
Soubemos apenas essa semana da morte de Ricardo Rosa, ocorrida no Rio de Janeiro, em 6 de janeiro de 2026. E o atraso da notícia talvez diga mais sobre nós do que sobre ele. Um homem que ajudou a sustentar, com discrição e competência, a engrenagem da ciência brasileira se despede quase em silêncio. Como viveu. Como trabalhou. Mas não como merecia.
Para o leitor neófito no tema, quem foi Ricardo Rosa? Não era desses nomes que frequentam manchetes ou posam para fotografias institucionais. Era melhor: fazia — e fazia funcionar. Na Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), ocupou funções estratégicas como superintendente, gerente da operação do CT-Infra e chefe do Departamento de Fomento, Análise e Acompanhamento de Infraestrutura das Universidades. Atuou, portanto, no coração de um instrumento sem glamour, mas sem o qual boa parte da ciência brasileira não teria sequer onde sentar para pensar.
Era uma dessas figuras raras que fazem o Estado dar certo sem alarde. Sorriso fácil, conversa leve, inteligência sem exibicionismo. Tinha uma sensibilidade incomum para as dores crônicas das universidades brasileiras e uma obsessão quase técnica pela redução das assimetrias regionais. Em outras palavras, entendia o Brasil como poucos. Torcedor do Fluminense, para uns, seu único deslize notável, para outros mais uma qualidade.
Foi peça decisiva para que as chamadas vinculadas ao CT-Infra (Comitê Gestor do Fundo Setorial de Infraestrutura) deixasse de ser promessa e virasse estrutura. E, mais do que isso, ajudou a dar musculatura, no diálogo e articulação, ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) como instrumento real de distribuição de oportunidades. Graças a gente como ele, universidades fora do eixo puderam sair do improviso e entrar no jogo.
Falamos com a experiência de quem esteve à frente das Pró-Reitorias de Pós-Graduação, Pesquisa e Inovação por quase uma década. Ricardo não se limitava a destravar processos; estruturava soluções, orientava caminhos e, por vezes, operava milagres para ajudar as universidades. Sob sua atuação, e com suas recomendações para projetos mais consistentes e alinhados à FINEP, ampliamos a captação de recursos. Não é retórica: são infraestruturas instaladas, equipamentos adquiridos, laboratórios estruturados e pessoas produzindo ciência. Não éramos exceção. Entre pró-reitores de diferentes regiões e instituições (públicas e privadas), havia uma percepção praticamente unânime: Ricardo era acessível, decisivo e símbolo de compromisso com o desenvolvimento científico nacional.
Um raro ponto fora da curva no reconhecimento de sua trajetória veio da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que fez o que poucos fizeram: reconheceu em vida. Concedeu-lhe o título de Doutor Honoris Causa, gesto que engrandece tanto quem recebe quanto quem tem a lucidez de conceder. E, à altura de sua história, registrou também uma nota de pesar digna de sua contribuição (https://www.ufpb.br/notas-de-pesar/nota-de-pesar-5/).
Até o momento, as manifestações públicas foram pontuais, o que abre espaço para que diferentes instituições, como o MCTI, a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Fórum Nacional de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-Graduação (FOPROP), entre outras sociedades científicas — possam, oportunamente e mesmo que de forma tardia, prestar homenagens à altura de seu legado. Da mesma forma, espera-se que a própria FINEP, instituição à qual dedicou décadas de trabalho, encontre formas de registrar de maneira duradoura sua importância.
Cada grande obra ou equipamento de médio e grande porte instalado financiado pela FINEP em qualquer Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação (ICT) brasileira nas últimas duas décadas traz, em algum ponto do percurso, a marca de Ricardo. No desenho das chamadas públicas, no acolhimento atento aos avaliadores ad hoc, na mediação paciente entre instituições e a FINEP, na solução de entraves que poucos sequer enxergavam: Ricardo e a competentíssima equipe da FINEP estavam lá.
Converse com o pró-reitor da época de sua ICT, com o técnico que lidava diretamente com a FINEP, com os próprios avaliadores. Haverá consenso: Ricardo foi um articulador silencioso e decisivo.
