Na reta final da disputa, candidatos incorporam o salve-se quem puder
28 de setembro de 2026
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O que aconteceu com o jornalismo brasileiro? Morreu? Ou respira por aparelhos?

Por Lucindo José Quintans Júnior*

Há algo profundamente incômodo quando precisamos de um comediante para compreender uma das histórias financeiras e políticas mais complexas e relevantes do país.

Fábio Porchat fez recentemente algo aparentemente banal: reuniu informações públicas, personagens, documentos, relações políticas e movimentações financeiras em torno do Banco Master e organizou tudo numa narrativa que uma pessoa comum consegue acompanhar. O vídeo chegou ao primeiro lugar do ranking Hype do YouTube.  Não foi apenas humor. Foi, sobretudo, capacidade de explicar.

E talvez esteja aí uma das crises do jornalismo contemporâneo. Nunca tivemos tanta informação disponível e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil para o cidadão compreender o que realmente importa.

O problema não é simplesmente falta de notícia. Há excelentes reportagens sendo produzidas. O próprio caso Master demonstra isso. Investigações jornalísticas revelaram documentos da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República segundo os quais Flávio Bolsonaro, hoje candidato à Presidência, era interlocutor direto de Daniel Vorcaro nas negociações de recursos para o filme Dark Horse. A Polícia Federal o investiga formalmente nesse contexto.  E os números não são pequenos.

Segundo documentos da investigação divulgados pela imprensa, foram negociados pelo menos US$ 24 milhões para o projeto, dos quais ao menos US$ 12,3 milhões teriam sido efetivamente pagos. A própria PF registrou que a magnitude dos valores destoava dos parâmetros do mercado audiovisual brasileiro e considerou necessário aprofundar a apuração sobre a destinação efetiva dos recursos. Isso não constitui prova de crime nem autoriza antecipar culpa. Constitui, porém, um conjunto de fatos de evidente interesse público; ainda mais quando envolve um candidato à Presidência da República.  É precisamente aqui que surge minha inquietação.

Onde está a pergunta seguinte? Quem recebeu? Quem administrou? Onde o dinheiro foi gasto? Qual foi a contrapartida? Que serviços foram efetivamente prestados? Por que os valores alcançaram essa dimensão? Que parte permaneceu no Brasil e que parte foi remetida ao exterior?

Aliás, o sócio americano de uma das produtoras recusou-se a entregar voluntariamente à PF documentos societários, contábeis, fiscais, bancários e contratuais, afirmando que somente o fará mediante determinação da Justiça dos Estados Unidos. Isso, novamente, não prova irregularidade. Mas certamente aumenta,  e não diminui,  o interesse jornalístico sobre o destino do dinheiro.  O jornalismo deveria viver dessas perguntas.

Não para condenar previamente alguém. Exatamente o contrário: para separar suspeita de prova, personagem de fato, narrativa de documento e propaganda de informação. E talvez seja justamente isso que o vídeo de Porchat tenha conseguido fazer para tanta gente: transformar uma pilha de acontecimentos aparentemente desconectados em uma história inteligível.

O sucesso do vídeo deveria provocar uma pergunta desconfortável dentro das redações: por que milhões de brasileiros precisam recorrer a um humorista para compreender um assunto que está sendo noticiado há meses? Talvez porque publicar informações não seja exatamente a mesma coisa que explicar a realidade. Há uma diferença enorme entre produzir cinquenta notícias sobre um escândalo e permitir que o leitor compreenda o escândalo.

Uma reportagem revela uma transferência. Outra apresenta uma mensagem. A terceira noticia uma operação policial. A quarta registra a resposta de um investigado. A quinta pergunta como aquilo repercute nas pesquisas eleitorais. Ao final, temos dezenas de matérias; e um cidadão que continua sem conseguir montar o quebra-cabeça. Porchat montou o quebra-cabeça!

Pode-se discutir seu enquadramento, suas escolhas editoriais ou o formato. Isso é legítimo. Mas o extraordinário alcance do vídeo sugere que existe uma enorme demanda social por jornalismo explicativo: alguém que diga “vamos começar do início”, organize uma cronologia, mostre quem é quem, apresente os documentos, confronte versões e permita ao público formar sua própria opinião. Esse deveria ser um dos grandes papéis do jornalismo!

E há um segundo problema: a eleição parece estar contaminando a escolha das perguntas. Em vez de perguntarmos primeiro “isso é relevante para o país?”, frequentemente perguntamos “isso ajuda ou prejudica quem na eleição”? A inversão é perigosa. Uma denúncia passa a ser medida por sua capacidade de alterar pesquisas. Uma política pública vira estratégia eleitoral. Uma investigação passa a ser analisada segundo quem ganha ou perde votos.

