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Flávio acusa, Allan ofende: fé, ódio e a guerra contra a CNBB

Por Péricles Andrade*

Uma câmera ligada. Um homem diante da tela. A voz sobe, os gestos se tornam agressivos e um bispo católico deixa de ser interlocutor para se transformar em alvo. Allan dos Santos,  blogueiro e ativista político brasileiro de ultradireita, fundador do extinto portal de notícias Terça Livre e aliado de Flávio Bolsonaro, dispara palavrões, insultos homofóbicos e referências de teor sexual contra Dom Vicente de Paula Ferreira, bispo de Livramento de Nossa Senhora, na Bahia. Chama-o de “besta fera”, ataca outros bispos e recupera uma antiga declaração de Jair Bolsonaro contra a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Na tela, surge ainda uma expressão que resume o tom do vídeo: “Cloaca de Satanás, mentiroso e maldito”. O episódio foi registrado por Laura Jordão, do Diário do Centro do Mundo, em 30 de setembro, e por Letícia Passos, do Correio Braziliense, em 1º de outubro de 2026 (Jordão, 2026; Passos, 2026).

A cena é pesada. Mas o mais importante não está apenas na violência das palavras. Está no caminho que as produziu. Poucos dias antes, Flávio Bolsonaro havia colocado a CNBB no centro de uma acusação eleitoral. Em 27 de setembro, acusou integrantes da CNBB de ajudar o PT a disseminar uma informação que classificou como “a maior fake news da campanha”. A entidade negou envolvimento e afirmou não integrar estruturas político-partidárias (CNBB, 2026). O caso chegou ao TSE, que, em 30 de setembro, manteve a remoção de conteúdos que apresentavam a informação como fato, distinguindo-a de críticas, opiniões e sátiras (Agência Brasil, 2026).

Mais do que uma disputa sobre a veracidade de uma informação eleitoral, o episódio expôs uma disputa por autoridade e legitimidade. Ao colocar a CNBB no centro do conflito, a controvérsia deslocou-se para o terreno da representação religiosa: quem tem legitimidade para falar em nome da fé e, sobretudo, quem pode ser definido como seu adversário? É nesse deslocamento que a disputa institucional começa a adquirir contornos de guerra cultural.

É nesse ponto que aparece Allan dos Santos. Seu vídeo não acrescenta evidências sobre a suposta atuação da CNBB, mas desloca o conflito para o ataque pessoal. Em resposta a uma manifestação de Dom Vicente, publicada em 28 de setembro, na qual o bispo criticava as declarações de Flávio Bolsonaro e retomava ataques anteriores de Jair Bolsonaro à entidade, Allan chamou-o de “besta fera”, afirmou que a CNBB seria a “parte podre da Igreja Católica” e dirigiu ao bispo e a outros religiosos insultos homofóbicos e de teor sexual (Jordão, 2026; Passos, 2026).

]A passagem é significativa porque o ataque cumpre uma função política: desloca o debate da verificação dos fatos para a deslegitimação do adversário. Dom Vicente deixa de ser tratado como interlocutor com uma posição divergente e passa a ser construído como inimigo. A hostilidade, nesse registro, não apenas expressa rejeição; ela reforça fronteiras entre “nós” e “eles”, mobiliza pertencimentos e reduz o espaço para que o adversário seja reconhecido como legítimo.

São formas distintas de confronto. Flávio Bolsonaro dirige uma acusação de natureza política e institucional à CNBB, atribuindo a integrantes da entidade uma suposta atuação em favor do PT. Allan dos Santos abandona esse registro e parte para o ataque pessoal. Não há elementos públicos suficientes para afirmar que tenham atuado de forma coordenada. Há, porém, uma sequência discursiva que merece atenção: a passagem da acusação à deslegitimação e, desta, ao insulto.

Essa sequência ajuda a compreender uma característica mais ampla da política contemporânea. O ódio não precisa ser visto apenas como explosão irracional ou excesso de linguagem. Ele pode funcionar como mecanismo de construção de identidades políticas, produção de pertencimentos e definição de fronteiras, articulando a produção do inimigo, a militarização da política, o fundamentalismo religioso e o papel das redes sociais na reorganização das direitas brasileiras (Gallego, 2018). A construção de um “inimigo interno” pode sustentar uma política fundada na lógica da ameaça e da exceção, na qual quem sustenta posições diferentes deixa de ser percebido como parte legítima da vida pública e passa a representar um perigo à ordem, à segurança ou aos valores considerados legítimos (Teles, 2018). Esse processo se relaciona às transformações políticas e sociais que contribuíram para a consolidação das direitas contemporâneas e para a formação de um ambiente de crescente polarização, marcado por disputas em torno de valores, identidades e visões de mundo (Casimiro, 2020).

