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De Saco Torto a Estrela Dalva: a trajetória do cangaceiro Volta Seca (1918-1997)

Prof. Francisco José Alves (Departamento de História-UFS)

fjalves@infonet.com.br

Há exatos 100 anos, aos 13 de março de 1918, nascia em Saco Torto, então povoado da vila de Itabaiana, Antônio dos Santos. Onze anos depois, ingressa no bando de Lampião e dele recebe a alcunha de “Volta Seca”. Surge, assim, o cangaceiro menino, destacado por sua violência e crueldade. Vejamos algumas datas da trajetória desse famigerado sergipano. 

1918 -13 de março: Nasce em Saco Torto (atual povoado de Malhador-se) Antônio dos Santos, sexto filho de Manuel Antônio dos Santos e Herminia Maria.

1927: Aos nove anos, Antônio dos Santos foge da casa do pai em Saco Torto e Perambula pelo interior de Sergipe. Fixa-se em Simão Dias-Se. Por este tempo vive de vender doces ou de carregar água. A fuga de casa, conforme Antônio dos Santos, deveu-se a uma briga entre ele e sua madrasta que maltratava sua irmãs.

1927: Antônio dos Santos comete o seu primeiro homicídio. Assassina, em Macambira- Sergipe, Miguel Lago por haver este abusado de uma irmã de Antônio.

1929: Antônio dos Santos, com onze anos, ingressa no bando de Lampião. O fato ocorre no Povoado Guloso (hoje Novo Triunfo-Bahia), onde Antônio fazia pequenos serviços. Lampião lhe dá a alcunha de “Volta Seca.”.

Participa, como cangaceiro, do seu primeiro embate com a polícia. O episódio ocorre em Mirandela-Bahia. Nele, o cangaceiro menino, a conselho de Lampião, sangra um soldado ferido: “Ande cá, muleque. Fura aqui este ‘macaco’, pra tu te acostumar” – teria dito Lampião.

1929 – 25 de novembro: Com Lampião e outros cangaceiros, invade Capela-Se. Os bandidos passam na cidade cerca de 12 horas.

1929 – 22 de dezembro: Então “favorito” de Lampião, participa da chacina de “sete praças da força pública” de Queimadas-Ba. O fato choca profundamente a opinião pública nacional exigindo reação.

1931: Após se desentender com Lampião, Volta Seca deixa o bando e passa a perambular pela Bahia.

1932 – 19 de fevereiro: Então em Bonfim-Ba, é preso por populares e enviado para a penitenciária de Salvador.

1932 – março: Detido na penitenciária de Salvador-Bahia, é examinado pelo médico legista Arthur Ramos (1903-1949). O legista define o criminoso como produto de fatores externos e psíquicos. Invoca a psicanálise de Sigmund Freud e a criminologia para explicar o adolescente cangaceiro.

Em Salvador, é submetido a um “exame radiológico especial” para dirimir a sua verdadeira idade. O evento – diz uma notícia da época – “provocou a curiosidade de grande massa popular”.

É entrevistado pelo jornal carioca O Malho. Posa para fotografia simulando a leitura do jornal. O jornalista escreve que o cangaceiro “é doido pelas figurinhas de “O Tico Tico” e possui “alma infantil”.

1932 – setembro: O jornal carioca O Globo noticia que Volta Seca esta “gravemente enfermo”. O diagnóstico é “uma gripe intestinal”. O médico do presídio, todavia, declara que o bandido está fora de perigo.

1932 – dezembro: Da casa de detenção de Salvador- Bahia, é enviado para Bonfim-Ba onde responde pelo primeiro delito.

1936 – 20 de novembro: Após cumprir pena de 4 anos na cadeia pública de Bonfim-Ba, é reconduzido para a penitenciária do Estado da Bahia, em Salvador-Ba.

1937: Toma conhecimento do romance de Jorge Amado (1912-2001), Capitães da Areia, no qual o ex-cangaceiro é retratado como reles menor bandido. O retrato muito o desagrada e ele “promete” fazer o romancista “engolir” as páginas do jornal nas quais o romancista fazia declarações sobre o assunto.

1938 – agosto: Após sete anos de prisão, revela ao repórter de O Radical, do Rio de Janeiro, que na cadeia aprendeu a ler e escrever e também o ofício de alfaiate.

1944: Volta Seca com Manuel Porfírio fogem da penitenciária de Salvador.

1944 – fevereiro: Fugitivos, Volta Seca e Manoel Porfírio assaltam casas de lavradores em São Sebastião de Catu – Bahia.

Se deslocando a pé, chegam até a cidade de Santa Luzia, em Sergipe, distante 244 km de Salvador, após 20 dias de viagem.

