

Por Arthur Grupillo*
No último dia 20 de abril de 2026, os jornais pelo mundo noticiaram e o mercado financeiro internacional celebrou uma transação de 2,8 bilhões de dólares. Parecia uma questão especializada demais para gerar comoção pública ou crise política. Não houve, pelo menos que eu saiba, festas duvidosas ou escândalos envolvendo senadores ou ministros. Mas pode até ter sido pior, se visto com uma lupa histórica um pouco mais poderosa. A mineradora americana USA Rare Earth anunciou a aquisição da brasileira Serra Verde, que atua em Minaçu, Goiás. Enquanto as manchetes do Wall Street Journal cantavam a vitória da segurança nacional dos EUA, no Brasil o silêncio dos distraídos era ensurdecedor.
Para entender a importância do fato, precisamos traduzir o tecnicismo. A mina de Serra Verde não extrai ferro ou ouro. Ela extrai terras raras, que são minerais com nomes tão estranhos como “neodímio”, “praseodímio” e “disprósio”. Agora, imagine que esses minerais são a matéria-prima da indústria do século XXI. Sem eles, o motor de um carro elétrico não gira, uma turbina eólica não gera energia, e seu celular simplesmente não funcionaria. Mais do que isso: eles são o “cérebro” dos mísseis guiados e drones, que são, por sua vez, os armamentos mais importantes da guerra moderna. Quem controla esses minerais, controla o futuro da energia e da defesa.
O valor de 2,8 bilhões de dólares de fato não é apenas um “cheque” dado aos antigos donos; ele inclui também o chamado CAPEX, capital que os americanos prometem injetar na mina para expandir a produção. Mas o tamanho do negócio é vultoso pelo simples fato de estarmos vendendo o controle da única operação comercial desse tipo no Brasil. Além disso, a mina de Goiás é classificada como “argila iônica”, mais mole, por assim dizer, o que significa que o minério ali é muito mais fácil e barato de processar do que o encontrado em outros países, onde as terras são igualmente raras, mas duras, como rochas. Era a “picanha” que os EUA precisavam para fazer o churrasco: eles já tinham a brasa e a churrasqueira. Podem agora fechar uma cadeia produtiva inteira (eles já tinham planta de ímãs em Oklahoma e participação em empresa de processamento na França). A mina brasileira é uma das poucas do tipo fora da Ásia, e comprá-la significaria para os EUA parar de depender da China. E assim eles fizeram.
Na década de 1950, o Brasil se mobilizou para garantir que o petróleo servisse ao desenvolvimento nacional. Hoje, substituímos “O petróleo é nosso” por “As terras raras são deles”. A comparação é exagerada, mas é verdadeira onde mais dói: a falta de vontade política. O subsolo, por lei, pertence à União (conforme as normas da ANM – Agência Nacional de Mineração). Será que Serra Verde foi vendida por falta de dinheiro para investimentos? Não teriam o BNDES ou alguns dos nossos gigantes fundos de pensão fôlego para esse investimento? Pois está claro que a questão não é apenas de mercado, e sim também de soberania.
O silêncio, como eu disse, é ensurdecedor. Onde estão os intelectuais e centros de pesquisa? Os engenheiros não sabem escrever artigos? Os sociólogos e filósofos só estão interessados em “decolonianismo”? Mas o que pode ser mais neocolonialismo do que isso? Na imprensa, o tema é discutido de forma generalista e pueril, como curiosidade científica, sem esclarecimento, como se fosse detalhe técnico distante. Ou então é mencionado como grande negócio, ao estilo da elite empresarial brasileira, que continua com a velha mentalidade de exportar matéria-prima bruta e lucrar rápido, em vez de exigir do governo uma estratégia corajosa de industrialização e soberania.
O governo, apesar do discurso desenvolvimentista, ainda não converteu palavras em ação. Um professor universitário preocupado como eu, mas que nem especialista no assunto é, só de ter estudado um pouco chegou à conclusão de que o Brasil poderia ter condicionado a venda a: (1) transferência de tecnologia, isto é, aprender a técnica de separação química (segredo industrial guardado a sete chaves), (2) parcerias nacionais, exigindo que empresas brasileiras fizessem parte do controle da operação, (3) refino local, garantindo que ao menos parte do processamento fosse feito em solo nacional, o que gera empregos qualificados e tira engenheiros da mão da Uber.
Ao deixar o mercado decidir sozinho o destino de um mineral crítico, o Brasil se comporta como uma colônia extrativista do século XXI. Os EUA já garantiram o fornecimento dessa mina por 15 anos para fortalecer sua própria indústria. Eles têm estratégia; nós temos as terras. Sem estratégia, a terra é só um campo escorregadio de futebol e, hoje, nem mais isso. Se a sociedade não acordar e o governo não reagir, continuaremos eternamente a ser o país que fornece os ingredientes para um banquete tecnológico que os outros irão desfrutar. O futuro não espera.
*Arthur Grupillo é professor do Departamento de Filosofia da UFS.
O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.