Em Sergipe, o instrumento também circulou em diversos ambientes socioculturais e ganhou relativa notoriedade.

Vejamos, então, através de fontes de época, usos e costumes ocorridos em Sergipe que utilizaram o piano como objeto social, artístico e profissional, com o ensino e prática eruditas, passando por sua relativa popularização no transcorrer dos séculos XIX até nossos dias.

Já nas primeiras décadas do século XIX, encontramos o uso do piano em um evento oficial na província. Assim, em julho de 1842, nas festas de comemoração do 2º ano da antecipação da maioridade de D. Pedro II (1825-1891), na antiga capital São Cristóvão, o baile noturno foi regado por “toques de piano, e melodiosas cantorias, que excelentemente executaram várias senhoras” no salão do palácio presidencial.[2]

Nestas festas pomposas, para convidados exclusivos da elite local, as mulheres predominavam sobre as teclas alvinegras, inundando salões com diversos gêneros musicais europeus (valsas, polcas e mazurcas).[3] Isto também se deu na capital do Império, como assinalou Gilberto Freyre: quem passasse em 1820 pelas ruas do Rio de Janeiro já ouvia “muito piano, tocado pelas moças nas salas de visitas”.[4]

Dessa forma, a presença feminina frente às teclas também ocorria nas recepções das salas patriarcais sergipanas. Um exemplo foi a visita que o então presidente da província, Salvador Correia de Sá e Benevides (1826-1863), fez ao município de Brejo Grande em 1856, na margem direita do São Francisco. Ao visitar a casa da neta do Barão de Cotinguiba (1780-1866), o presidente a ouviu tocar e cantar ao piano “excelentemente”, pois ela fora educada “em um dos melhores colégios da Bahia”.[5]

As mocinhas de antanho também aprenderam a tocar piano em colégios de Sergipe. Na vila de Capela, no ano de 1876, por exemplo, o colégio Nossa Senhora da Purificação, sob a direção de D. Josefa Belarmina de Oliveira e Souza, oferecia aulas de piano para “educação do sexo feminino”, entre outros componentes curriculares.[6]

Na cidade de Laranjeiras, em 1886, a direção do Colégio Inglês também anunciou aulas de piano para internas e externas, ofertando instrução secundária para meninas de famílias mais aquinhoadas.[7] Já no ano de 1910, o Colégio Maria Auxiliadora, dirigido por Laura Gomes Leite, localizado na praça da matriz de Estância, também incluía em seu programa de ensino aulas de piano na formação pedagógica das meninas.[8]

Além dos colégios, as aulas de piano também eram ofertadas por professores particulares. No século XIX, surgem notas em jornal oferecendo o serviço na casa dos alunos ou na residência dos mestres. Em Aracaju no ano de 1874, por exemplo, Elpídio Coelho de Santa Fé dava lições de piano “em sua casa à rua de Maruim”. Já a professora Izaura Policiano, também na capital sergipana, lecionava piano em 1891, tanto em seu próprio lar quanto na residência dos aprendizes.[9]

Em 1880, as aulas particulares de piano serviram de complemento de renda da professora Francina da Glória Teles, que trabalhava há dez anos no magistério público em Aracaju. Ela teve a ideia de também ofertar aulas de piano e outras disciplinas em sua própria residência, onde abriu escola particular para meninos e meninas até os oito anos, mas “sem prejuízo de sua cadeira”, afirmou a anunciante.[10]

No início do século XX, com o crescimento urbano e populacional de Aracaju, as ofertas de aulas de piano se intensificaram. Em 1908, por exemplo, o famoso músico e compositor de Laranjeiras, Manoel Bahiense (1841-1919), se propôs a vir à capital “dar lições de piano, dois dias por semana”.[11]

Além de Aracaju, na cidade de Estância também surgiram mestres de piano para famílias locais. Ainda no ano de 1908, por exemplo, Laura Pizze abriu as portas de sua residência, na rua da Miranga, “para lecionar piano” na cidade jardim de Sergipe.[12]

