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11 de maio de 2026
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No vale da Cotinguiba, um Campus parado no tempo

Por Mário Resende*

Há quase duas décadas, nascia em Laranjeiras um projeto que carregava em seu DNA a assinatura de instituições do porte do IPHAN, do Ministério da Educação e do Ministério da Cultura. Com a pedra fundamental lançada pelo Ministro Gilberto Gil, num dia de sol e calor, o Campus de Laranjeiras da Universidade Federal de Sergipe surgia como uma joia rara, lapidada para ser o farol das artes em Sergipe e fincar raízes profundas na histórica cidade do Vale do Cotinguiba. A promessa era transformar o município em uma referência universitária, à imagem e semelhança do que Ouro Preto e Mariana representam para Minas Gerais.

A inauguração, no final do Governo Lula II, teve a presença brilhante de Marcelo Déda, do Ministro da Educação Fernando Haddad, do presidente Lula, do Reitor Josué Modesto e da prefeita Ione Sobral – um grandioso dia de luz na cidade. Na ocasião, o presidente Lula foi presenteado com um chapéu de um grupo folclórico de Laranjeiras. A foto correu mundo. Um entusiasmo imenso. A professora Beatriz Góis Dantas, estudiosa da cultura popular sergipana, doou parte da sua biblioteca para o CAMPUSLAR. Tempos depois, Maria João, uma pianista gigante portuguesa, visitou o Campuslar e, apaixonada, propôs um doutorado em música. Já o Secretário de Cultura, Irineu Fontes, levou para o CAMPUSLAR o Fórum Sergipano de Cultura, o que levou para Brasília as ideias e ações propostas por Sergipe para o I Plano Nacional de Cultura. Um entusiasmo só. Duas décadas depois, o que temos para contar?

O balanço é agridoce e, infelizmente, pende mais para o amargo. Dos cinco cursos originalmente implantados, dois – Teatro e Dança – já não pertencem mais à paisagem do Campus. Foram transferidos, levando consigo não apenas aulas, professores e matrículas, mas a energia vibrante que só as artes cênicas sabem imprimir em um território. Os que ficaram resistem, é verdade. Mas resistem de pé por um esforço que só pode ser classificado como hercúleo, protagonizado por alunos, professores e técnicos administrativos que insistem em remar contra a maré do abandono interno. De quem? Segue adiante. É preciso fazer uma crítica séria. O Campus, como projeto de cidade, não foi feliz no diálogo com Laranjeiras. Não conseguiu tecer com o município a trama de uma verdadeira cidade universitária. Não costurou, no devir do dia a dia, o papel das gestões do referido Campus.

O que faltou? Faltou a peça mais elementar e decisiva: gestão. Gestão para o diálogo, gestão para a atitude, gestão efetiva e propositiva para buscar recursos, construir alianças, edificar possibilidades. Para entender o tamanho do que foi perdido, basta recuar no tempo e mirar o exemplo do que já existiu ali. Logo após a inauguração do Campuslar, nos Trapiches, a professora do Departamento de Design, Adriana Nogueira, assumiu a gestão pro-tempore. Ali, naqueles primeiros anos, floresceu o embrião do que a universidade pública pode oferecer de mais potente em uma comunidade. Sob sua liderança, semanas de extensão, graduação e pesquisa entravam no calendário não como eventos burocráticos, mas como celebrações constantes da vida acadêmica. Anualmente, o Campus lançava um livro, “O despertar do Conhecimento na Colina Azul”, um testemunho impresso da efervescência cultural e científica que pulsava nos antigos Trapiches transformados num espaço universitário.

Na gestão Adriana, nasceu o Festival Trapiche das Artes. Um festival de verdade, com a participação massiva da comunidade de Laranjeiras, ocupando o Campus de manhã, tarde e noite, e fazendo jus ao nome com um campus aberto, vivo e pulsante, com exposições, música, dança, teatro, intervenção nas praças e escolas. Foram quatro edições memoráveis. E não foi só na extensão e na cultura que o avanço veio. Foi naquele período que se plantou a semente do primeiro mestrado do Campus, o de Arqueologia, elevando o patamar da produção científica local. O Campus era florescente, vivo, atuante. Mas havia um segredo estrutural para isso: uma gestão que buscava recursos e atuava com afinco, e um regimento que previa, com inteligência, uma coordenação de pesquisa e ensino e outra de extensão e cultura. O modelo funcionava porque distribuía responsabilidades e criava instâncias de cobrança e execução.

