
Por Gilfrancisco*
Quando li pela primeira vez “A República ‘comunista’ cristã dos Guaranis”, do padre dominicano Clovis Logan, 3ª edição, tradução de Álvaro Cabral, 1977, fiquei muito impressionado pela organização social dos Povos das Missões: produção comunitária que garantia o fundo comum, a reserva para necessidades futuras, gastos públicos, alimentação aos inválidos, órfãos e viúvas, além da produção excedente destinada à comercialização. Mas este fascínio é anterior à leitura do livro de Clóvis, veio através das imagens do documentário “7 Povos das Missões”, dirigido por Renato Neumann, exibido em 1975, na V Jornada Brasileira de Curta Metragem (BA). A planta da redução de Trindad, no Paraguai, possuía: igreja, colégio, horta, casa de índio, igreja nova, campanário, igreja, cemitério e sete casas de índio. Li mais uma vez e fiquei intrigado em busca das razões pelas quais Karl Marx (1818-1883) não ter dedicado um trabalho sobre essa experiência socialista no Novo Continente, apesar de conhecimento por intermédio do genro (casado com a filho Laura). O cubano Paul Lafargue (1842-1911), um dos líderes do Partido dos Trabalhadores Franceses, que apesar de precipitado na abordagem, em vez de renovar o assunto no sentido marxista, contentou-se em salientar a tese das colônias anti-jesuitas. Em 1978 estive em Caxias do Sul participando da XII Jornada Nacional de Cineclube, mas antes de seguir para Argentina, permaneci em Porto Alegre por alguns dias, juntamente com Luiz Orlando, na residência do jornalista amigo Francisco Ribeiro, irmão do também jornalista Cleomar Brandi, e segui em frente para conhecer as reduções jesuíticas no município de São Miguel das Missões, próximo à Uruguaiana, fronteira com Paso de Los Libres, onde eu deveria tomar o trem rumo à Buenos Aires.
O padre e historiador suíço Clovis Lugon (1907-1991), autor desse estudo sobre as Missões Jesuíticas da América Latina, experiência jesuítica-guarani, lançado em Paris no ano de 1949, dividida em quatro partes, abordando a história dos Guaranis antes da chegada dos jesuítas; situação e aspecto das reduções; o trabalho agrícola e os ataques do Mundo Colonial. No Brasil, “A República (comunista) cristã dos Guaranis” foi publicada no Brasil em 1968, pela Editora Paz e Terra, com abas de Edison Carneiro, onde afirma que “o Evangelho e o bacamarte se aliaram para preservar, como um exemplo para o futuro, a Utopia cristã – a primeira tentativa de organização racional da sociedade na América”. A República dos Guaranis é a mais completa obra sobre um dos mais controvertidos e importantes períodos da história latino-americana.
Hoje, Padre, entra nessa casa comigo.
Vou mostrar-te as cartas, o tormento
de meu povo, do homem perseguido.
Vou mostrar-te as dores antigas.
E para não tombar, para firmar-me
sobre a terra, continuar lutando,
deixa em meu coração o vinho errante
e o pão implacável de tua doçura.
(Pablo Neruda, in Canto Geral)
Quando chegaram ao Novo Mundo, a primeira coisa que Cristóvão Colombo (1492) e Pedro Álvares Cabral (1500) fizeram foi erguer uma cruz. Com esse gesto, eles tomaram posse do continente descoberto e justificavam a conquista política e espiritual da nova terra. Alguns padres espanhóis, como Juan de Sepúlveda e Juan Lopes Rubios, acreditavam que a civilização europeia era superior às sociedades indígenas, por isso defendiam a escravização dos índios. Outros intelectuais e padres espanhóis, porém, criticavam esse modo de pensar e condenavam os métodos dos conquistadores. Basta ler O Paraíso Destruído (a sangrenta história da conquista da América Espanhola), escrito pelo Frei dominicano espanhol Bartolomé de Las Casas (1474-1566), em 2ª edição, 2001. Bartolomé foi um dos que mais se destacaram na luta a favor dos nativos, defendia a liberdade e os direitos dos índios e pregava uma evangelização sem violência e exploração. Por sua iniciativa, já em 1517 foi fundada na Venezuela a primeira redução de índios livres.
O frei dominicano tomou a defesa dos índios nas obras que endereçou a Fernando de Aragão e a Carlos V, notadamente a Brevisima relacion de La destryción de lãs Indias, 1542. Foi um dos fundadores da “Novas Leis” que preparavam a extinção da escravidão indígena, mas essa medida filantrópica favoreceu indiretamente o tráfico negreiro, já que causou a falta de outra mão-de-obra.
