
Por Marcos Cardoso*
Sergipe perdeu um time completo de jornalistas nos últimos dois anos. De Thaís Bezerra, em abril de 2024, a Diógenes Brayner, que nos deixou poucos dias atrás, são muitos dos melhores profissionais da comunicação que partiram dessa para melhor, como assim desejamos.
O time aumenta se contarmos outros tão bons que já se foram nesta terceira década do século 21, ou um pouco antes, desde Amaral Cavalcante em julho de 2020. Em comum além da faixa de idade, todos com mais de 60 anos, o histórico de terem sido moldados, para o bem ou para o mal, nos anos da ditadura militar, tendo atuado diretamente ou sido influenciados mesmo que sem saber pela cultura dos anos de chumbo.
É uma geração que fica mais pobre e deixa mais empobrecido o jornalismo que sujava as mãos de tinta enquanto ideologizava um mundo mais justo e menos desigual. Geração de viveu uma revolução de costumes, que se espantou com a chegada da internet e viu o processo de comunicação sair da tipografia para a inteligência artificial.
Claro que nem todos pensavam o jornalismo da mesma forma, eram personas diferentes, que viveram e morreram de jeitos diferentes, mas todos deram contribuição importante ao processo.
Amaral Cavalcante – Nos deixou em 7 de julho de 2020, aos 73 anos. Foi ator, poeta, editor, agitador cultural e acima de tudo cronista, com sensibilidade e humor refinados para transformar o cotidiano em literatura. Trabalhou em jornais, mas seu grande legado foi a Folha da Praia, o hebdomadário que conquistou corações e mentes nos anos 80 e 90, com a coragem de dizer o que a imprensa careta não tinha moral para contar. Com a autoridade e sensibilidade de um diretor de redação, no dia do fechamento do jornal o poeta regia a turba de jornalistas, intelectuais e malucos, fazendo-os produzir genialidades e excentricidades, ao mesmo tempo que finalizava cada página com o carinho do pai que troca a roupa do filho dileto para levá-lo a passear no parque. No caso, o rebento ia passear na praia, todo fim de semana. Amaral também editou a revista Cumbuca. Um ano antes de morrer promoveu concorrido lançamento do livro de crônicas “A vida me quer bem”, pela Edise. Morreu por insuficiência renal agravada pela covid.
Ilma Fontes – Foi-se embora no dia 3 de abril de 2021, aos 73 anos. Uma das mentes femininas mais inteligentes e inquietantes do seu tempo. O mundo intelectual e artístico aracajuano parou numa noite de 1980 para assistir à exibição de um curta-metragem que causaria excitação e espanto. O filme de 7 minutos, em Super 8, era “O Beijo”, produção de Ilma Fontes, roteiro e direção de Yoya Wursch, protagonizado por elas, com direção de fotografia e montagem de César Macieira e câmera de Fernando Souza. O resumo do argumento é sobre duas mulheres que, envolvidas nas tramas existenciais, procuram respostas para a melhor maneira de viver. Mas o que todos queriam ver era o longo e caliente beijo trocado pelas duas. Um escândalo! Por quase 30 anos fez de “O Capital – Jornal de resistência ao ordinário” sua trincheira de luta. Morreu de câncer.
Luiz Melo – No dia 18 de agosto de 2022, aos 85 anos. Alagoano de Rio Largo, na região metropolitana de Maceió, Luiz Melo foi petroleiro antes de se tornar jornalista em Sergipe. A atividade na Petrobras o trouxe para Aracaju. Foi editor do Jornal da Manhã e estava lá desde que o diário ostentava o título de Tribuna de Aracaju e foi comprado por João Alves Filho, que mudou o nome. Nos anos 90 chegou ao Jornal da Cidade, onde foi secretário de Redação e responsável pela editoria Nacional. Era um sujeito conservador, muito responsável e fazia questão de ser o último a sair do jornal. Foi vítima de um AVC.
