
Por Carlos Hermínio de Aguiar Oliveira*
Após minha participação como articulista do livro Ele por Eles, dedicado à trajetória de João Alves Filho, senti a necessidade de retornar ao território e refletir sobre uma obra que representa uma visão estratégica de futuro: a Barragem de Xingó.
Ao longo de mais de 46 anos de atuação profissional acompanhando projetos de desenvolvimento regional, aprendi que grandes obras públicas devem ser avaliadas não apenas pelo momento de sua implantação, mas pela capacidade de responder aos desafios futuros dos territórios.
Recentemente, realizei uma inspeção técnica na Barragem de Xingó, buscando observar suas estruturas e refletir sobre o potencial hídrico ainda disponível para o desenvolvimento do sertão sergipano.
Essa história remonta ao meu retorno do Mestrado em Montpellier, na França, em 1989, quando já se evidenciava a necessidade de ampliar o aproveitamento múltiplo das águas do São Francisco, além da geração de energia elétrica.
Ao retornar ao Brasil, verifiquei que a obra de Xingó avançava sem a previsão de tomadas d’água destinadas à irrigação. A partir dessa constatação, elaboramos um documento técnico encaminhado ao governador João Alves Filho, que compreendeu a importância estratégica da proposta e, com apoio do secretário da Agricultura Edmilson Machado de Almeida, articulou junto à Chesf a incorporação dessas estruturas.
Como resultado dessa decisão, foram implantadas na ombreira direita da Barragem de Xingó duas tomadas d’água, cada uma com capacidade de 10 m³/s, totalizando 20 m³/s ou 20 mil litros por segundo.

Barragem de Xingó e as tomadas d’água destinadas ao aproveitamento múltiplo das águas do São Francisco
Durante a visita técnica, ficou evidente a dimensão daquela decisão. Apesar de discretas diante da monumentalidade da barragem, as tomadas d’água representam uma reserva estratégica de engenharia preparada para diferentes usos da água.
A reflexão que emerge é que o semiárido não pode pensar apenas em novas obras, mas também no pleno aproveitamento do patrimônio hidráulico já construído.
Nesse contexto, destaca-se a experiência do Canal do Sertão Alagoano, um grande eixo hídrico projetado para aproximadamente 200 quilômetros até a região de Arapiraca, com vazão prevista de 33 m³/s. Durante nossa visita, já estavam implantados cerca de 123 quilômetros de canais, concebidos para atender múltiplos usos da água.
A experiência alagoana demonstra como uma infraestrutura hídrica estruturante pode induzir novas atividades produtivas e transformar territórios.
Sergipe também discutiu alternativas estratégicas associadas ao aproveitamento das águas do São Francisco no eixo de Xingó, incluindo concepções vinculadas à integração hídrica a partir da região de Paulo Afonso.
No âmbito das iniciativas recentes do Novo PAC, o Governo de Sergipe apresentou como prioridade a Adutora do Leite, importante empreendimento voltado ao fortalecimento da cadeia produtiva leiteira, com vazão estimada em aproximadamente 600 litros por segundo.
Trata-se de uma iniciativa relevante para o setor produtivo estadual. Entretanto, toda infraestrutura hídrica deve ser analisada dentro de uma visão estratégica de longo prazo.
Com investimento estimado em aproximadamente R$ 1 milhão por litro por segundo de vazão disponibilizada, a Adutora do Leite envolve desafios técnicos importantes, especialmente pela necessidade de cinco estações elevatórias e pelos custos permanentes de energia associados ao sistema de recalque.
Essa reflexão não representa uma contraposição ao projeto, mas a necessidade de ampliar a visão sobre o futuro hídrico de Sergipe.
As boas práticas de planejamento de recursos hídricos no Brasil e no mundo demonstram que grandes projetos devem ser concebidos a partir do princípio dos usos múltiplos da água, permitindo atender de forma integrada ao abastecimento humano, irrigação, produção, segurança hídrica e desenvolvimento territorial.
Essa concepção amplia a eficiência dos investimentos públicos e transforma a água em elemento estruturador do desenvolvimento.
Nesse contexto, as tomadas d’água de Xingó assumem importância estratégica. Com capacidade instalada de 20 m³/s, foram concebidas para o aproveitamento múltiplo das águas do São Francisco. Diante das projeções da DESO, que indicam uma necessidade adicional de aproximadamente 8,5 m³/s até 2050, torna-se essencial uma estratégia integrada para o futuro hídrico de Sergipe. 
Nesse debate, destacam-se o Projeto Jacaré-Curituba, cuja trajetória está ligada à mobilização de Frei Enoque em defesa dos agricultores assentados, e o Projeto Manoel Dionísio, com projeto executivo pronto, com aproximadamente 2.400 hectares, como ativos territoriais capazes de ampliar a produção agrícola e gerar oportunidades econômicas.
Frei Enoque representa o legado de que a água deve promover produção e justiça social. Sua trajetória certamente não ficaria indiferente diante do cenário atual, em que a modernização do Projeto Califórnia foi contemplada no contexto da Adutora do Leite, enquanto o Jacaré-Curituba permanece aguardando uma solução compatível com sua importância histórica e territorial.
Essa reflexão ganha ainda mais relevância quando se observa que a vazão prevista da Adutora do Leite corresponde a cerca de 3% da capacidade instalada nas tomadas d’água de Xingó, reforçando o desafio de planejar um aproveitamento mais amplo e integrado das águas do São Francisco.
João Alves Filho deixou como legado uma visão fundamental: a engenharia pública deve preparar caminhos para o desenvolvimento. Ele construiu a infraestrutura; cabe às gerações atuais transformar essa capacidade instalada em uma estratégia territorial capaz de beneficiar os múltiplos usos e usuários da água.
As águas de Xingó foram pensadas no passado, mas continuam apontando caminhos para o futuro: desenvolvimento econômico, segurança hídrica e inclusão social para o território sergipano.
*Pós-doutorando da UECE, PhD em Geografia, Mestre em Desenvolvimento Rural, Conselheiro representante do empregados no Conselho de Administração da Codevasf.
O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.