A eleição deixa de ser objeto da cobertura e passa a determinar o próprio olhar do jornalismo. É a transformação do repórter em comentarista permanente de corrida eleitoral. O mesmo fenômeno aparece quando temas sociais enormes são reduzidos à pergunta: “isso dá voto”? Bets, endividamento, SUS, violência, educação, ciência, desigualdade, relações internacionais: tudo acaba convertido em cálculo eleitoral! Mas, o drama de uma família destruída pelo jogo não se torna mais ou menos verdadeiro dependendo de sua capacidade de mover dois pontos numa pesquisa.

Da mesma forma, as relações de um candidato com personagens envolvidos em um dos maiores escândalos financeiros recentes não se tornam jornalisticamente relevantes apenas quando alteram intenção de voto. São relevantes porque são relevantes!

Existe ainda uma terceira questão que me parece pouco explorada: a dimensão internacional da eleição brasileira. Em um mundo no qual governos, plataformas digitais, redes econômicas e atores transnacionais possuem enorme capacidade de interferir no ambiente informacional de outros países, relações e pressões externas sobre o Brasil deveriam receber investigação permanente. Quando houver alegações de interferência dos Estados Unidos ou de qualquer outro governo, elas precisam ser examinadas com documentos, cronologia, interesses envolvidos e contrapontos; distinguindo cuidadosamente pressão diplomática, manifestação política e interferência eleitoral propriamente dita.

O que não ajuda é transformar um assunto dessa importância em slogan, seja para afirmá-lo sem evidências, seja para descartá-lo sem investigação.

Essa deveria ser outra função essencial do jornalismo: retirar os fatos das trincheiras políticas e submetê-los ao método da apuração. E seria injusto afirmar que isso desapareceu completamente.

Há jornalistas e veículos fazendo trabalho investigativo relevante. A Folha, por exemplo, publicou documentos importantes do caso Dark Horse. O UOL mantém profissionais que continuam fazendo investigação e contextualização. Veículos independentes também ocupam parte desse espaço. Portanto, talvez o diagnóstico correto não seja a morte do jornalismo. Talvez seja sua fragmentação.

Temos excelentes repórteres e jornalistas. A minha crítica não é sobre qualidade. Temos documentos. Temos dados. Temos investigações. Temos fontes. O que frequentemente falta é juntar tudo!

Em minha módica opinião como expectador falta: Falta contexto. Falta memória. Falta acompanhamento. Falta voltar à matéria três semanas depois. Falta perguntar novamente quando alguém não respondeu. Falta explicar um contrato. Falta seguir o dinheiro. Falta comparar versões. Falta transformar informação em conhecimento. E sobra velocidade. Sobra opinião. Sobra repercussão. Sobra a matéria sobre a matéria. Sobra a declaração sobre a declaração. Sobra a pesquisa sobre quem ganhou o debate sobre a declaração dada em resposta à outra declaração.

E o fato, às vezes, fica perdido no meio disso tudo. Talvez por isso seja tão simbólico, pelo menos para mim, que um comediante tenha conseguido capturar a atenção do país explicando um escândalo financeiro.

Porchat não demonstrou que jornalistas são desnecessários. Demonstrou exatamente o contrário: mostrou o tamanho da falta que o bom jornalismo está fazendo!

Sou farmacêutico e professor universitário. Não pretendo ensinar jornalismo aos jornalistas. Seria uma arrogância e uma pretensão que não tenho! Não tenho sequer formação técnica para isso. Falo do meu lugar, como leitor, cidadão, espectador, como quem assiste, lê e escuta; e como alguém que ainda acredita que uma democracia precisa de uma imprensa forte, independente e desconfiada de todos os poderes. De governos. De oposição. De empresários. De bancos. De igrejas quando atuam politicamente. De ministros. De candidatos. E também de suas próprias certezas.

Porque jornalismo não deveria existir para dizer ao eleitor em quem votar. Deveria fornecer ao cidadão aquilo de que ele necessita para decidir sozinho. Documentos. Contexto. Contraditório. Memória. E perguntas. Sobretudo perguntas! Perguntas simples, inclusive. Tais como:  Quem recebeu? Quanto recebeu? De onde veio? Para onde foi? O que foi entregue em troca? Há documentos? O que dizem os envolvidos? As versões são compatíveis com os fatos? Curiosamente, foram perguntas desse tipo que fizeram milhões de pessoas parar para assistir a um comediante explicar o Banco Master.

Talvez o jornalismo brasileiro não tenha morrido. Talvez esteja apenas soterrado por pesquisas eleitorais, declarações, algoritmos, velocidade, torcida e opinião. Ainda há excelentes jornalistas tentando desenterrá-lo. Tomara que consigam. O relógio está contando!

Porque, a poucas semanas de uma eleição presidencial, o Brasil precisa menos de comentaristas tentando adivinhar o próximo voto e mais de profissionais preparados e extremamente qualificados tentando descobrir o próximo fato.

*Prof. Dr. Lucindo José Quintans Júnior. Farmacêutico, Professor Titular da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). lucindo@academico.ufs.br

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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