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31 de maio de 2026
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Nélson de Araújo, 100 anos

Por Marcos Cardoso*

Dia 7 de abril passado fez 33 anos da morte de um quase ilustre desconhecido sergipano, Nélson de Araújo, homem que dedicou toda sua vida ao ensino, à pesquisa, ao jornalismo e à literatura, e foi dos mais prolíficos e festejados escritores sergipanos modernos. Jornalista, fotógrafo, tradutor, editor, ensaísta, cronista, romancista, folclorista, teatrólogo, incansável pesquisador da cultura popular e professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, Nélson Correia de Araújo nasceu em Capela, em 4 de setembro de 1926, há quase 100 anos. Foi o último filho do segundo casamento do major Gothardo Correia de Araujo, com Luíza Soares dos Santos.

Nélson de Araujo (4/9/1926 – 7/4/1993)

Ainda menino mudou-se para Aracaju, onde morou com o irmão, o bancário Augusto, e a cunhada, a professora Normélia, na Avenida Pedro Calazans. Estudou no Colégio Salesiano e, aos 23 anos, depois de ser fichado como comunista pela Secretaria de Segurança Pública de Sergipe, migrou para Salvador, onde se tornou um prolífico fazedor de cultura, mas morreu sem conhecer a fama de mestre da ficção, como o chamou Jorge Amado num comentário sobre o livro “1591 – A Santa Inquisição na Bahia e outras estórias”, lançado pela Editora Nova Fronteira em 1991.

Avesso ao marketing, Nélson de Araújo trilhou o caminho oposto ao que é percorrido pelos fabricadores de best-sellers: foi festejado pela crítica, mas não atingiu o grande público. Isso também contribuiu para o desconhecimento que os conterrâneos têm da sua obra. Mas não só isso. Homem de sete fôlegos na produção literária, ele foi uma vítima do provincianismo. Foi embora de Aracaju para fugir do espírito atrasado daqui – coisa que sergipano não perdoa.

Na Bahia, logo mostrou o gosto pela literatura. Sua versatilidade ficou comprovada em 1956, quando começou a trabalhar na Livraria Progresso Editora, onde iniciou a experiência editorial. Segundo contou na abertura do Primeiro Encontro de Editoração da Bahia, em 1990, ali ele foi “um factótum de revisor de provas, inicialmente, a revisor de originais”. Junto com Milton Santos, criou em 1960 a Coleção Tule, seção editorial da Imprensa Oficial da Bahia para dar apoio ao escritor baiano. Nesse mesmo ano, o autodidata capelense foi convidado para lecionar a disciplina História do Teatro na Universidade Federal da Bahia. Mais tarde, foi pioneiro no ensino de Expressões Dramáticas do Folclore.

Foi diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais, da UFBA, onde fundou a Revista Afro-Ásia. Apaixonado pelo Recôncavo Baiano, publicou muito e de tudo, inclusive textos de ficção como as novelas “O Império do Divino visto pelos olhos de Pisa-Mansinho” e “Vida, paixão e morte republicana de Don Ramón Fernández y Fernández”, histórias que junto com “Aventuras de um caçador de arcas em terras, mar e sonho”, foram publicadas em 1987 pela Editora Ianamá, sob o título de “Três novelas do povo baiano”.

“O Império do Divino…” é uma novela contaminada pelo fato folclórico, que exprime “a maneira de ser mais profunda de um povo”, como dizia o escritor, sintetizando uma de suas paixões. A propósito, disse Jorge Amado: “Personagem magnífico, Pisa-Mansinho veio para ficar definitivo na galeria das melhores criações da nossa literatura nos últimos tempos. (…) Aqui estamos diante de um mestre da ficção brasileira. (…) Pequeno e delicioso romance.” O bibliófilo Plínio Doyle acrescentou: “Novela esplêndida/curiosa/agradável à leitura e ao suspense. (…) Obra de fino lavor”.

Na novela “1591, a Santa Inquisição na Bahia e outras histórias”, Nélson de Araújo conta como foi a temporada, em Salvador, de “um emissário da Santa Sé, investido numa missão tão importante, qual a de escoimar a metade do mapa-múndi de pecados, heresias e crimes judaicos”. Em “Aventuras de um caçador de arcas em terra, mar e sonho”, ele faz uma literatura alegórica que mistura o realismo episódico com o realismo mágico. Já em “Vida paixão e morte…”, bela história dos galegos espanhóis na Bahia, predomina a linguagem erudita.