Entretanto, uma das mais habilidosas e famosas professoras de piano surgiu em Aracaju, nas primeiras décadas do século XX. Trata-se da virtuosa pianista e professora Helena Abud (1914-2003). Ela foi aluna na capital sergipana dos mestres Maroca Caldas e José Thomaz Sanz. Helena fundou seu Curso de Teoria e Piano, em maio de 1932, e passou a ministrar aulas na Casa da Criança (ex-jardim de infância e atual escola estadual Augusto Maynard), e depois na casa de seus pais, na Rua João Pessoa, 111, centro de Aracaju. [13]

Tempos depois, Helena Abud estudou e seguiu carreira no Rio de Janeiro, fazendo apresentações no Brasil, América Latina, Europa e Oriente Médio, levando ao mundo a música pianística brasileira, ao tempo em que também divulgou a obra de seu falecido marido, e parceiro no campo da arte musical desde 1943, o maestro Oscar Lorenzo Fernandez (1897-1948), falecido cinco anos depois de conhecê-la.

Desde então, Helena adotou o nome de casada na vida profissional: Helena Lorenzo Fernandez, uma das maiores expressões pianísticas do Brasil, conforme o maestro Heitor Villa-Lobos (1887-1959), amigo do casal. A pianista-concertista Helena Abud Lorenzo Fernandez certamente foi mais conhecida fora de Sergipe do que em sua terra natal, em parte porque ela se dedicou por mais tempo ao ensino e à arte do piano na capital federal, formando vários musicistas eruditos, durante as cinco décadas em que atuou, entre 1931 e 1985.[14]

A sergipana Helena Abud transitou pelo mundo erudito do piano no Brasil e no mundo. Mas em Sergipe, o uso do instrumento também ganhou apelo no universo popular. Assim, nas primeiras décadas do século XX, era comum o piano embalar festas de aniversário e casamento nas casas de cidades mais urbanizadas, tocado geralmente por senhoritas.

Em Estância, por exemplo, noticiou-se o aniversário da “gentil e graciosa d. Noeme Brandão”, irmã do conceituado médico da cidade, Josaphat Brandão (1880-1969). A festa foi regada ao som do piano tocado pela aniversariante e por suas amigas Mariasinha Navarro e Otacília Lima até “alta madrugada”.[15]

Já na segunda metade do século XX, se destacaram em Aracaju dois pianistas de apelo popular: Carlos Rubem e Maria Olívia. Carlos Rubem estudou piano em Estância com a professora Libé Cotias. E em Aracaju, com a professora Ventura Lins. Ele se destacou na vida noturna da capital sergipana, tocando em cassinos, clubes, aniversários, casamentos e sobretudo nas recepções do Palácio do Governo, nas décadas de 1940 e 1950. Por fim, Rubem foi o pianista oficial do Iate Clube de Aracaju, emprestando seu nome ao salão nobre.

Já a pianista Maria Olívia estudou piano com a professora Helena Menezes. Olívia, assim como Carlos Rubem, tocou em aniversários, formaturas e casamentos. Embora tenha formação erudita no Conservatório de Sergipe e estudado música na Faculdade Católica da Bahia, ela enveredou também por interpretações populares.

Retornando a Aracaju, Maria Olívia tornou-se professora de música da Escola Técnica Federal de Sergipe, onde se aposentou, e depois no Conservatório. Ela também foi pianista do Palácio do Governo, tocando em recepções oficiais nas décadas de 1980 e 1990. A professora e pianista, que está em avançada idade, vive no alto da colina do Santo Antônio, local em que reside desde a infância.[16]

A formação pianística sergipana ganhou importante alavanca a partir de 1945, quando foi fundado o Instituto de Música e Canto Orfeônico de Sergipe (IMCOSE), criado pelo professor Genaro Plech (1909-1972). Depois, o instituto foi transformado em Conservatório de Música. E desde 2006, Sergipe conta também com o curso de licenciatura em Música da Universidade Federal (UFS), potencializando o ensino e a prática pianística em nosso Estado.[17]

Vimos que o piano foi um importante objeto de cultura musical nos âmbitos erudito e popular, com forte inserção sociocultural. Assim, o grande instrumento acompanhou concertos sinfônicos e participou também de bailes populares e festas familiares, fazendo a alegria do público que sempre prestigiou belas melodias extraídas dos teclados de ébano e marfim.

