
Por Marcos Cardoso*
Ninguém é obrigado a gostar de Lula e muitos não gostam, mas é impossível não admitir o talento para a renovação que esse homem possui. O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. Já diria o autor de um livro essencial para conhecer o Brasil. 
Ao contrário de demonstrar debilidade, fraqueza, enfezamento, que são sinônimos de raquitismo, Lula vive em constante estado de recomeço. A sua raiz nos cafundós nordestinos deve ajudar a explicar tamanho poder de superação. O cara é, antes de tudo, um forte.
Ter sido bafejado pelos mesmos ares que respiraram João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Luiz Gonzaga e Alceu Valença também deve ajudar. Nasceu paupérrimo, passou fome e sobreviveu para superar as dificuldades enfrentadas por um emigrante em São Paulo.
Foi preso na ditadura por liderar greves de metalúrgicos do ABC Paulista e ameaçar o regime. Perdeu três eleições presidenciais seguidas. Um juiz parcial o prendeu por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, por causa de um sítio e um apartamento que nem lhe pertenciam, quando ele ameaçava conquistar o terceiro mandato presidencial já em 2018.
O neto morreu enquanto estava preso na PF de Curitiba, ficou viúvo duas vezes, sobreviveu a um câncer. Lula se reinventa.
Foi o que ele fez nesta semana, se reinventou. Depois de levar duas surras homéricas no Congresso Nacional. Em derrota histórica, o plenário do Senado Federal rejeitou na quarta-feira, 29 de abril, a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, com 42 votos contrários e 34 favoráveis. Foi a primeira vez desde 1894 que o Senado rejeitou um indicado ao STF.
No dia seguinte, o Congresso derrubou seu veto ao Projeto de Lei da dosimetria. Com isso, Bolsonaro poderia antecipar a progressão de regime. Iria para o semiaberto apenas em setembro de 2033, mas o tempo de reclusão cairia para três anos e três meses, podendo ir à rua já no final do próximo ano. O texto também beneficiaria 179 presos ligados aos atos golpistas.
Parênteses: em decisão proferida neste sábado, 9, o ministro Alexandre de Moraes suspendeu a aplicação da Lei da Dosimetria enquanto ações que questionam a constitucionalidade da norma não forem julgadas pelo STF. E pede que Planalto e Congresso se manifestem antes.
Pronto, era o fim de Lula, comemoraram os apressados. “É o fim do governo”, gritaram. “O fim do jogo: o Lula 3 já acabou”, “o encantador de serpentes perdeu o seu brilho”, escreveram. “Lula 3 está politicamente liquidado”, grunhiram. Não conhecem ou fingem que não conhecem o cara.
Aí veio o temerário beija-mão ao todo-poderoso Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca. Pois qual o quê? Antes da visita que bolsonaristas apostavam que jamais aconteceria, trocaram um telefonema encerrado com um romântico “I love you” pronunciado pelo laranjão.
No encontro propriamente dito, na quinta-feira, 7, o presidente brasileiro foi recebido efusivamente pelo mandatário estadunidense, com direito a tapete vermelho na porta principal da sede do governo em Washington. Fotos e vídeos daquele momento já mostravam que o acontecido no Brasil tinha perdido importância.
A reunião de trabalho que deveria durar 30 minutos estendeu-se por mais de três horas, a portas fechadas e com direito a almoço. E nada de conceder entrevista coletiva antes do meeting, a pedido do próprio Lula. Não teriam o que falar antes de conversarem. E, ao final, para surpresa de todos, Trump deu-se por satisfeito e não se encontrou com os jornalistas.
Lula concedeu entrevista coletiva na Embaixada do Brasil e afirmou que discutiu com Trump temas como a parceria entre os dois países, terras raras, a reforma do Conselho de Segurança da ONU, a situação em Cuba e a guerra no Irã. Ao posarem para foto, o aconselhou a sorrir: “Trump rindo é melhor do que de cara feia”.
Nas redes sociais, Trump já tinha chamado Lula de “um bom homem” e de “um cara inteligente” e confirmado que o encontro foi “muito bom”. Também o definiu como o muito dinâmico presidente do Brasil. “Discutimos tudo com o presidente do Brasil, discutimos tudo. Tivemos uma reunião muito boa. Temos uma relação muito boa com ele e com o Brasil. Discutimos tudo, incluindo tarifas”, informou no dia seguinte.
Trump é um experiente negociador e percebeu que ameaças não vão funcionar com Lula, um líder no jogo da geopolítica mundial atual. Melhor resolver na base do diálogo as diferenças e voltar às boas relações com o presidente da segunda mais importante nação do hemisfério ocidental. O Brasil é peça de destaque num bloco comercial cada vez mais respeitado, o Mercosul, e um dos quatro pilares de sustentação do Brics, junto com a China, Rússia e Índia, países que hoje definem o equilíbrio de poder no mundo.
Quem apostou no Lula derrotado quando viajou, perdeu. Ele voltou maior do que saiu do Brasil. E, pelo apurado após o sucesso do tour, ele tinha plena certeza disso. Só Lula mesmo. Vai ser autoconfiante assim na China!
*Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com
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