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13 de setembro de 2026
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A quem pertence o voto do(a) eleitor(a) religioso(a)?

Por Péricles Andrade*

A relação entre religião e política mudou desde o final dos anos 1980, quando questões morais e culturais ganharam centralidade nas disputas eleitorais. Essa transformação tornou-se evidente em 2010, com temas como aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo e família tradicional. Desde então, o pertencimento religioso pode funcionar como predisposição eleitoral, sem determinar o voto: entre evangélicos, há maior aproximação com a direita, enquanto o eleitorado católico permanece mais diversificado. A questão sociológica está, portanto, na tensão entre influência religiosa e autonomia eleitoral: igrejas transmitem valores e interpretações políticas, mas as escolhas também são atravessadas por classe, escolaridade, geração, território, trajetória religiosa e identificação partidária.

Essa dinâmica pode ser observada no chamado “efeito fariseu”, quando discursos de superioridade moral e religiosa entram em contradição com práticas concretas. Em 2010, a controvérsia sobre o aborto mostrou como questões morais poderiam ser mobilizadas eleitoralmente, transformando diferenças religiosas em instrumentos de disputa e produção de fronteiras entre “nós” e “eles”. Em 2014, a candidatura de Marina Silva evidenciou a articulação entre identidade religiosa, conservadorismo moral e agenda econômica liberal, antecipando elementos posteriormente incorporados pelo bolsonarismo. Em 2018, conservadorismo moral, liberalismo econômico, discurso antissistema e identidade cristã convergiram em uma fórmula eleitoral particularmente potente.

Nesse contexto, entre abril e junho de 2018, a Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) dedicou as lições da Escola Dominical ao tema “Valores Cristãos: enfrentando as questões morais do nosso tempo”, abordando ideologia de gênero, direitos humanos, aborto, sexualidade e política. Essa orientação contribuiu para demarcar posições diante da crise política e favorecer a aproximação de setores pentecostais com Jair Bolsonaro, apesar de divergências com a tradição pentecostal. O alinhamento foi reforçado por elementos fundamentalistas compartilhados e pela convergência entre o programa conservador e valores defendidos pelas Assembleias de Deus.

Contudo, reduzir o eleitorado popular a uma suposta adesão automática ao conservadorismo religioso também seria equivocado. Eleitores de baixa renda podem compartilhar posições conservadoras em temas morais e, simultaneamente, apoiar políticas de redistribuição, valorização do salário mínimo, transferência de renda e ampliação de serviços públicos. Essa sobreposição ajuda a explicar a permanência de candidaturas de esquerda entre segmentos populares, inclusive entre mulheres neopentecostais. A religião, portanto, pode orientar determinadas percepções sem necessariamente determinar o conjunto das escolhas políticas.

É nesse cenário que ganha relevância o “Desafio de Neemias”, lançado pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) em 13 de agosto de 2026. A campanha propõe uma jornada devocional de 52 dias, encerrada em 4 de outubro, data do primeiro turno das eleições presidenciais. Inspirada no relato bíblico da reconstrução dos muros de Jerusalém, a iniciativa apresenta tarefas diárias, reflexões, vídeos e práticas simbólicas, entre elas a ideia de reconstruir um “muro” a cada dia (Ver: IURD. Instagram, 2026. Disponível em: https://www.instagram.com/desafiodeneemias/. Acesso em: 8 set. 2026).

À primeira vista, trata-se de uma campanha essencialmente religiosa, e seria precipitado classificá-la simplesmente como propaganda eleitoral. Seu interesse sociológico está justamente em outro aspecto: conteúdos devocionais podem fornecer categorias para interpretar a sociedade, avaliar governantes, identificar ameaças e pensar sobre escolhas políticas. A reconstrução dos muros pode ser compreendida como metáfora para a proteção da família, da igreja, da fé e dos valores cristãos. Dessa maneira, sem necessariamente mencionar candidatos ou partidos, uma experiência religiosa pode contribuir para formar disposições políticas e oferecer uma gramática moral para a interpretação da realidade.

Essa dimensão aparece de forma expressiva na sequência dos desafios divulgados pela IURD. O Desafio 2 – “Desprezados” relaciona sofrimento e rejeição à necessidade de reconstrução e proteção da obra de Deus, da família e dos valores cristãos. No Desafio 15 – “Governantes contra o povo”, a reflexão introduz uma dimensão política ao distinguir governantes que atuariam em benefício da população daqueles movidos por interesses próprios. Já o Desafio 16 – “Discernimento” orienta o fiel a observar associações e alianças, identificando aqueles que defendem “o altar, a obra de Deus, a família e os valores”. Em conjunto, os três desafios constituem um roteiro interpretativo que articula proteção, avaliação dos governantes e discernimento, oferecendo categorias religiosas para reconhecer ameaças, distinguir aliados e orientar escolhas políticas (Ver: IURD – IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS. Desafio 2 – Desprezados; Desafio 15 – Governantes contra o povo; Desafio 16 – Discernimento. Instagram, 2026. Disponível em: https://www.instagram.com/desafiodeneemias/. Acesso em: 8 set. 2026).