Quanto a “1591, a Santa Inquisição na Bahia e outras histórias”, o amável Jorge Amado reclamava o relativo anonimato de Nélson à falta “de uma edição decente, nacional, capaz de alcançar o público e se impor à crítica do Sul colonizador, em geral grupista e chovinista, os críticos cariocas e paulistas”. Mas a jornalista e escritora Marilene Felinto, então articulista da Folha de São Paulo, publicou (25/1/1992): “É até estranho ler, nos dias de hoje, um livro bem escrito como este — de português bem escrito, tão naturalmente que só poderia ser nordestinamente bem escrito. Afinal, o Nordeste sempre falou e escreveu o melhor português do Brasil”.

O romancista Paulo Amado já havia observado no caderno Ideias/Livros, do Jornal do Brasil (9/11/1991): “Nélson de Araújo, na palavra sempre definitiva de Jorge Amado, quando o assunto é ficção e narrativa, é dono de ‘escrita plena de privilegiado senso de humor’, e é capaz de restituir o prazer de ler, ‘comprometido pelo vasto clã de literatos, tão chatos quanto pretensiosos’. Afirmação que procede, à vista do livro, que não só confirma a maturidade e o talento verbal do autor, mas também a evidência de uma permanência na prosa brasileira: a densidade barroca”.

Por essa versatilidade de dar a cada narrativa um tom apropriado, adequando forma e conteúdo, pelo seu vocabulário riquíssimo e balizado por pesquisas e observações pessoais, Nélson de Araújo foi saudado pela editora carioca como um dos membros da “tríade dos grandes autores baianos de ficção no momento”, junto com Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro.

Só que ele era sergipano e nunca negou suas origens, como bem lembra Jorge Amado, que não se arrisca a classificá-lo de romancista baiano. Outra diferença em relação aos dois baianos está na quantidade de leitores que consomem seus livros. Nélson de Araújo, conforme costumava dizer, era o autor “menos vendido do Brasil”.

Arte de fazer bonequinhos andar na mente

Nélson de Araújo julgava que o drama era secundário na sua experiência literária. Ainda assim produziu pelo menos um texto que lhe agradava, “A Companhia das Índias”, cuja primeira publicação, em 1959, pela editora Progresso, foi vista “com olhos de excessiva generosidade pelo meu bom amigo Glauber Rocha”, segundo observava (a história começou a ser escrita em Aracaju em 1956). Efetivamente, o texto inspirou Glauber e disso deixou o cineasta documento escrito e a confirmação em “Terra em Transe”.

“A Companhia das Índias” foi encenada algumas vezes, inclusive sob a direção do cineasta baiano Orlando Senna, tendo como assistente de direção Deolindo Checcucci, no Teatro Castro Alves em 1998. Em 2024, aconteceu uma leitura do texto no Teatro Vila Velha, com atuação de Ítala Nandi, dentre outros atores.

Ele trabalhou em jornais e iniciou-se na redação de A Tarde como tradutor de telegramas. Nélson de Araújo também adaptou e traduziu grande número de textos para o teatro. Dentre as traduções, gostava de Macbeth, de Shakepeare. Quatro de suas melhores criações para o teatro foram reunidas num opúsculo editado pela Empresa Gráfica da Bahia em 1990: além de “A Companhia das Índias”, o ato único “Joana Angélica”, a adaptação de um conto dele próprio, “Um homem maduro para a morte”, e a história de “A guerra de Magali em São Jorge dos Ilhéus”, fundamentada num fato real ocorrido em 1907, quando nove homens, em uniformes do exército norte-americano, tentaram ocupar à mão armada a cidade de Ilhéus.

“Pequenos Mundos – Um panorama da cultura popular da Bahia”, Tomo I a III, é obra de referência definitiva sobre manifestações dramáticas da cultura popular e aponta o divórcio entre o moderno teatro do Brasil e as raízes populares. Mas a obra de maior fôlego e paciência de Nélson de Araújo é a rigorosa “História do Teatro” (1ª edição: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978; 2ª edição: Empresa Gráfica da Bahia, 1980), biografia básica em todas as universidades brasileiras.

