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A intensidade de Zeza Vasconcelos

Uma vez convidado a prefaciar um livro, o sociólogo e crítico literário Antonio Candido escreveu: “O que caracteriza a maioria dos prefácios é a falta de necessidade. Ou o prefaciador resume o livro, ou produz um ensaio marginal a partir dele. Em ambos os casos pouco pode fazer pelo texto, que vale ou não por si mesmo”. E arrematou, a propósito do autor prefaciado, que para ele valia muito, “e por isso torna o prefácio mais do que inútil”.

Há um sentimento parecido com relação à obra inaugural do ficcionista José Vasconcelos dos Anjos. O texto vale por si mesmo e o autor vale mais ainda, talvez por isso esta seja uma apresentação inútil.

Os contos do escritor José Vasconcelos dos Anjos são surpreendentes. E Zeza, como é tratado pelos muitos amigos, é um profissional de sólida formação humanista, um homem devotado aos livros, entusiasmado pela sociologia e pela filosofia, apaixonado pela ficção.

É bom advertir logo que a história da literatura universal prova não haver incompatibilidade entre ser um bom médico e um escritor de sucesso. Anton Tchecov, o genial russo que escreveu a peça “As Três Irmãs” e a novela “O Duelo”, era médico. Como também eram médicos outros gênios da literatura, o português Fernando Namora (“O Trigo e o Joio”), o escocês Arthur Conan Doyle (criador do imortal Sherlock Holmes), o britânico Somerset Maugham (“Servidão Humana”), o alemão Friedrich Schiller (“Maria Stuart”, “Turandot” e “Guilherme Tell”), além do brasileiro Moacyr Scliar (“O Exército de Um Homem Só” e “Max e os Felinos”, novela esta plagiada no famoso romance canadense “A Vida de Pi”).

Além de ótimo clínico geral, com especialidade em Medicina do Trabalho e Homeopatia, portanto, José Vasconcelos dos Anjos é um intelectual de cultura refinada e, como poucos, antenado com o que está acontecendo na literatura no Brasil, na América Latina e por aí a fora. Atualizado e desprovido de preconceitos. Por isso que sua capacidade criadora e sua habilidade para a escrita não causam espanto. Mas seus textos surpreendem pelo que contam e pela forma como é construída cada narrativa.

Este pequeno livro traz contos impregnados de cotidiano, comezinhos, por vezes resvalando na crônica. São dramas familiares, quase rodrigueanos, entremeados de perturbadores dramas de consciência. Há humor, quase sempre sarcástico, há poesia e, mais importante, há verossimilhança. Às vezes ele flerta com o realismo fantástico, mas nada do que escreve contraria a verdade. Como convém a qualquer boa obra de ficção. E as possíveis previsibilidades são superadas pela sutileza dos desfechos, arrematados quase sempre por genuínas surpresas.

Há histórias inspiradas, da velhinha bondosa que sem querer mata o ladrão, do amigo morto que insiste em reaparecer, da mulher amada que engorda e provavelmente vira uma baleia, da rumbeira que foi serrada ao meio pelo mágico que não conseguiu mais juntar as duas metades, da descoberta de coincidências amorosas que salvam a vida do traidor que seria vingado, do flagrante que muda a relação com a professora de catecismo. Fala-se das relações de exploração do homem pelo homem, dos desejos recônditos e mal desvelados, dos amores fortuitos e frustrados. Os contos de José Vasconcelos dos Anjos nos falam da vida. Da vida como ele é, perdoe-nos Nelson Rodrigues.

São contos curtos, mas são intensos. Tratam de assuntos sérios, mas com muito desprendimento e graça. Prendem o leitor e fazem pensar que a efêmera e vexatória experiência humana é tão rica de significados, mesmo quando não há opções possíveis, que não nos resta alternativa senão seguir em frente, desfrutando do que nos cabe desfrutar. Inclusive, do prazer da boa leitura. Desfrutemos, pois. Vale a pena.

(Apresentação do livro “O Herbanário de Tia Finha e outras curtas estórias”, de Zeza Vasconcelos)

 

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