Um único projeto de extensão, coordenado pela professora Ana Angélica Góes, do Departamento de Dança, tinha quase 200 crianças da rede pública de Laranjeiras. Alunos de museologia eram disputados pelos museus de Laranjeiras e Aracaju. Estudantes eram premiados. Viajavam para apresentar trabalhos em eventos nacionais e internacionais. O Campus levava saberes, recebia a comunidade, bebia e vivia da cultura popular de Laranjeiras.

Foi a partir do desmonte desse arranjo que a engrenagem emperrou. O que se fez depois? Simplificaram o regimento. Extinguiram as coordenações. Sob o manto enganoso da simplificação administrativa, a mensagem subterrânea foi dada: melhor não ter, assim ninguém é cobrado. As gestões que vieram na sequência não tiveram a mesma garra, a mesma petulância construtiva daquela primeira. A coletânea do “Despertar do Conhecimento na Colina Azul” faleceu após a quarta edição. O Festival Trapiche, que era um símbolo de encontro entre a Universidade e a cidade, foi simplesmente extinto. No máximo, o que se vê hoje são semanas acadêmicas que replicam o que se faz no campus de São Cristóvão. Um repeteco burocrático, sem alma, sem Laranjeiras.

O golpe de misericórdia veio com o fechamento dos cursos noturnos, transferidos para Aracaju e São Cristóvão. Fecharam o Campus à noite, como quem apaga as luzes de uma casa que se quer abandonar. Na época, a comunidade suplicou por cursos técnicos noturnos em convênio com a SEDUC. Não foi ouvida. Anos depois, a Câmara de Vereadores de Laranjeiras, por unanimidade, formalizou um pedido para a criação de uma extensão do Curso de Direito à noite. O documento foi solenemente ignorado. Tocou-se o barco, e a tônica dos gestores se tornou uma só: culpar a distante reitoria da UFS pelo suposto abandono. Mas, para que, afinal, serve a direção de um campus se não para mediar, propor, construir, pressionar e, sobretudo, liderar?

O movimento mais recente do Conselho Superior da UFS transferiu, definitivamente, o curso de Dança para São Cristóvão, oficializando uma situação de fato que já durava mais de uma década. A reitoria, em contrapartida cuidadosa para com o Campuslar, anunciou, na mesma reunião, uma soma vultosa para recuperar a infraestrutura do prédio – quase dois milhões –, a criação de um novo departamento e mais vagas para concurso de professores. Era para ter festa. Mas o que se vê: nem o anúncio oficial e documental reanima a direção do Campuslar, que há tempos parece resignada. Quando os órgãos de controle, tão silentes, passarão a observar e cobrar, com afinco, a vida própria que esses campi adquiriram – com seus recursos, suas possibilidades e, no caso de Laranjeiras, seu enorme passivo de oportunidades perdidas?

A memória da “Colina Azul”, do Festival Trapiche das Artes, das extensões que enchiam o CAMPUSLAR de alunos da rede pública de Laranjeiras, das presenças de Marcelo Déda, Gilberto Gil, Lula, Maria João, Fernando Haddad, não é mera nostalgia. É que, no início, havia um projeto de universidade pública que ousava se misturar, em pé de igualdade, com a cidade, e que foi soterrado por uma sucessão de omissões. A esperança, no entanto, também vive das experiências passadas. Mas, sem gestão à altura, sua lapidação vai se perdendo no tempo, morna, igual café esquecido no bule. Enquanto o Vale do Cotinguiba assiste, silencioso, à erosão de um sonho que já esteve tão perto de ser real, os pioneiros do primeiro dia ainda acreditam que possa existir um caminho.

*Prof. Mário Resende – DDA/CCEH

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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