1944 –fevereiro: No Rio de Janeiro, Arthur Ramos relembra o seu contato com Volta Seca 12 anos atrás (1932). Diz o médico: “Acompanhei os primeiros tempos de Volta Seca na penitenciária do Estado. Sempre o mesmo menino dócil, inteligente e apto a aceitar qualquer aprendizagem”.

1944 – novembro: Após ser recapturado, Volta Seca e mais outros cinco ex-cangaceiros presos na penitenciária de Salvador, concedem longo depoimento ao jornalista sergipano Joel Silveira (1918-2007).  Na ocasião, ele posa para o fotógrafo de O Cruzeiro, José Brito e pede: “Quero ser fotografado na janela olhando para fora, com a cara triste”.

1946 – 18 de agosto: Foge pela segunda vez da penitenciária da Bahia.

1948 – 7 de abril: Declara à imprensa que Maria Bonita estava viva e que se encontrara com ela numa de suas fugas.

11 de abril: O capitão João Bezerra (1898-1970), chefe da operação de Angicos (Poço Redondo-Se), desmente a declaração de Volta Seca que Maria Bonita não fora morta junto com outros bandoleiros. Diz o militar: “Não atino porque Volta Seca vem agora [dez anos depois] com essa invencionice”.

1951: Indultado por Getúlio Vargas sai da casa de detenção de Salvador – Bahia onde cumprira 20 anos de pena.

1952 – 20 de novembro: Imprensa Nacional noticia o assassinato de Volta Seca. O crime teria ocorrido em Bom Jesus da Lapa-Bahia. Volta Seca, então visitando Aracaju, diz-se surpreso com a falsa notícia.

1952: Colabora com o cineasta Lima Barreto na feitura do filme O Cangaceiro, produzido pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz, de São Paulo. O filme tinha roteiro de Lima Barreto e Rachel de Queiroz.

Obs: Volta Seca não consta na ficha técnica do filme.

1953: Muda-se para o Rio de Janeiro a convite de um Jornal. Desassistido e sem emprego, o ex-cangaceiro enfrenta dificuldades. Auxiliado por alguns jornalistas Volta Seca busca “emprego honesto”. Faltam-lhe, no entanto, documentos.

1954 – Janeiro: No Rio de Janeiro e desempregado, Volta Seca se desilude com a cidade. A mulher está doente. Pensa em voltar para o nordeste onde, segundo ele, “os corações não são de pedra”. A esperança de um lugarzinho ao sol parece remota para o ex-cangaceiro.

1956: É admitido na Rede Ferroviária Federal na função de “guarda trilhos”.

1957: Lança, pela gravadora Todamérica do Rio de Janeiro, o long play Cantigas de Lampião.

1958 – novembro: Concede ao jornalista Bruno Gomes longo depoimento que é publicado pelo O Globo, do Rio de Janeiro. Trata-se da mais longa entrevista concedida por ele e a mais rica em episódios da sua trajetória até então.

1969 – julho: Volta Seca e Dadá (Sérgia da Silva Chagas) participam do programa “O advogado do diabo” do jornalista Leopoldo Heitor.

Dadá faz veemente defesa de Lampião considerando o bandido “um verdadeiro santo”. Dadá ainda nega que Volta Seca seja o autor de “Maria Bonita”. Para ela, o ex-cangaceiro fez mera adaptação de peças já existentes.

1969 – 25 de outubro: Volta Seca conhece Expedita Ferreira Messias, filha de Lampião e Maria Bonita. Expedita vem ao Rio para o lançamento do livro Táticas de Guerra dos Cangaceiros, de Cristina Mata Machado. Além de Volta Seca e Expedita, dois outros ex-cangaceiros faziam parte da comitiva: “Labareda” e “Criança”.

1971: Conhece Isaura dos Santos com quem irá casar.

1973 – setembro-outubro: Concede longa entrevista ao famoso jornal “alternativo” O Pasquim, do Rio de Janeiro. Na entrevista, faz um histórico de sua vida.

1982: Volta Seca e família mudam-se para Estrela Dalva-Mg, pequena cidade da zona da mata de MG.

1995 – agosto: Concede entrevista ao jornalista Luiz Carlos Lourenço, do Globo-Rio. O ex-cangaceiro, diz a reportagem, “vive modestamente numa cazinha do centro da cidade”. Ganha uma aposentadoria de 300 reais e mais alguns trocados dos direitos autorais (musicais). Naquele momento, o seu sonho é comprar um fusquinha usado. A sua diversão é a pesca e a briga de galos.

1996 – abril: Grava depoimento em vídeo para o Museu da Imagem e do Som – RJ. O vídeo foi financiado pelo comerciante José Ribeiro Farace, amigo do ex-cangaceiro.

1997 – 2 de fevereiro: Vítima de um enfisema pulmonar aos 78 anos, falece Volta Seca em Estrela Dalva-MG.

Fontes:

História de Volta Seca. O Pasquim, Rio de Janeiro, n. 221, set-out de 1973.