Tratado de Tordesilhas
Acordo firmado entre Portugal e Espanha (1494), que delimitava a posse de terras na América após a primeira viagem de Colombo. O tratado alterou a bula do papa Alexandre VI (1493) que atribuía a Espanha as terras descobertas ou ainda por descobrir, situadas a O de um meridiano imaginário fixada a100 léguas das ilhas de Cabo Verde e Açores Portugal sentiu-se prejudicado, pois dessa forma a América passaria a pertencer à Espanha, e assim procurou reformular as disposições a bula. D. João III chegou a preparar uma esquadra para defender os interesses portugueses, mas os reis espanhóis Fernando e Isabel, aceitaram discutir uma solução pacífica.
Reduções
Em 1534, o nobre Inácio de Loyola fundou na Espanha uma ordem religiosa chamada Companhia de Jesus. Organizada d forma militar, atuava como um verdadeiro exército de Cristo. Os padres da ordem chamados de jesuítas eram como soldados a serviço do papa. Sua tarefa era difundir a fé católica, combater os protestantes e apoiar a aliança entre os reis ibéricos e a Igreja. Na época colonial, a igreja pretendia converter os nativos à fé católica e elevá-los da sociedade tribal para uma forma de sociedade moderna. Para isso, reunia os índios em aldeamentos, que tinham igrejas ou capelas de madeiras ou taipa.
O primeiro grupo de jesuítas chegou à América em 1549, chefiado pelo padre Manuel da Nóbrega, que veio na esquadra do primeiro governador do Brasil, Tomé de Souza. Ao aporta em Salvador, os soldados de Cristo traziam a missão de conquistar a alma dos colonos e dos índios, para convertê-los ao catolicismo, aperfeiçoaram seus métodos; além da pregação religiosa, passaram a adotar também a educação para, ao mesmo tempo, escolarizar e cristianizar os índios.
Socialismo primitivo
O socialismo visa transformar a organização social segundo um objetivo de justiça entre os homens no plano do trabalho da remuneração, da educação, da moradia. O termo socialismo existe desde o século XVIII, começou a ser frequentemente empregado na França e na Grã-Bretanha por volta de 1830. Por volta de 1848, com a publicação do Manifesto Comunista, Marx e Engels a designação socialista aplicava-se aos sistemas filosóficos idealistas globais que tinham como traço comum preconizar um sistema social que respeitasse o indivíduo. Este termo começou a opor-se a comunista, que designava uma teoria cujo ideal era suprimir as classes sociais e tornar os homens iguais. O termo comunista era então mais aplicado a teóricos como Cabet e, depois, Marx. Para este último, o socialismo designava uma fase da evolução histórica.
As Missões dos sete povos
A princípio lutaram os jesuítas com as maiores dificuldades na manutenção de estâncias para as reduções. No apogeu, calcula-se que os Povos mantinham em suas estâncias cerca de um milhão de cabeças de gado no Tape o fato que mais pesou na decisão dos missionários, quando assentaram em 1686.
Com o fim do domínio espanhol em 1640, as missões jesuíticas de Paraguai, da Argentina e do Rio Grande do Sul – os chamados Trinta Povos das Missões – passaram a ter uma nova e importante função. Por ordem do rei, tinham de proteger a fronteira do território espanhol contra os portugueses.
Em 1750 foi assinado o Tratado de Madri, entre Portugal e Espanha que abolia o Tratado de Tordesilhas, dividiu as colônias americanas entre monarquias ibéricas, com base do domínio efetivo dos territórios e não no meridiano imaginário fixado antes do descobrimento.
Formação cultural e artística
A experiência de integração cultural posta em prática pelos jesuítas tendeu a desenvolver as capacidades intrínsecas ao indígena no plano artístico. O desenvolvimento das formas musicais de ano e dança, assim como a execução de instrumentos, encheu de admiração a quantos tiveram oportunidade de escutar e vê tais conjuntos. A capacidade inata dos Guaranis para o desenho, a pintura e a escultura, que se expressava, segundo testemunho dos jesuítas, em uma rara habilidade pra copiar e imitar as estampas, gravuras ou modelos que lhe eram apresentadas. O conjunto de imagens conservado em alguns povoados missioneiros (Paraguai, e o Museu de São Miguel, no Brasil) evidencia o importantíssimo volume das obras realizadas nas oficinas artesanais. Além de fabricarem rendas, tapetes, sinos, relógios, clarinetas, trombetas e imprimirem livros sagrados.
