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Olhemos para a Venezuela

Por Marcos Cardoso *

O povo da Venezuela está precisando do Brasil. O povo da Venezuela não é de esquerda nem de direita, não é bolivariano nem ianque, não é petralha nem coxinha, é apenas o povo da Venezuela. O Brasil precisa ser solidário e mais republicano para entender: não é uma ideologia que está precisando de ajuda. É o povo da Venezuela. São irmãos da América Latina, irmãos do Brasil.

O povo da Venezuela está morrendo, consequência de um governo inepto, atrasado, de um falso ditador, e está clamando pelo socorro do Brasil. E o nosso país pode ajudar, basta ter sensibilidade para olhar o que está acontecendo na rota sobre a extrema fronteira de Roraima, nosso estado mais a norte, que dá de umbigada ali naquele país do Caribe.

O povo da Venezuela é naturalmente rico, só que está muito pobre. É um país imenso, que desce dos Andes às praias defronte a Trindade e Tobago, Aruba e Curaçao, assentado sobre a maior reserva de petróleo e gás do mundo, superando até a Arábia Saudita. Mas para sobreviver as meninas da Venezuela estão se prostituindo no Brasil.

Enquanto o imaturo Nicolás Maduro planeja distribuir fuzis e armar um milhão de civis como membros da Milícia Nacional Bolivariana, “para defender a paz, a soberania e a independência da pátria”, a maioria dos venezuelanos atingidos pela economia em frangalhos busca alternativas de sobrevivência, como migrar para nações vizinhas, principalmente o Brasil.

A crise desencadeou uma revolução do lado de cá, na cidadezinha de Pacaraima, no polo norte de Roraima, na fronteira e entrada do desespero venezuelano. Por enquanto, os efeitos imediatos da imigração têm sido maléficos. A indigência trouxe a violência e o estrangulamento da saúde pública.

Enquanto uns literalmente se matam por causa de comida, outros morrem por falta do atendimento médico ideal. No primeiro ponto de parada, próximo à rodoviária daquela antes pacata comunidade, 27 famílias de imigrantes venezuelanos, com 75 crianças, residem em um terreno baldio, segundo a FolhaWeb, um portal local. Muitos deles com suspeita de malária.

A mesma publicação informa que a Polícia Federal em Roraima já registrou mais que o dobro do número de pedidos de refúgio de estrangeiros no Estado no mês de abril. Foram 1.285 solicitações contra 502 em março. São venezuelanos buscando a cidadania brasileira para recomeçarem praticamente do nada por aqui.

Alguns encontram nova vida e oportunidade de trabalho, como Johs Rojas, jovem publicitário de 23 anos, que se mudou para Boa Vista há cinco meses. Hoje, ele possui dois empregos na capital e é apenas um dos poucos mais de 800 imigrantes do país vizinho que conseguiu a emissão da Carteira de Trabalho temporária no ano passado em Roraima.

Ele é funcionário de uma franquia de rede fast-food, além de dar aulas de inglês em uma escola particular. “A crise venezuelana não é mais um problema só de governo. O povo hoje também se tornou uma espécie de problema. Porto Ordaz (sua localidade natal) sempre foi perigoso, mas algumas pessoas, talvez movidas pelo desespero em decorrência da atual situação do país, passaram a apelar para o crime”, confidenciou.

Segundo estimativas do Cuerpo de Investigaciones Científicas, Penales y Criminalísticas, o país é considerado um dos mais violentos do mundo, com mais de 132 mil pessoas assassinadas nos últimos cinco anos, quando 66.034 crianças e adolescentes ficaram órfãos. Em janeiro de 2017 ficaram órfãos 604 crianças e adolescentes, em fevereiro, 243, e em março, 255 menores.

Há um ano o povo da Venezuela protesta intensamente contra o governo, apontado como culpado pela prolongada crise econômica, agravada pela queda dos preços do petróleo. O produto representa aproximadamente 96% da renda do país.

Há um desabastecimento quase crônico, com escassez de alimentos e produtos de primeira necessidade, agravado pela maior inflação do mundo, superior a 800% ao ano.

Com a dificuldade para conseguir comida, o povo venezuelano está até mais desnutrido. A organização Cáritas da Venezuela revela: a desnutrição crônica atinge 18,4% das crianças com menos de 5 anos de idade.

A oposição insiste em antecipar as eleições e pôr fim aos 18 anos de poder do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), do ex-presidente Hugo Chávez, morto em 2013. Chávez era um líder carismático e querido do povo venezuelano, mas hoje é visto como culpado pela derrocada do seu país, graças à sua política nacionalista e radicalmente estatizante, somada à escolha de um sucessor despreparado qual Maduro.

E diante desse quadro preocupante o que faz o Brasil? O Itamaraty do presidente Michel Temer, sob o argumento de pôr fim à política ideológica em relação àquela nação, tratou de isolar a Venezuela. Gesto de solidariedade, nenhum.

Frise-se que a política externa de Maduro também é um desastre. Ele acaba de determinar a saída do seu país da OEA, algo inédito, sob o argumento de interferência em assuntos internos.

Enquanto isso, com a complacência do governo brasileiro, a Venezuela afunda e leva junto o seu povo. O caldeirão ferve e ninguém se admire se uma guerra civil não explodir, com consequências trágicas para todo o continente, incluindo o Brasil.

  * Marcos Cardoso é jornalista, autor de “Sempre aos Domingos: Antologia de textos jornalísticos”.

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