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Dos Montes Hermínios ao São Francisco: o Atlântico como ponte das nossas águas

Por Carlos Herminio de Aguiar Oliveira*

Hoje, em 20 de abril, ao completar 69 anos de vida, celebro também o coroamento de uma jornada profissional que teve início em 1980, nas margens do Rio São Francisco, em Penedo, Alagoas. Foi ali que fui contratado para trabalhar na implantação das obras do Perímetro Irrigado de Betume, no Baixo São Francisco Sergipano. Cresci como um profissional que dedica a carreira à engenharia e à gestão do Rio São Francisco na Codevasf. Nessa empresa, fui superintendente regional em Sergipe por 10 anos e atuo, com muito orgulho, como Conselheiro de Administração, tendo sido eleito pelos empregados em três mandatos consecutivos. Toda essa dedicação e trajetória no “Velho Chico” me renderam a imensa honra de ser agraciado com a Medalha Toinho Pescador, oferecida pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco.

Essa trajetória prática sempre caminhou lado a lado com a busca acadêmica. Com mestrado em Desenvolvimento Rural em Montpellier e Doutorado em Geografia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) com estágio em Toulouse, na França, sigo hoje abraçando o meu programa de Pós-Doutorado na Universidade Estadual do Ceará (UECE).

No último 6 de abril, ao iniciar meu estágio de pós-doutorado no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, a convite do meu supervisor Giovanni Allegretti, não imaginava que a geografia me reservaria um reencontro tão profundo com minhas próprias raízes. E para que essa vinda a Coimbra se concretizasse, tenho que agradecer à atual administração da Codevasf pelo fundamental apoio a este projeto.

Como profissional que dedica a carreira à engenharia e à gestão do Rio São Francisco na Codevasf, o olhar técnico sobre as águas é um hábito. No entanto, ao caminhar pelas margens do Rio Mondego, o maior rio inteiramente português, a ciência deu lugar à ancestralidade.

A primeira grande surpresa revela-se na gênese das águas. O Mondego nasce no local conhecido como Mondeguinho, a 1.525 metros de altitude, em plena Serra da Estrela. Para o mundo, é um dado cartográfico; para mim, é um resgate familiar. Historicamente, este maciço era denominado pelos romanos como Montes Herminius — os Montes Hermínios. Esta coincidência geográfica toca diretamente o coração da minha história: sou filho de Maria Hermínia, que recebeu este nome em homenagem à sua avó, também Maria Hermínia, filha do português Francisco Valentim da Silva, que se radicou em Sergipe. Vindo eu de uma família de 14 filhos, onde somos quatro Hermínios e dez Hermínias, ver o principal rio de Portugal brotar de terras que carregam meu nome e a memória de meus antepassados confere a esta missão um caráter de destino.

A simetria geográfica não para na toponímia. Enquanto o nosso “Velho Chico” nasce na Serra da Canastra, a 1.200 metros de altitude, e percorre cerca de 2.800 km até o Atlântico, o Mondego faz um percurso de 258 km, mas com importância estratégica equivalente para Portugal. Ambos são rios da unidade e da identidade nacional, artérias que interiorizaram o desenvolvimento e hoje sustentam perímetros de irrigação vitais, garantindo a segurança hídrica e a produção agrícola em suas regiões. Um dado que impressiona o olhar do geógrafo é a conexão oceânica. Visualizo uma linha imaginária saindo da nascente do Mondego nos Montes Hermínios e chegando diretamente à foz do Rio São Francisco, entre Sergipe e Alagoas, separadas por uma distância geodésica de aproximadamente 6.150 quilômetros pelo mesmo Oceano Atlântico.

Essa vasta extensão azul aproxima os desafios de engenharia que enfrentamos no Nordeste brasileiro das práticas de gestão do Baixo Mondego. Trabalhar na foz do São Francisco envolve lidar com uma escala colossal, mas a lógica da água é universal. Em Coimbra, o rio torna-se largo e calmo, espelhando as planícies aluviais brasileiras e exigindo o mesmo rigor na gestão dos usos múltiplos.

Este período em Coimbra, portanto, transcende a minha pesquisa sobre governança e conselho de empresas estatais. É uma jornada de reconhecimento que une a solidez da pesquisa brasileira na UECE à tradição europeia. Ao olhar para o Mondego, vejo o reflexo do meu trabalho no Brasil e o eco da história de Francisco Valentim e de Maria Hermínia. Do “Velho Chico” aos “Hermínios” da Serra da Estrela, sigo aprendendo que a água é o fio condutor que une trajetórias, histórias e nações.

*Engenheiro Civil, Dr. em Geografia (UFS), Conselheiro de Administração da Codevasf e Pós-Doutorando pela UECE em estágio no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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1 Comment

  1. ADELINO COSTA LISBOA LISBOA disse:

    Parabens gd guerreiro. Muitos anos de vida com saude e paz! Muito sucesso em suas realizacoes….

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