Após perder pra Lula, parece que Flávio Bolsonaro endoideceu
29 de outubro de 2026
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Nada é impossível para Lula

Por Marcos Cardoso*

Nunca antes na história deste país um presidente foi tão amado e tão odiado. Mas nunca antes na história o povo escolheu a mesma pessoa quatro vezes para governar o Brasil. E nunca um presidente foi eleito com mais de 64 milhões de votos – mais de 75% desses votos, quase meio a meio, saíram do Nordeste e do Sudeste.

Nunca um candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar conseguiu reverter o resultado e vencer a disputa no segundo turno. Nem um homem tão velho tinha vencido eleição para presidente da República – Lula, que acaba de fazer 81 anos, já tinha batido esse recorde na eleição de 2022.

E nunca no mais importante pleito nacional um homem tinha conseguido derrotar o pai, o filho e o espírito fascista.

A hipérbole “nunca antes na história deste país”, figura de linguagem do exagero, expressão de caráter absoluto, é o slogan do cara que torna possível tudo o que para a absoluta maioria seria impossível. Para Lula, desde que o menino saiu faminto do sertão nordestino, nada é impossível. Sobreviveu à seca, sobreviveu a 13 dias de viagem num pau-de-arara, superou as necessidades de uma mãe que criou sozinha oito filhos na periferia de Santos.

Viúvo duas vezes, continua amando. Depois de ter vencido o câncer, esbanja vitalidade e saúde.

Torneiro mecânico formado pelo Senai, trabalhou duro, perdeu um dedo, mas foi a melhor coisa que aconteceu na sua vida, ter feito o curso técnico, segundo ele próprio diz, porque passou a ter uma profissão. E tornou-se sindicalista.

Que inteligência emocional, que poder de magnetismo possuía aquele barbudo de 33 anos para, sobre um palco improvisado, ser ovacionado por milhares de metalúrgicos durante a greve que paralisou São Bernardo do Campo no 1º de maio de 1979, em plena ditadura militar?

Em 1980, por seu papel de liderança, Lula foi detido por 31 dias nas instalações do temível Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), sob a acusação de violar a Lei de Segurança Nacional. Sobreviveu.

Em fevereiro daquele ano, já havia anunciado publicamente a criação do Partido dos Trabalhadores, que unia o novo sindicalismo surgido das greves do ABC a militantes de esquerda, movimentos populares, intelectuais, artistas, estudantes e comunidades eclesiais de base da Igreja Católica. Em agosto de 1980, discursou: “O PT é uma coisa muito prática […] Estamos precisando de um instrumento, uma ferramenta, para abrir espaço pra participação política do trabalhador. E o PT é isso.”

Foi deputado federal que assinou a Constituição de 1988 e votou a favor do direito de greve, da reforma agrária, do aumento real do salário mínimo, da licença-paternidade, da nacionalização do petróleo, da redução para 40h da jornada de trabalho e da manutenção do presidencialismo como sistema de governo.

Com o lema “Sem Medo de Ser Feliz”, chegou ao segundo turno e conquistou cerca de 31 milhões de votos na primeira eleição presidencial direta após a ditadura militar, em 1989, consolidando-se como uma das principais lideranças políticas nacionais.

Perdeu outras duas eleições presidenciais, em 1994 e 1998, para Fernando Henrique Cardoso, para finalmente consagrar-se em 2002. A partir daí, aquele menino de origem muito pobre e que só estudou até o ensino médio, firmou-se como a principal personalidade política do Brasil no século 21. Não estará errado aquele que colocar Luiz Inácio Lula da Silva como um dos três principais personagens da história política do Brasil, ao lado de Dom Pedro II e Getúlio Vargas.

Dom Pedro II deixou como legado a estabilidade política, a modernização do país e a valorização da ciência, da cultura e da educação. Seu reinado de quase 50 anos (1840–1889) consolidou a unidade territorial do Brasil e transformou o país em uma das nações mais desenvolvidas da América do Sul no século XIX.

Ditador de 1937 a 1945 e democraticamente eleito em 1954, Getúlio Vargas marcou a transição do Brasil de uma economia agrária para uma nação urbana e industrial, deixando bases institucionais e sociais profundas. Foi o “pai dos pobres” que criou a CLT, instituindo direitos como a jornada de 8 horas, férias remuneradas, salário mínimo e a carteira de trabalho. Promoveu o desenvolvimento de indústrias de base por meio de empresas estatais, como a Companhia Siderúrgica Nacional, a Companhia Vale do Rio Doce e a Petrobras. Instituiu o Código Eleitoral de 1932, que criou a Justiça Eleitoral, o voto secreto e o voto feminino, e fundou órgãos estratégicos, como o IBGE, o BNDES e o Ministério da Saúde.

O legado de Lula é conciliar o sucesso do combate à pobreza com o crescimento do Brasil, algo que sempre se considerou impossível. Com a criação e expansão de marcos como o Bolsa Família, o Fome Zero, escolas em tempo integral e pé de meia, garantiu segurança alimentar e por duas vezes retirou o Brasil do Mapa da Fome. Investiu fortemente em educação e infraestrutura, com a criação de institutos federais, expansão de universidades, hospitais universitários, Minha Casa Minha Vida, Prouni, Novo PAC e grandes obras de infraestrutura hídrica, como a transposição do Rio São Francisco.

Lula tem reconhecimento internacional, o Brasil ganhou projeção diplomática, acúmulo de reservas cambiais e inserção em indicadores globais de desenvolvimento humano. É um dos fundadores do BRICS, ao lado de Rússia, Índia e China, secundado pela África do Sul e depois outros países, e arguto defensor do Mercosul, ambos blocos hoje considerados importantes no comércio e na geopolítica mundial.

Após a recente reeleição, o jornal americano The New York Times o destacou como estadista mais influente da América Latina.

Como nada acontece por acaso na vida de Lula, mal saiu do triunfo histórico e não pode baixar a guarda, porque os inimigos do norte planejam nova tentativa de golpe. Dessa vez orientado por um fanfarrão topetudo que se autoproclama imperador do mundo e que usa como inocente útil um grã-fino derrotado que não aceita ser perdedor.

O filhote do golpista condenado se acha líder, mas, na verdade, quase 60 milhões de brasileiros votaram contra Lula. Por mais que a ciência social e política expliquem, é difícil compreender que um pobre vote contra quem traçou como objetivo de vida defendê-lo. Mas, na democracia, a maioria tem sempre razão. Mesmo quando parece impossível.

*Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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