Isso não significa, contudo, que todos os participantes da campanha votarão de acordo com uma orientação previamente determinada. A força da IURD está menos na capacidade de controlar mecanicamente o voto e mais na existência de uma estrutura organizacional capaz de produzir comunicação, pertencimento e mobilização. Templos, pastores, obreiros, meios de comunicação e redes comunitárias constituem recursos importantes para a circulação de discursos e para a formação de interpretações compartilhadas. Como demonstram Prandi, Santos e Bonato (2019), igrejas podem funcionar como verdadeiras “máquinas eleitorais”; isso, entretanto, não elimina a autonomia dos indivíduos que participam dessas redes.

A própria trajetória eleitoral da IURD demonstra que as alianças políticas não são imutáveis. A instituição manteve aproximações com candidaturas do PT nas eleições presidenciais de 2010 e 2014, enquanto, a partir de 2018, passou a se aproximar de Jair Bolsonaro, posição consolidada na eleição de 2022. A mudança evidencia que organizações religiosas também respondem às transformações do campo político e reconfiguram suas alianças. Família, moral cristã e oposição a pautas identificadas com o progressismo tornaram-se elementos importantes dessa nova composição.

Nesse processo, a identidade religiosa de figuras públicas também pode ser mobilizada para produzir efeitos políticos. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, tornou-se conhecido como alguém “terrivelmente evangélico”. Em meio à crise institucional, o ministro gravou e divulgou, em 4 de setembro de 2026, um vídeo de agradecimento a apoiadores e líderes religiosos pelo apoio recebido naquele contexto (Ver: CNN BRASIL. Sob crise no STF, Mendonça agradece apoio de fiéis de igreja onde é pastor. YouTube, 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=t7U7P1_qnY. Acesso em: 8 set. 2026).

Na mesma conjuntura, outros registros anteriores envolvendo o ministro também voltaram a circular nas redes sociais, entre eles um vídeo de abril de 2026, gravado durante a Marcha dos Vereadores, e um relato de caráter religioso produzido anos antes. A recirculação desses conteúdos, em um ambiente marcado pela polarização política, contribuiu para ampliar a associação entre a identidade religiosa pública de Mendonça e os conflitos políticos daquele momento. O episódio ganhou repercussão entre eleitores(as), parlamentares de oposição e usuários(as) das redes sociais, inserindo-se no ambiente de mobilização política que antecedeu os atos do feriado de 7 de Setembro.

O episódio ganhou contornos políticos quando o apóstolo Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial do Poder de Deus, utilizou outra gravação de André Mendonça durante um culto político que reunia lideranças da direita, entre as quais Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. O vídeo havia sido gravado originalmente em 26 de março de 2026, para celebrar o aniversário de 28 anos da igreja, mas foi reexibido em setembro sem a devida contextualização de sua data de origem, sugerindo um apoio político atual. A imprensa registrou a diferença temporal, inclusive com esclarecimentos atribuídos à assessoria do ministro (Ver: LIMA, Daniela; BORGES, Alexandre. Vídeo de Mendonça: Daniela Lima diz que culto induziu fiéis. Canal UOL, São Paulo, 8 set. 2026. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/. Acesso em: 8 set. 2026).

O episódio revela uma questão central: em um ambiente em que identidades religiosas e políticas se aproximaram a simples associação simbólica entre autoridade religiosa, liderança política e figura pública pode produzir significados que ultrapassam o conteúdo original de uma mensagem. Não é necessário que alguém diga explicitamente “vote em determinado candidato(a)” para que uma comunicação contribua para a construção de um campo de identificação político-religiosa.

As eleições de 2026 tornam essa disputa ainda mais evidente. Tanto a direita quanto a esquerda procuram dialogar com o eleitorado religioso, reconhecendo sua importância demográfica e eleitoral. Lula, por exemplo, procura ampliar sua interlocução com setores religiosos, inclusive por meio de referências à fé e de alianças locais. Ao mesmo tempo, candidaturas de direita, como as de Flávio Bolsonaro e Augusto Cury, procuram consolidar a associação entre cristianismo, defesa da família, conservadorismo moral e oposição ao progressismo. O resultado é uma disputa pela interpretação política da fé.