Talvez por isso cause reflexão o relativo silêncio que se seguiu à sua partida. Um silêncio que convida as sociedades científicas, as universidades, sobretudo as públicas, e todos nós a revisitarmos como reconhecemos aqueles que sustentam, em grande medida de forma discreta, a estrutura da ciência no país.
Nada que se aproxime do que seria devido a quem foi, de fato, um operário da ciência brasileira; desses que não aparecem na fotografia, mas sem os quais ela simplesmente não existiria. Talvez esteja aí uma oportunidade importante: refletir sobre como valorizamos aqueles que constroem, em silêncio, as bases da produção científica nacional.
Ricardo lutou o bom combate. Fez isso com discrição, competência e um raro senso de missão pública. Não reivindicava protagonismo, mas entregava resultados. Não ocupava espaços, construía caminhos.
Ricardo Rosa merece mais do que notas formais. Merece memória, daquelas que não se arquivam, mas se traduzem em prática, em reconhecimento e em exemplo. Porque, no fim, o que se cala sobre homens como ele não é apenas o passado. É também o tipo de futuro que escolhemos construir.
Assinam o texto os professores:
Prof. Dr. Carmelo José Albanez Bastos Filho. Pró-Reitor de Pós-Graduação, Pesquisa e Inovação da Universidade de Pernambuco (UPE). Vice-representante das universidades estaduais no Fórum Nacional de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-Graduação (FOPROP). E-mail: carmelofilho@poli.br
Prof. Dr. George Rego Albuquerque. Professor Titular da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Ex-Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UESC. E-mail: gralbu@uesc.br
Prof. Dr. Francisco Jaime Bezerra Mendonça Junior. Professor Titular na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Ex-Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UEPB. E-mail: franciscojaime@servidor.uepb.edu.br
Prof. Dr. Isac Almeida de Medeiros. Professor Titular do Departamento de Ciências Farmacêuticas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Ex-pró-reitor de Pesquisa e atual Coordenador de Programas Acadêmicos e de Iniciação Científica da UFPB. E-mail: isac.medeiros@academico.ufpb.br
Prof. Dr. Jackson Roberto Guedes da Silva Almeida. Professor Titular no Colegiado de Farmácia. Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF). Ex-Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa da UNIVASF. E-mail: jackson.guedes@univasf.edu.br
Prof. Dr. Jean Berg Alves da Silva. Professor Titular na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), vinculado ao Centro de Ciências Agrárias, sendo especialista em Medicina Veterinária. Ex-Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UFERSA. E-mail: jeanberg@ufersa.edu.br
Prof. Dr. José Rodolfo Lopes de Paiva Cavalcanti. Professor Associado da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Ex-Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UERN. E-mail: rodolfolopes@uern.br
Prof. Dr. Lucindo José Quintans Júnior. Professor Titular do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Ex-Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa da UFS. E-mail: lucindo@academico.ufs.br
Profa. Dra. Maria Helena Tavares de Matos. Professora, Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). Atual Pró-Reitora de Pesquisa, Pós-graduação e Inovação. E-mail: helena.matos@univasf.edu.br
Profa. Dra. Maria Madalena Pessoa Guerra. Professora Titular vinculada ao Departamento de Medicina Veterinária (DMV). Ex- Pró-Reitora de Pós-graduação da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). E-mail: mmpguerra@gmail.com
Prof. Dr. Robério Rodrigues Silva. Professor Titular da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UESB. E-mail: roberio@uesb.edu.br
Prof. Dr. Sergio Campello Oliveira. Vice-Diretor da Escola Politécnica da Universidade de Pernambuco (POLI-UPE). Ex-Pró-Reitor de Pós-Graduação, Pesquisa e Inovação da UPE. E-mail: sergio.campello@upe.br
Observação: Todos os docentes acima são ou foram Pró-Reitores de Pesquisa, Pós-Graduação e/ou Inovação em suas ICTs, além de integrarem ou terem integrado o Fórum Nacional de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-Graduação (FOPROP).