
Por Péricles Andrade*
Foi realizada na noite de 5 de agosto de 2026, no Centro de Convenções AM Malls, localizado na Avenida Tancredo Neves, em Aracaju, a convenção partidária que oficializou a candidatura de Fábio Mitidieri (PSD) à reeleição para o Governo de Sergipe e confirmou Jeferson Andrade (PSD) como candidato a vice-governador. O encontro também formalizou o apoio à candidatura de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Estive presente na convenção como pesquisador das ciências humanas e militante filiado ao Partido dos Trabalhadores. Essa posição situada não representa um obstáculo à análise científica, desde que acompanhada de reflexividade e rigor metodológico. A proximidade com o campo pesquisado permite observar não apenas os discursos oficiais e as estruturas formais do evento, mas também as relações sociais, os símbolos, as negociações e os sentidos atribuídos pelos próprios atores envolvidos.
A escolha desse acontecimento como objeto de análise relaciona-se à compreensão de que eventos políticos não são apenas momentos eleitorais formais, mas espaços nos quais se expressam disputas, alianças, estratégias e representações coletivas. Como observa Max Weber (1864-1920), a definição dos objetos de pesquisa nas ciências sociais está relacionada aos valores e interesses que orientam o olhar do pesquisador. Nesse sentido, minha inserção política contribui para a construção do problema de pesquisa, mas não substitui o compromisso com a análise crítica. Por outro lado, a perspectiva de Peter Berger (1929-2017) sobre o desafio de “viajar em casa” ajuda a compreender essa relação entre proximidade e distanciamento analítico. Transformar uma realidade da qual também participo em objeto de investigação exige reconhecer minha posição dentro do campo observado e, simultaneamente, desenvolver instrumentos capazes de interpretar suas contradições, disputas e significados sociais.
Ao chegar ao local da convenção, uma característica chamou imediatamente a atenção: a diversidade visual presente no espaço. Embora predominasse o azul, associado ao grupo político responsável pela organização do evento, diferentes cores partidárias estavam representadas, como o vermelho, o laranja, o roxo, o rosa e o amarelo. Essa composição cromática expressava a presença de diferentes identidades políticas, trajetórias partidárias e grupos sociais reunidos em torno de uma mesma construção eleitoral.
Mais do que um elemento estético, a diversidade das cores funcionava como uma representação simbólica da própria aliança política em formação. A convenção produzia uma imagem pública de unidade entre atores com histórias, interesses e posições distintas, revelando aquilo que Pierre Bourdieu (1930-2002) denomina de poder simbólico: a capacidade de produzir representações socialmente reconhecidas e transformar uma determinada configuração de forças em uma imagem legítima de organização e consenso.
A convenção reuniu militantes, dirigentes partidários e lideranças com trajetórias políticas distintas, incluindo representantes de grupos que, em momentos anteriores, estiveram em campos opostos da disputa eleitoral sergipana. O evento consolidou uma ampla coalizão formada pelo PSD, pela Federação União Progressistas (União Brasil e PP), pela Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV), pelo PSB e pela Federação Renovação Solidária (PRD e Solidariedade). A composição também formalizou o apoio às candidaturas de Rogério Carvalho (PT) e André Moura (União Brasil) para as duas vagas ao Senado, configurando um dos principais movimentos de articulação política do processo eleitoral sergipano de 2026. Mais do que uma simples reunião de partidos, a convenção revelou uma estratégia de construção de maiorias baseada na aproximação entre diferentes forças políticas e na capacidade de acomodar interesses diversos dentro de um mesmo projeto eleitoral.
A presença simultânea de grupos com trajetórias ideológicas distintas demonstra que a política estadual não pode ser compreendida apenas a partir das divisões estabelecidas pelo debate político nacional. Embora a polarização entre diferentes projetos políticos continue estruturando parte significativa da vida pública brasileira, os espaços regionais apresentam dinâmicas próprias, nas quais alianças são construídas a partir de circunstâncias históricas, relações territoriais, interesses institucionais e estratégias eleitorais específicas.
O caso sergipano expressa uma característica recorrente da política brasileira contemporânea: a coexistência entre estratégias nacionais dos partidos e arranjos políticos construídos a partir das realidades estaduais. A chapa liderada por Fábio Mitidieri reuniu, no mesmo espaço político, a Federação Brasil da Esperança, vinculada ao campo do presidente Lula, e a Federação União Progressistas, formada por partidos com trajetórias distintas na disputa nacional e estadual. Essa composição não representa uma convergência automática entre os projetos nacionais das legendas, especialmente considerando que o PSD adotou estratégia própria na disputa presidencial, com candidatura do partido ao Palácio do Planalto. O caso evidencia que as alianças eleitorais brasileiras são construídas não apenas por afinidades ideológicas, mas também por negociações regionais, interesses institucionais e estratégias de formação de coalizões.