Entretanto, os dados disponíveis recomendam cautela diante da ideia de que lideranças religiosas controlariam o comportamento eleitoral de seus fiéis. Nem sempre “irmão(ã) vota em irmão(ã)” ou automaticamente em candidaturas “ungidas” pela instituição. Pesquisa Quaest divulgada pelo G1 em 7 de setembro de 2026 mostrou que 79% dos entrevistados(as) afirmam que a opinião de líderes religiosos não influencia seu voto para presidente. Apenas 10% disseram ser “muito” influenciados e 8%, “um pouco”. Entre católicos, 81% afirmaram não sofrer influência; entre evangélicos, 79% deram a mesma resposta, embora 13% tenham admitido algum grau de influência direta. O padrão também aparece entre lulistas, bolsonaristas e independentes (Ver: G1. 79% dizem que opinião de líder religioso não influencia em voto. Rio de Janeiro, 7 set. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral/noticia/2026/09/07/quaest-lideranca-religiosa-influencia-voto-presidente.ghtml. Acesso em: 8 set. 2026).

Os dados evidenciam a importância de distinguir mobilização religiosa de controle eleitoral. Igrejas podem organizar campanhas, produzir conteúdos, criar rotinas devocionais, construir redes de sociabilidade e oferecer interpretações morais sobre a conjuntura. Tudo isso pode influenciar a formação das preferências. Mas influência não é sinônimo de determinação. Entre a mensagem religiosa e a decisão eleitoral existe um(a) eleitor(a) inserido(a) em múltiplas relações sociais e submetido(a) a diferentes experiências, interesses e contradições.

É justamente aí que reside a questão democrática mais delicada. O problema não está no fato de uma pessoa votar de acordo com suas convicções religiosas. Tampouco está em uma igreja discutir política ou defender valores que considera fundamentais. O problema surge quando uma preferência política passa a ser apresentada como obrigação de fé; quando o adversário político deixa de ser adversário para se transformar em inimigo moral; quando discordar de uma orientação eleitoral passa a ser interpretado como falta de compromisso com o sagrado, com a família ou com a própria comunidade religiosa.

A democracia não exige cidadãos(ãs) sem religião. Exige, porém, que a liberdade religiosa não seja convertida em mecanismo de submissão política. A fé pode orientar escolhas, produzir valores e participar legitimamente do debate público. O que ela não deveria fazer é eliminar o espaço de consciência no qual cada cidadão(ã) decide por si mesmo(a).

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja se a religião influencia o voto, mas até onde essa pode chegar sem transformar convicção em obrigação. Entre o altar e a urna existe um espaço que nenhuma liderança religiosa, partido ou candidato(a) deveria ocupar por completo: a consciência do(a) eleitor(a).

E é justamente quando a porta da cabine de votação se fecha que a questão se torna mais provocativa: depois de ouvir a liderança religiosa, assistir ao vídeo, participar do culto e receber a orientação sobre quem são os “governantes contra o povo”, quem realmente decide? A instituição religiosa que ensinou a interpretar o mundo ou o(a) cidadão(ã) que, sozinho(a) diante da urna, ainda conserva o direito de dizer não?

*Professor Titular da UFS. E-mail: periclesdcs@academico.ufs.br

Referências

ANDRADE, Péricles. O poder religioso e os engendramentos eleitorais no Brasil. Destaque Notícias, Opinião, 19 fev. 2026. Disponível: https://www.destaquenoticias.com.br/o-poder-religioso-e-os-engendramentos-eleitorais-no-brasil/ . Acesso 06 set. 2026.

FELIX, Alexandre Landim. O Deus das urnas: religião e eleições presidenciais no Brasil. 2023. 226 f. Tese (Doutorado em Sociologia) – Centro de Humanidades, Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2023.

LIMA, Daniela; BORGES, Alexandre. Vídeo de Mendonça: Daniela Lima diz que culto induziu fiéis. Canal UOL, São Paulo, 8 set. 2026. Disponível em: . Acesso em: 8 set. 2026.

MAIA, Bruna Nogueira; OLIVEIRA, Fabrício Roberto Costa; LEITE, Deivit Henrique da Silva; ALMENDAGNA, Isadora. A Igreja Universal do Reino de Deus e as eleições presidenciais: uma análise comparativa (2010, 2014, 2018 e 2022). In: SIMPÓSIO DE INTEGRAÇÃO ACADÊMICA (SIA). Viçosa: Universidade Federal de Viçosa, 2023.

PRANDI, Reginaldo; SANTOS, Renan William dos; BONATO, Massimo. Igrejas evangélicas como máquinas eleitorais no Brasil. Revista USP, São Paulo, n. 120, p. 43-60, jan./fev./mar. 2019.

XAVIER, Liniker. Eleições 2018 e os valores cristãos na Escola Dominical: convergências e contradições pentecostais. Interações, Belo Horizonte, v. 14, n. 25, p. 96-116, 2019. DOI: 10.5752/P.1983-2478.2019v14n25p96-116. Disponível em: . Acesso em: 8 set. 2026.

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

 

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