*Historiador.

Referências:

[1] A introdução do piano no Brasil. Disponível em: <https://blog.fritzdobbert.com.br/>. Acesso em: 30/05/2026.

[2] “O Dia 23 de Julho”. Correio Sergipense. São Cristóvão, 30 de julho de 1842, nº 372, p. 01.

[3] IGLESIAS, Francisco. História Geral da Civilização Brasileira. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992. v. 4.

[4] FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos. São Paulo: Global, 2013, p. 94.

[5] Correio Sergipense. Aracaju, 08 de novembro de 1856, nº 63. p. 04.

[6] Jornal do Aracaju, 10 de setembro de 1876, nº 730, p. 04.

[7] O Horizonte. Laranjeiras, 05 de março de 1886, nº 38, p. 04.

[8] Laura Gomes Leite era irmã de Augusto Gomes, proprietário do jornal A Razão, de Estância, e diretor do Asilo Santo Antônio, na mesma cidade. A Razão. Estância, 23 de janeiro de 1910, nº 03, p. 04.

[9] Jornal do Aracaju, 27 de maio de 1874, nº 487, p. 04; Jornal de Sergipe. Aracaju, 16 de outubro de 1880, nº 92, p. 04; Correio de Sergipe. Aracaju, 02 de janeiro de 1891, nº 27, p. 04.

[10] Jornal de Sergipe. Aracaju, 12 de janeiro de 1881, nº 01, p. 04.

[11] Folha de Sergipe. Aracaju, 08 de novembro de 1908, nº 153, p. 02.

[12] A Razão. Estância, 22 de novembro de 1908, nº 45, p. 03.

[13] Sobre a trajetória biográfica e artística de Helena Abud, ver: SANTOS, Elias Souza dos. No Compasso, ligeiro da pianista Helena Lorenzo Fernandez: entre práticas pedagógicas, concertos e diplomacia musical brasileira (1931-1985). Aracaju, Universidade Tiradentes, 2020. (Tese de Doutorado em Educação); nota 2, p. 23.

[14] A Razão. Estância, 11 de julho de 1909, nº 27, p. 01-02.

[15] SANTOS, Elias Souza dos. No Compasso, ligeiro da pianista Helena Lorenzo Fernandez: entre práticas pedagógicas, concertos e diplomacia musical brasileira (1931-1985). Aracaju, Universidade Tiradentes, 2020. (Tese de Doutorado em Educação). p. 76; “Audição de Piano – pelas alunas de Helena Abud. Diário da Tarde. Aracaju, 04 de agosto de 1933, nº 80, p. 01; BARRETO, Armando (Org.). Cadastro Comercial, Industrial, Agrícola e Informativo do Estado de Sergipe. Aracaju, 1933. p. 57-58; p. 407.

[16] MELINS, Murillo. Aracaju romântica que vi e vivi. 3. ed. Aracaju: Unit, 2007. p. 429-435.

[17] Disponível em: História. https://www.cmse.com.br/sobre. Acesso em: 09/07/2026; Disponível em: https://www.ufs.br. Acesso em: 09/07/2026; SANTOS, Elias Souza dos. Genaro Plech e Alfeu Menezes: docentes da disciplina canto orfeônico da Escola Normal de Aracaju. In Educon, Aracaju, Volume 08, n. 01, p.1-12, set/2014. Disponível em: https://ri.ufs.br/bitstream/riufs/9524/26/25.pdf. Acesso em: 15/07/2026.

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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