É nesse ambiente que a guerra cultural ganha força. A disputa política assume uma dimensão moral, com questões relacionadas à família, à fé, à pátria e aos costumes ocupando lugar central na definição das fronteiras políticas. A oposição entre “nós” e “eles” faz com que posições divergentes sejam apresentadas não como parte da pluralidade democrática, mas como ameaça, desvio ou traição. Vale ressaltar que a democracia não elimina as diferenças, mas exige que elas sejam disputadas entre posições que reconheçam mutuamente sua legitimidade. O problema surge quando a divergência deixa de ser política e o outro passa a ser colocado fora do espaço legítimo do dissenso (Mouffe,2005).

O problema, portanto, não é a religião participar da política. Cidadãos de diferentes crenças têm pleno direito de defender valores, participar de eleições e disputar os rumos do país. Igrejas e organizações religiosas também podem se manifestar sobre questões sociais e políticas. O problema surge quando a fé passa a funcionar como fronteira de pertencimento e transforma a divergência política em julgamento moral sobre quem pertence ou não ao campo dos legítimos.

Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar especialmente sensível nesse processo. Por seu significado religioso e nacional, sua imagem possui forte dimensão simbólica. Associar um candidato à suposta intenção de retirar seu título significa deslocar a disputa eleitoral para um terreno afetivo no qual a pergunta deixa de ser apenas “isso aconteceu?” e pode se transformar em outra: “de que lado você está?”.

Essa transformação merece atenção. Uma afirmação factual pode ser desmentida ou comprovada. Já uma narrativa construída em torno do medo, da fé e da identidade mobiliza sentimentos mais profundos. O eleitor deixa de ser convocado apenas a avaliar propostas e passa a ser interpelado como católico, patriota, conservador, cidadão de bem ou integrante de um grupo ameaçado.

Isso ajuda a explicar por que os símbolos religiosos ocupam lugar tão importante nas disputas eleitorais contemporâneas. Eles condensam memória, identidade, pertencimento e afetos. Quando incorporados à disputa política, podem ampliar a capacidade de mobilização, mas também podem transformar uma divergência sobre propostas em um julgamento sobre a fidelidade religiosa dos indivíduos.

Essa apropriação, entretanto, não representa todos os católicos. O catolicismo brasileiro é plural. A CNBB não fala automaticamente em nome de todos os fiéis, assim como Flávio Bolsonaro não representa todos os católicos que compartilham posições conservadoras. Allan dos Santos, igualmente, não pode ser tomado como porta-voz do bolsonarismo em sua totalidade.

Essa pluralidade recoloca perguntas importantes: quem pode dizer o que é ser católico? Quem pode determinar quais posições políticas são compatíveis com o cristianismo? Quem pode declarar que determinado bispo, padre ou fiel está do lado errado da religião?

As redes digitais tornam esse processo ainda mais rápido. Uma acusação pode ser recortada, compartilhada e reinterpretada em poucas horas. A indignação circula antes da explicação, e a imagem do adversário pode se consolidar antes que os fatos sejam examinados. O ambiente digital não cria sozinho a lógica do conflito, mas amplia sua velocidade, alcance e capacidade de mobilização.

É nesse ponto que a contribuição de Gallego (2018) se torna especialmente útil. Pensar o ódio como política não significa afirmar que toda linguagem agressiva seja resultado de uma estratégia deliberada ou que exista coordenação entre todos os atores envolvidos. Significa reconhecer que determinadas formas de hostilidade podem cumprir uma função política: produzir pertencimento, organizar lealdades, simplificar conflitos e estabelecer fronteiras entre aqueles que devem ser reconhecidos como parte do “nós” e aqueles apresentados como ameaça.

O termo inimigo oferece, nessa perspectiva, uma explicação simples para conflitos complexos. Se há uma ameaça, torna-se mais fácil justificar a mobilização permanente. Se há um grupo responsável pelo perigo, a identidade coletiva se fortalece contra ele. Se o conflito é apresentado como uma batalha entre o bem e o mal, a negociação pode ser interpretada como fraqueza e a divergência como cumplicidade.

A religião acrescenta uma dimensão particularmente poderosa a esse mecanismo. Quando uma disputa política é apresentada como defesa da fé, o adversário pode ser deslocado do campo da política para o campo do pecado, da traição ou da ameaça espiritual. A divergência deixa de ser apenas uma diferença de opinião e passa a ser interpretada como ataque ao sagrado.