Thaís Bezerra – Partiu no dia 1º de abril de 2024, aos 64 anos. A morte da musa do jornalismo de variedades abriu as portas de um ano triste para o jornalismo sergipano, particularmente para o Jornal da Cidade. Thaís foi cria da Gazeta de Sergipe, onde conviveu com Ivan Valença, Luiz Antônio Barreto e Ancelmo Gois. No Jornal da Cidade, desenvolveu um estilo muito próprio de narrar os fatos que envolviam o mundo empresarial e a alta sociedade sergipana, com notas picantes e densas de informação. O rentável caderno de TB era disputado aos domingos. Gostava das festas, viveu intensamente e sempre cercada de muitos amigos. Lutou contra um câncer que foi mais forte do que sua vontade de viver.
Osmário Santos – Despediu-se no dia 16 de maio de 2024, aos 72 anos. Também tinha um estilo muito peculiar de fazer jornalismo e as suas entrevistas com personalidades diversas no Jornal da Cidade renderam dois livros importantes: “Memórias de Políticos de Sergipe no século XX”, alentado volume patrocinado pela Universidade Federal de Sergipe, Banese e Fundação Oviêdo Teixeira, em 2002, organização do professor Afonso Nascimento e que conta com uma entrevista histórica de Marcelo Déda; e “Oxente! Essa é a nossa gente”, com vultos populares da sociedade aracajuana, publicado com apoio do Banese em 2004. Osmário editou uma coluna de variedades bastante concorrida. Foi um dos idealizadores, ao lado do artista plástico José Fernandes, do Passeio de Tototó pelos rios Poxim e Sergipe. Morreu de complicações causadas pelo Alzheimer.
Eugênio Nascimento – Nos deixou no dia 1° de novembro de 2024, aos 66 anos. Terceira perda do Jornal da Cidade muito sentida naquele ano, Eugênio Nascimento passou por outras redações e por muitos anos foi correspondente da Folha de São Paulo, quando os grandes jornais do país ainda mantinham representantes em quase todos os estados. Foi editor de Política e depois diretor de Redação do JC. Ele também trabalhou na Universidade Federal de Sergipe, onde ingressou no início dos anos 90 nos quadros do Centro Editorial e Audiovisual e assessorando quatro reitores. Eugênio criou o blog Primeira Mão, onde mantinha uma coluna política semanal. Morreu em consequência de problemas cardíacos.
Ivan Valença – No dia 21 de abril de 2025, aos 81 anos. Sua morte abriu um ano cruel para o jornalismo sergipano. Jornalista político e crítico de cinema, Ivan foi formado na velha Gazeta de Sergipe de Orlando Dantas. Em 1970, ao lado do publicitário Nazário Pimentel, fundou o Jornal da Cidade, posteriormente vendido para Augusto Franco. Retornou ao JC nos anos 90, quando passou a escrever uma coluna semanal. Foi secretário de Estado da Cultura e do Turismo e presidente da Fundação Cultural de Aracaju (Funcaju). Foi dono de gráfica, de videolocadora, trabalhou na Assembleia Legislativa e colaborou na Infonet por muitos anos, até sua morte. Morreu em decorrência do Alzheimer.
Raymundo Luiz da Silva – Despediu-se no dia 5 de maio de 2025, aos 95 anos. O longevo jornalista trabalhou no Diário de Aracaju, onde foi diretor, Jornal da Manhã e A Cruzada, jornal editado pela Arquidiocese de Aracaju. Ele fez história como diretor da Rádio Cultura. Trabalhou na Rádio Jornal de Sergipe, na TV Sergipe e na TV Atalaia e contribuiu com a implantação da TV Aperipê e TV Jornal. Era o diretor de Comunicação da Assembleia Legislativa quando foi fundada a TV Alese, em 2004. Morreu após contrair uma pneumonia.
Mônica Pinto – Nos deixou no dia 17 de junho de 2025, aos 61 anos. Mineira criada no Rio de Janeiro, onde cursou jornalismo, Mônica fez carreira em Sergipe, aqui desembarcando em 1987. Depois chegou a residir em Curitiba, onde cursou o mestrado em Comunicação, retornando para Aracaju. Era especialista em Ciências Ambientais. Atuou no Jornal de Sergipe, Cinform, UFS e deixou sua marca no jornalismo institucional e corporativo, com destaque para os anos de trabalho no grupo Multserv, onde fundou e foi diretora do portal F5 News. Também se destacou como escritora, tendo entre suas obras “Memória do Rádio” e “Memória do Comércio”, referências sobre a história da comunicação e do setor empresarial em Sergipe. Sua morte precoce foi consequência de um câncer.