Esse fenômeno não deve ser interpretado apenas como ausência de coerência programática ou como simples pragmatismo eleitoral. A formação de alianças amplas constitui uma característica recorrente dos sistemas democráticos, especialmente em contextos marcados pela fragmentação partidária. A necessidade de construir consensos entre diferentes atores políticos faz parte do funcionamento das democracias representativas, nas quais governos frequentemente dependem da capacidade de negociação e cooperação entre grupos diversos.
Nesse sentido, a convenção de Aracaju permite observar uma dimensão importante da democracia brasileira: a convivência entre divergência e cooperação. A existência de diferenças entre partidos e lideranças não impede necessariamente a construção de compromissos comuns; ao contrário, a democracia depende justamente da capacidade institucional de transformar conflitos políticos em processos legítimos de negociação.
A experiência observada em Sergipe permite ampliar a reflexão para um desafio central das democracias contemporâneas: como preservar a pluralidade política em sociedades marcadas por conflitos intensos e crescente polarização. Essas não eliminam divergências; elas criam mecanismos para que diferentes interesses possam disputar espaço dentro de regras compartilhadas. A construção de alianças entre grupos distintos não significa ausência de conflitos ou uniformidade de posições, mas demonstra a existência de procedimentos institucionais capazes de organizar diferenças e produzir decisões coletivas.
Nesse aspecto, a convenção sergipana pode ser compreendida como uma manifestação concreta da capacidade das instituições democráticas de promover acordos entre atores diversos. A aliança construída naquele espaço não elimina as trajetórias políticas específicas de cada grupo envolvido, mas estabelece uma arena comum de cooperação em torno de objetivos eleitorais e institucionais.
Essa característica torna-se ainda mais relevante diante do crescimento de discursos que apresentam a política democrática como um espaço permanentemente marcado pela corrupção, pela ineficiência ou pela incapacidade de responder às demandas sociais. Em diferentes contextos, movimentos e lideranças antidemocráticas exploram essas insatisfações para questionar instituições, enfraquecer mecanismos de representação e defender soluções baseadas na concentração de poder.
O desafio democrático, portanto, não consiste apenas em impedir ameaças externas ao regime, mas também em fortalecer suas próprias capacidades de representação, participação e resolução de conflitos. Uma democracia estável não é aquela em que inexistem disputas, mas aquela em que adversários políticos reconhecem a legitimidade uns dos outros e aceitam os procedimentos institucionais como caminho para resolver divergências.
A discussão sobre alianças políticas e negociação institucional em Sergipe está inserida em um contexto mais amplo de crise da democracia liberal no século XXI. Em diferentes países, instituições democráticas têm enfrentado desafios relacionados ao aumento da desconfiança social, ao enfraquecimento dos partidos tradicionais, à expansão de discursos antissistema e à emergência de lideranças que utilizam mecanismos eleitorais para questionar os próprios fundamentos do regime democrático.
As interpretações sobre essa crise apontam para diferentes dimensões do problema. Por um lado, há o crescimento de movimentos e discursos autoritários que rejeitam o pluralismo, relativizam instituições e apresentam soluções políticas baseadas na exclusão de adversários. Por outro, existem limitações internas dos sistemas representativos, como dificuldades de ampliar a participação social, responder às desigualdades e reconstruir vínculos de confiança entre cidadãos e instituições.
No Brasil, essas tensões assumem características próprias. A fragmentação partidária, a personalização das disputas eleitorais e as dificuldades de representação programática contribuem para uma relação mais instável entre sociedade e sistema político. O modelo eleitoral de lista aberta, ao favorecer disputas centradas em indivíduos, reduz a centralidade dos partidos enquanto organizações coletivas e pode enfraquecer mecanismos de responsabilização política.
Esse processo ganhou maior visibilidade a partir das manifestações de 2013, quando críticas ao funcionamento do sistema político passaram a ocupar posição central no debate público. As mobilizações expressaram demandas diversas e, posteriormente, abriram espaço para diferentes interpretações sobre a relação entre cidadãos, instituições e representação política. Com a expansão das redes sociais, novas formas de comunicação política passaram a reduzir a importância dos mediadores tradicionais e fortalecer relações mais diretas entre lideranças e eleitores. Esse ambiente favoreceu discursos que apresentavam partidos, instituições e mecanismos tradicionais de representação como obstáculos à renovação política.