Conflito
O conflito tem início na Tratado de Madri que fixou novo limite na região do Rio do Prata. Por ele, a Espanha cedia a Portugal sete povoados missionários situados à outra margem do Uruguai em troca da Colônia do Sacramento, fundada pelos portugueses em 1680, pois os índios Guaranis não aceitaram que fossem segregados do conjunto dos três povoados, – abandonar suas terras, moradias, plantações e rebanhos, passaram a depender do poder dos portugueses, que identificavam com seus tradicionais inimigos, os bandeirantes.
Apesar da valentia dos Guaranis, à perícia dos soldados profissionais e tecnologia do armamento9 dos exércitos espanhol e português acabou por derrota-los, com grande mortandade entre os índios. As fortificações não resistiam aos tiros de canhões e os combatentes não tinham como enfrentar a carga de lanceiros. Contudo, o protesto levou a Espanha e deixar sem efeito o Tratado em 1761.
Ideologia
Rende-te ou morres,
Grita o governador, e o tape altivo,
Sem responder, encurva o arco e a flecha
Despede, e nela lhe prepara a morte.
Enganou-se desta vez! A seta um pouco
Declina, e açoita o rosto a leva pluma;
Não quis deixar o vencimento incerto
Por mais tempo o espanhol, e arrebatado
Com a pistola lhe fez um tiro ao peito;
Era pequeno o espaço e fez o tiro
No corpo desarmado estrago horrendo!
Viam-se dentro pelas rotas costas
Palpitar as entranhas!… Quis três vezes
Levantar-se do chão… Caiu três vezes…
E os olhos já nadando em fria morte
Lhe cobriu sombra escura e férreo sono!
José Basílio da Gama (1740-1795)
Do ponto de vista ideológico Uraguai identifica-se perfeitamente com a atmosfera cultural pombalina, cujo intuito elogiativo é colocar Pombal e o seu reinado no centro do palco. Por isso não sente qualquer ressentimento de consciência na distorção dos fatos. No fundo trata-se de um poema heroico-encomiástico, ou um encômio-heroico. A narrativa é entremeada pelas visões de Lindóia: grande feito de Pombal reconstruindo Lisboa destruída por um terremoto em 1775 e expulsando do reino os jesuítas.
A epopeia de Basílio da Gama traz um tema dúbio, ao tentar conciliar a louvação do Marques de Pombal e o heroísmo do indígena. A trama tem inúmeros pontos obscuros, por exemplo: não fica clara a razão que leva Balda a manter separadas Lindóia e Cacambo, nem o assassinato deste.
Expulsão dos Jesuítas
Como consequência da guerra guaranítica, quando tanto espanhóis como portugueses atribuíram a rebelião dos indígenas à Companhia de Jesus, o tema das missões foi analisado com acentuada suspicácia pelas cortes europeias. As intrigas de autoridades locais e interessados feudatários vizinhos que empunham sua impotência rente ao êxito das missões alertavam a Coroa sobre a suposta formação de um “império jesuítico” autônomo.
Em 1759, o Marques de Pombal obtém a expulsão dos jesuítas de Portugal e de suas colônias e, em 1767, Carlos III fez o mesmo com os religiosos localizados em Espanha e seus domínios. No começo de 1768 os jesuítas são presos e transladados para a Europa (a maioria dos missionários falecerá na Itália) e as missões, entregues a administradores que, sob a direção da Junta Real de Temporalidades, se apoderam de todos os bens materiais da Companhia de Jesus.
Decadência das Missões
A substituição dos jesuítas significou não meramente uma deposição formal, mas também uma alteração estrutural na vida dos povoados. Os religiosos da Companhia de Jesus foram substituídos por sacerdotes de outras Ordens: franciscanos, dominicanos, mercedários que muitos nem conheciam o idioma dos Guaranis. Esta falta de comunicação foi fatal no momento em que a situação traumática dos indígenas requeria uma melhor compreensão.
A presença desses administradores quebrou a integração comunitária da economia missionária e pretendeu que cada um dos povoados fosse autossuficiente em todos os aspectos. Com isto, desarticulou-se o sistema econômico e a decadência foi vertiginosa.