Embora preferisse a ficção, Nélson de Araújo considerava romance/novela/conto e drama uma só coisa. “A essência é a mesma. Todos são subgêneros de um gênero maior, que é a arte de elaborar o episódio. Noutros termos: a arte de fazer bonequinhos andar na mente humana, seja através do desenho nos livros, no caso do romance, novela ou conto, seja através do desenho ao vivo de atores sobre o palco, no caso do teatro”.

Nélson de Araújo morreu pobre, morando numa rua muito íngreme, a Ladeira do Pepino, com vista para o Dique do Tororó, no dia 7 de abril de 1993. O corpo do mestre foi velado no palco da Escola de Teatro da UFBA, cercado dos muitos colegas, amigos e familiares baianos e sergipanos, dos cinco filhos e das três ex-mulheres. Dentre outras homenagens, em 1982 recebeu o Troféu Martim Gonçalves como prêmio pelo conjunto de suas obras sobre teatro. Em 1985, recebeu o título de Cidadão da Cidade do Salvador, concedido pela Câmara Municipal. Como última homenagem, a Biblioteca da Escola de Teatro ostenta o seu nome.

Bibliografia de Nélson  de Araújo

1 – “Um acidente na estrada e outras histórias”, Livraria Progresso Editora, 1957.

2 – “A Companhia das Índias”, Livraria Progresso Editora, 1959.

3 – “Panorama do conto baiano” (com Vasconcelos Maia), Livraria Progresso Editora, 1959.

4 – “Rosarosae, rosaerosa”, selo editorial O Vice-Rey, anos 1970.

5 – “Auto do Tempo e da Fé”, selo editorial O Vice-Rey, anos 1970.

6 – “Uma Casa em Seu Nome se Ergueu”, selo editorial O Vice-Rey, nas comemorações do tricentenário da Arquidiocese da Bahia, anos 1970.

7 – “Alguns Aspectos do Teatro no Brasil nos séculos XVIII e XIX”, Centro Editorial e Didático da UFBA, 1977.

8 – “História do Teatro”, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978.

9 – “Duas Formas de Teatro Popular do Recôncavo Baiano”, Centro Editorial e Didático da UFBA, 1979.

10 – “O Baile Pastoril na Bahia”, Centro Editorial e Didático da UFBA, 1979.

11 – “História do Teatro” (2ª edição revista, ampliada e atualizada até 1980), Empresa Gráfica da Bahia, 1980.

12 – “Entre Melpômene e Clio” (artigos e ensaios), Edições O Vice-Rey, 1982.

13 – “O Teatro do Pobre – Notas de Cultura Popular” (pesquisa-ensaio), Edições O Vice-Rey, 1982.

14 – “Três Novelas do Povo Baiano” (reunindo três textos lançados separadamente pela Edições O Vice-Rey: “O Império do Divino visto pelos olhos de Pisa-Mansinho”; “Vida, paixão e morte republicana de Don Ramón Fernández y Fernández” e “Aventuras de um caçador de arcas em terras, mar e sonho”), Editora Ianamá, 1987.

15 – “Pequenos Mundos – Um panorama da cultura popular da Bahia”, UFBA/Casa de Jorge Amado, três tomos: 1986, 1988 e 1996 (esse último, obra póstuma).

16 – “Folclore e Política”, UFBA/Ianamá, 1988.

17 – “Quatro textos para encenação”, Empresa Gráfica da Bahia, 1990.

18 – “A história de duas famílias”, Edições O Vice-Rey/Dismel, 1990.

19 – “A Santa Inquisição na Bahia e Outras Histórias” (reunião de quatro novelas do Recôncavo e de Salvador), Editora Nova Fronteira, 1991.

20 – “Oliveira dos Campinhos, passado e presente de um arraial do Recôncavo”, Editora UFBA, 1992.

21 – “O Amor Amargo de Belira e Roque”, Editora UFBA, 1992.

22 – “Editoração, ato de amor ao livro”, palestra de Nélson  de Araújo no I Encontro de Editoração da Bahia, em 1990, que integra o projeto Conversa de Editor, do Instituto Baiano do Livro, 1997.

23 – “Os Sinos do Pilar” (novela), Editora UFBA, 1999.

(Palestra proferida no auditório do Colégio Imaculada Conceição durante a Roda de Conversa “Semeadores da Cultura”, promovida pela Academia Capelense de Letras, em 29 de maio de 2026. No mesmo evento, o juiz de direito Anselmo Oliveira falou sobre os 110 anos de Manoel Cabral Machado, “primo” de Nélson de Araújo.)

*Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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