André Barros – No dia 17 de junho de 2025, aos 61 anos. O inquieto jornalista e publicitário, com atuação marcante na TV e no rádio, tinha a mesma idade e morreu no mesmo dia que Mônica Pinto. Infeliz coincidência. Com trajetória iniciada em 1981, trabalhou na TV Sergipe, de onde seguiu para a TV Globo em Brasília. Depois retornou à TV Sergipe como diretor de Jornalismo. Também teve passagem pela TV Manchete, CBN, TV Atalaia, rádios Jovem Pan, Nova Brasil e Transamérica, além do Jornal do Dia e Jornal da Cidade. Foi coordenador de Comunicação e secretário de Estado da Comunicação Social, sócio-diretor da Suporte Propaganda e fundador do Sindicato das Agências de Propaganda de Sergipe. Morreu quando se tratava de um câncer linfático.
Jackson Hora – Nos deixou no dia 12 de julho de 2025, aos 69 anos. Foi professor do Estado e funcionário da Universidade Federal de Sergipe, trabalhando como locutor e mestre de cerimônia na Secretaria de Estado da Educação e na UFS. Homem de rádio, com passagem pela extinta Difusora, atual Aperipê, e Atalaia AM, encerrou sua trajetória na UFS FM. Morreu em consequência de um AVC.
Euler Ferreira – Despediu-se no dia 17 de agosto de 2025, aos 75 anos. Bancário antes de ser jornalista, atuou como repórter, apresentador, editor e diretor na TV Sergipe, TV Aperipê, TV Cidade e TV Alese. Foi diretor de Comunicação do Tribunal de Justiça de Sergipe por 12 anos. Morreu em consequência de uma pneumonia.
Yara Belchior – Em 6 de outubro de 2025, aos 64 anos. Natural de Salvador (BA), tinha título de cidadã sergipana e aracajuana, era psicanalista e bacharela em Letras pela Universidade Federal de Sergipe. Ela começou como revisora no Jornal da Cidade e trabalhou no Jornal de Sergipe, Gazeta de Sergipe, Jornal da Manhã e Infonet, principalmente como colunista social. Também trabalhou na TV Sergipe e foi correspondente da revista Veja. Foi coordenadora de Comunicação do Tribunal de Contas de Sergipe. O corpo da jornalista foi doado para estudos à UFS, atendendo um pedido dela.
Clara Angélica – Nos deixou no dia 10 de maio de 2026, aos 76 anos. Jornalista, tradutora e ligada à cena cultural, com dedicação pessoal à música, Clara também foi formada na Gazeta de Sergipe. Teve passagem pela Rádio Cultura, TV Sergipe, pela Folha da Praia e fundou com Luís Eduardo Costa o jornal O Que. Foi subsecretária de Cultura do Estado, na gestão de Antônio Carlos Valadares, e uma das responsáveis por convencer o jornalista Joel Silveira a assumir o cargo de secretário, o primeiro secretário de Cultura de Sergipe. Morreu de causa não revelada.
Diógenes Brayner – Foi-se embora no dia 24 de junho de 2026, aos 79 anos. Natural de Petrolândia (PE), formado em Comunicação Social no Recife, passou por uma cidade do Mato Grosso do Sul, como bancário concursado do Banco do Brasil, emprego que depois ele largaria em nome da carreira na comunicação. Chegou a Sergipe em 1982 para editar o Jornal de Sergipe, onde se destacou. Depois passou pela Gazeta de Sergipe e Correio de Sergipe. Foi fundador do portal de notícias FaxAju, no qual escrevia sobre política diariamente até pouco antes da sua morte. Jornalistas como Ofélia Onias e Cássia Santana o consideravam um professor de jornalismo. Morreu de câncer de pâncreas.
*Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com
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