A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 pelo PSL expressou parte dessas transformações. Sua campanha combinou forte personalização da liderança, crítica às instituições políticas tradicionais e mobilização de setores sociais insatisfeitos com o sistema político. O fenômeno evidenciou um dilema presente em diversas democracias contemporâneas: atores podem alcançar o poder por meio de eleições e, posteriormente, colocar em questionamento instituições e regras que garantem a própria competição democrática.
É nesse cenário que a experiência sergipana adquire relevância analítica. A convenção em análise não representa uma superação das divergências políticas existentes, tampouco elimina conflitos entre diferentes projetos de sociedade. Seu significado está justamente na demonstração de que, mesmo em ambientes marcados por polarização, permanecem possíveis mecanismos institucionais de negociação entre forças distintas.
A composição política observada em Sergipe revela que a democracia depende não apenas da existência de eleições periódicas, mas também da capacidade dos atores políticos de construir acordos, reconhecer a legitimidade dos diferentes grupos e manter canais de diálogo. A estabilidade democrática exige instituições capazes de organizar conflitos sem transformar adversários em inimigos permanentes.
A convenção partidária realizada em Aracaju em agosto de 2026 ultrapassa a dimensão de um evento eleitoral específico. Sua relevância está na possibilidade de compreender, a partir de um caso concreto, algumas características centrais da política brasileira contemporânea: a formação de coalizões amplas, a convivência entre diferenças ideológicas e a necessidade permanente de negociação dentro das instituições democráticas.
A imagem da convenção multicolorida sintetiza essa realidade. As diferentes cores presentes no espaço representavam trajetórias políticas diversas, interesses distintos e identidades partidárias próprias, mas também expressavam a construção de uma unidade circunstancial em torno de objetivos comuns. A pluralidade visual do evento tornou-se uma representação simbólica da própria dinâmica democrática: diferentes sujeitos disputam, negociam e estabelecem compromissos sem necessariamente abandonar suas diferenças.
Minha presença na convenção, como pesquisador das ciências humanas e militante político, evidencia uma condição situada de observação. Essa posição exige reflexividade e responsabilidade analítica, pois compreender um fenômeno político do qual também participo implica reconhecer tanto os vínculos existentes quanto a necessidade de manter a capacidade crítica. A participação política não elimina a possibilidade de análise; ao contrário, pode ampliar a compreensão sobre práticas, valores e disputas presentes no campo político.
A experiência sergipana demonstra que a democracia não se fortalece pela eliminação dos conflitos, mas pela criação de mecanismos capazes de organizá-los institucionalmente. O desafio democrático consiste em preservar o pluralismo, garantir a participação e construir formas legítimas de convivência entre diferentes projetos políticos.
*Professor Titular da Universidade Federal de Sergipe. E-mail: periclesdcs@academico.ufs.br
Referências:
BERGER, Peter L. Perspectivas sociológicas: uma visão humanística. Tradução de Donaldson M. Garschagen. Petrópolis: Vozes, 1986.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
BURITY, Joanildo. A onda conservadora na política brasileira. Texto apresentado no Fórum Penses: “Conservadorismos, Fascismos, Fundamentalismos”. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 30 ago. 2016.
CASIMIRO, Flávio Henrique Calheiros. A nova direita no Brasil: aparelhos de ação político-ideológica e atualização das estratégias de dominação burguesa (1980-2014). 2016. Tese (Doutorado em História Social) – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2016.
FREITAS, Felipe Corral de. A crise da democracia liberal e a exclusão do antagonismo da política. Sociologias, Porto Alegre, v. 27, p. 1-34, 2025.
GALLEGO, Esther Solano (org.). O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2018.
RICHTER, João Antonio Cardoso. A crise na democracia liberal e o sistema eleitoral brasileiro. 2023. 107 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Araraquara, 2023.
RODRIGUES, Theófilo Machado; BELLATO, Caíque. A crise da democracia liberal no início do século XXI: duas abordagens da teoria política. Agenda Política, São Carlos, v. 9, n. 1, p. 253-279, jan./abr. 2021.
WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. Tradução de Leonidas Hegenberg e Octany Silveira da Mota. São Paulo: Cultrix, 2011.
O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.