A Lenda de Sepé
Sepé Tiaraju nasceu provavelmente entre a segunda e a terceira década do século XVIII e morreu em combate no ano de 1756. Era dotado de forte espírito guerreiro e tornou-se um dos líderes entre os Guaranis e obteve a patente de alferes real e corregedor do povoado de São Miguel. Recusou-se a aceitar as disposições do Tratado de Madri e transferir-se para o outro lado do rio Uruguai, deixando as terras das missões para os portugueses. Sepé, herói da Guerra Guaranítica, virou lenda na cultura popular do Rio Grande do Sul, como um santo guerreiro que morreu lutando por sua terra e por sua gente.
Reconstituição
Uraguai (1769) epopeia escrita pelo poeta brasileiro José Basílio da Gama (1741-1795), este poema épico-indianista, dividido em cinco cantos, em versos brancos e estrofação livre, ainda que de métrica decassilábica, isto é, não necessitando de rimas, que se distancia do esquema tradicional, sugerido pelo modelo camoniano, sendo que “Uma das suas virtudes foi o equilíbrio entre os detalhes históricos e a elaboração ficcional”. A matéria da ação épica é limitada: narra à expedição militar de um general ilustre, Gomes Freire Andrade, Governador do Rio de Janeiro, Minas e Comissário da Demarcação do lado português, empreendida por espanhóis e portugueses contra os índios e jesuítas habitantes da colônia de Sete Povos (São Borja, Santo Ângelo, São João, São Lourenço, São Luís, São Miguel e São Nicolau) e Missões do Uruguai.
A epopeia é a narração em versos, de atos heroicos de caráter real ou imaginário. Depois do sucesso obtido pelos clássicos europeus e da repercussão alcançada em Portugal por Os Lusíadas, evidentemente o autor brasileiro, sempre sôfrego em imitar os literatos portugueses, não poderia deixar de explorar o aspecto épico da poesia. Assim houve manifestações típicas na Colônia, devendo ser salientados por Basílio da Gama com Uraguai em 1769.
A Missão
Filme de 1986 dirigido por Roland Joffé recebeu vários prêmios, inclusive a Palma de Ouro “Melhor Filme” em Cannes. A história que se passa no século 18, onde seria hoje a fronteira entre o Brasil, Argentina e o Paraguai. A América recém-descoberta, com suas riquezas a serem exploradas e seus perigos insuspeitos, serve de fundo para mostrar os conflitos entre os colonizadores portugueses e espanhóis e os jesuítas. Robert De Niro é Mendonza, faz um violento mercador que captura índios para vender como escravos para os espanhóis. Jeremy Irons é padre Gabriel, que pretende organizar as comunidades Guaranis e estabelece a missão na selva, ao lado de outros jesuítas.
Arrependido pelo assassinato de seu irmão, realiza uma autopenitencia e acaba se convertendo em missionário jesuíta. Ele ajuda o líder dos catequizadores a criar um novo mundo em Sete Povos das Missões, mas os portugueses e espanhóis têm outros planos para aquele lugar. Quando Gabriel se recusa a deixar o que construiu, o exército é mandado para tirá-lo de lá a força.
Conclusão
O certo é que a formação da ordem religiosa da Companhia de Jesus no século XVI marcou uma clara etapa de renovação das metodologias de evangelização ou transmissão do credo religioso do catolicismo. A República sobreviveu por 158 anos, onde os missionários jesuítas, e índios Guaranis aldeados numa faixa territorial que atualmente se divide entre o Rio Grande do Sul, o Paraguai, a argentina e o Uruguai, desenvolveram temporariamente aquela que teria sida a primeira República comunista da História, embora espiritualmente cristã. Logo nas primeiras páginas do livro A República comunista cristã dos Guaranis, o prefaciador Henri-Charles Desroches, chama à atenção do leitor para que tire suas dúvidas e compare o conteúdo da experiência guarani e a definição clássica de uma sociedade comunista.
* Gilfrancisco é jornalista, pesquisador e escritor. Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e membro do Grupo Plena/CNPq/UFS e do GPCIR/CNPq/UFS. gilfrancisco.santos@gmail.com
Bibliografia
GAMA Basílio da – Uraguai. Rio de Janeiro, 4ª edição, Livraria Agir Editora, 1983.
GUTIERREZ, Ramón – Las Misiones Jesuíticas de lós Guaraníes. Rio de Janeiro, UNESCO, 1987.
LAS CASAS, Frei Bartolomé de – O Paraíso Destruído. Porto Alegre, L&PM, tradução Heraldo Barbuy, 2001.
LUGON, C. – A República “comunista” cristã dos Guaranis (1610/1768). São Paulo, Editora Paz e Terra, 3ª edição, tradução Álvaro Cabral, 1977.
Jornal do Dia. Aracaju, 6/7 e 10 de abril de 2013.
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