O episódio envolvendo a CNBB ilustra esse movimento em escala concreta. Uma controvérsia sobre uma informação eleitoral produziu uma acusação institucional; a acusação abriu espaço para uma disputa sobre legitimidade religiosa; e essa disputa terminou, ao menos nessa etapa, em ataques pessoais contra bispos. Não se trata de afirmar uma coordenação entre os atores, mas de observar como diferentes discursos podem convergir para um mesmo efeito: reduzir o espaço de reconhecimento do adversário.

Flávio Bolsonaro colocou a CNBB no centro de uma acusação política. Dom Vicente reagiu. Allan dos Santos radicalizou o confronto no terreno do ataque pessoal. São episódios diferentes, protagonizados por atores distintos, mas que ajudam a compreender uma mesma transformação: a disputa política pode deixar de ser uma competição entre posições para se converter em uma batalha pela definição de quem pertence ao campo legítimo da comunidade.

Nesse cenário, o maior risco não está apenas no insulto. Está na normalização da lógica que o torna possível. Quando a desqualificação do adversário passa a ser percebida como prova de fidelidade ao próprio grupo, o debate público perde uma de suas condições básicas: a existência de um outro que, embora discordante, continua sendo reconhecido como parte da comunidade política.

A democracia não exige consenso. Exige conflito com regras, divergência com reconhecimento e disputa sem a eliminação simbólica do outro. Como lembra Mouffe (2005), o desafio democrático consiste em transformar o antagonismo em agonismo: reconhecer o conflito sem converter o adversário em inimigo absoluto.

No fim, a questão ultrapassa Flávio Bolsonaro, Allan dos Santos e a própria CNBB. Ela diz respeito ao tipo de espaço público que está sendo construído em uma eleição marcada pela circulação acelerada de acusações, símbolos religiosos e identidades políticas. Quando o adversário é convertido em inimigo, a divergência deixa de ser parte da democracia e passa a ser tratada como problema a ser eliminado.

É nesse ponto que o ódio deixa de ser apenas uma palavra forte para descrever a linguagem política. Ele pode funcionar como uma tecnologia de mobilização: produz medo, organiza pertencimentos, simplifica conflitos e estabelece quem merece confiança e quem deve ser rejeitado. A análise das direitas contemporâneas feita por Gallego (2018) e Casimiro (2020), combinada à reflexão sobre o inimigo e a exceção de Teles (2018), ajuda a compreender como a política pode ser reorganizada pela fabricação permanente de ameaças.

Quando a fé é incorporada a esse mecanismo, o conflito ganha uma dimensão ainda mais sensível. Discordar do adversário pode passar a ser apresentado como defender ou ameaçar o próprio sagrado. A disputa eleitoral deixa, então, de convocar apenas cidadãos que avaliam projetos diferentes e passa a convocar comunidades morais em permanente estado de alerta.

A pergunta final, portanto, não é apenas quem falou mais alto, quem acusou primeiro ou quem insultou depois. É outra, mais profunda: o que acontece com uma democracia quando a disputa política já não precisa convencer o adversário, mas apenas convencer seus próprios seguidores de que o outro é uma ameaça?

É nesse momento que a política corre o risco de deixar de ser disputa entre diferentes para se transformar em guerra contra o diferente. E, quando a religião entra nessa guerra, o problema deixa de ser apenas eleitoral. Passa a envolver a própria capacidade de uma sociedade plural conviver com diferentes maneiras de crer, pensar e participar da vida pública.

*Professor Titular da UFS periclesdcs@academico.ufs.br.

Referências

AGÊNCIA BRASIL. TSE forma maioria para manter retirada de posts sobre Nossa Senhora. Brasília, 30 set. 2026.

CASIMIRO, Flavio Henrique Calheiros. A tragédia e a farsa: a ascensão das direitas no Brasil contemporâneo. 1. ed. São Paulo: Expressão Popular; Fundação Rosa Luxemburgo, 2020.

CNBB. Assessoria de Comunicação da CNBB publica “Nota de Esclarecimento” sobre informações falsas envolvendo o nome da instituição. Portal CNBB, 27 set. 2026.

GALLEGO, Esther Solano (org.). O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2018.

JORDÃO, Laura. Vídeo: foragido, Allan dos Santos chama bispos de “filhos da p*” e ataca CNBB. Diário do Centro do Mundo, 30 set. 2026.

MOUFFE, Chantal. Por um modelo agonístico de democracia. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, n. 25, p. 11-19, nov. 2005. DOI: 10.5380/rsp.v25i0.7071. Disponível em: Revista de Sociologia e Política. Acesso em: 13 ago. 2025.

PASSOS, Letícia. Foragido, Allan dos Santos ataca bispos da CNBB. Correio Braziliense, 1 out. 2026.

TELES, Edson. A produção do inimigo e a insistência do Brasil violento e de exceção. In: GALLEGO, Esther Solano (org.). O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2018.

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

 

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