Nonnato Masson. Fui cabra de Lampião. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 de julho de 1962, p.18. Volta Secca fala sobre o cangaço. O Radical, Rio de Janeiro, 3 de agosto de 1938, p. 3.

Ranulfo Prata. Lampião. São Paulo: Traço Editora, 1980. p. 87 (1ª edição de 1934).

O Banditismo no nordeste. Diário Carioca, Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 1932, p. 1.

Felipe de Castro. A derrocada do cangaço. 2ed. Salvador: Assembleia Legislativa, 2008, p. 74.

A prisão de Volta Seca. A Tarde, Salvador, 1 de maio de 1932, p. 1).

Nonnato Masson. Fui cabra de Lampião [Depoimento de Volta Seca] Jornal do

Brasil, Rio de Janeiro, 18 de julho de 1962, p. 18.

Volta Seca (…). Entrevistado… O Malho, Rio de Janeiro, 28 de maio de 1932, p. 29).

Diário Carioca, Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 1932, p. 2).

Volta Seca foi condenado a 30 anos de prisão. Diário da Noite, Rio de Janeiro, 20 de novembro de 1936, p.2.

Volta Seca está doente na prisão. O Globo, Rio de Janeiro, 23 de setembro de 1932, p. 4.

Arthur Ramos. Perfil Antropológico de Volta Secca. A Noite, Rio de Janeiro, 22 de março de 1932, p. 2.

Reduzindo o Bando de Lampião. O Globo, Rio de Janeiro, 13 de maio de 1932, p. 4.

Volta Seca já fazia até flores e tricô. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17 de fevereiro de 1944, p. 8.

Joel Silveira. A mesa redonda dos cangaceiros. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1944, p. 40-41.

Volta Seca retorna ao cangaço. O Globo, Rio de Janeiro, 23 de fevereiro de 1944, p.6.

Volta Seca – um enigma para a psicanálise. O Globo, Rio de Janeiro, 29 de fevereiro de 1944, p.7.

Maria Bonita ainda vive? O Globo, Rio de Janeiro, 7 de abril de 1948, p. 7.

Maria Bonita morreu mesmo. O Globo, Rio de Janeiro, 12 de abril de 1948, p. 3.

Fuga sensacional de Volta Seca. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 1946, p. 8.

Volta Seca fugiu de novo. O Globo, Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 1946, p. 6.

História de Volta Seca. O Pasquim, Rio de Janeiro, n. 221, set-out de 1973.

Volta Seca será solto. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 25 de março de 1952, p. 1.

Em liberdade o ex-cangaceiro Volta Seca. O Globo, Rio de Janeiro, 4 de abril de 1952, p. 7.

História de Volta Seca. O Pasquim, Rio de Janeiro, n. 221, set-out de 1973.

O cangaceiro. Em: Dicionário do cinema brasileiro. São Paulo: Martins Fontes, 2013, p. 263.

Volta Seca surpreso com sua morte. O Globo, Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1952, p. 7.

Volta Seca quer emprego. Lavoura e Comércio, Uberlândia – MG, 4 de dezembro de 1953, p.1.

Nonnato Masson. Fui cabra de Lampião. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 de julho de 1962, p.18.

Lavoura e Comércio, Uberlândia-MG, 26 de janeiro de 1954, p. 1.

Ex-cangaceiro espera vencer como compositor. Diário da Noite, Rio de Janeiro, 7 de julho de 1971, p. 15.

Volta Seca. Cantigas de Lampião. Rio de Janeiro: Todamérica, 1957.

Dadá defende Lampião. Diário da Noite, Rio de Janeiro, 22 de julho de 1969, p.2.

Bruno Gomes. Volta Seca, O Globo, Rio de Janeiro, 3 a 29 de novembro de 1958.

Aziz Filho. O legado do cabra que desafiou Lampião. O Globo, Rio de Janeiro, 2 de novembro de 1997, p.16.

Aziz Filho. O legado do cabra que desafiou Lampião. O Globo, Rio de Janeiro, 2 de novembro de 1997, p.16.

História de Volta Seca. O Pasquim, Rio de Janeiro, n. 221, set-out de 1973.

Aziz Filho. O legado do cabra que desafiou Lampião. O Globo, Rio de Janeiro, 2 de novembro de 1997, p.16.

Luiz Carlos Lourenço. Ex-cangaceiro sonha em comprar fusca. O Globo, Rio de Janeiro, 6 de agosto de 1995, p. 17.

Aziz Filho. O legado do cabra que desafiou Lampião. O Globo, Rio de Janeiro, 2 de novembro de 1997, p.16.

Volta Sêca recebe no Rio a filha de seu Chefe Lampião. Diário da Manhã, Rio de Janeiro, 26-27 de outubro de 1969, p. 7.

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