
Por Marcos Cardoso*
As paixões afloram e contaminam o ambiente propício às divergências políticas e futebolísticas. É ano de eleição e de Copa do Mundo. E neste exato momento a polarização, essa coisa criada pela extrema-direita bolsonarista e alimentada pela imprensa aferidora de uma suposta simetria entre fulano e sicrano, a polarização aparece com novas roupagens. 
Mas será que a copa das seleções influencia no resultado das eleições? Pelo que a história registra, a resposta é não. Vejamos o primeiro título, em 1958. A conquista da na Suécia coincidiu com o auge do governo do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961). O sucesso da Seleção ajudou a consolidar um momento de grande otimismo enquanto JK implementava o Plano de Metas com o lema “Cinquenta anos em cinco” e construía Brasília. Mas quem foi eleito em 1960 foi Jânio Quadros do PTN. JK era PSD.
Na Copa do Mundo de 1962, o presidente João Goulart (PTB) teve papel ativo no apoio à Seleção Brasileira. Ele intercedeu diplomaticamente junto à FIFA para liberar Garrincha para a final contra a Tchecoslováquia e, após a conquista do bicampeonato no Chile, tornou-se o primeiro presidente a receber uma seleção campeã em Brasília. Mas não terminou o mandato, sofreu um golpe em 1964 e o resto é história.
Em 1970, no auge do futebol brasileiro, o governo não teve influência decisiva no tricampeonato conquistado por Pelé e companhia no México, mas a conquista foi utilizada como propaganda do regime militar. O que, felizmente, não manchou aquela taça. Que foi roubada depois e provavelmente derretida, mas aí é assunto da editoria policial.
Pulemos para 1994, governo de Itamar Franco (sem partido). A partir daqui, Copa e eleição passam a coincidir no mesmo ano. O tetracampeonato do Brasil nos Estados Unidos não deu contribuição decisiva para a eleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). O Plano Real, lançado em 1994 quando era ministro da Fazenda, foi o principal pilar para sua eleição à presidência. Após a conquista da Seleção Brasileira nos Estados Unidos, o presidente Itamar Franco recebeu a delegação no Palácio do Planalto em Brasília e condecorou os jogadores. Mas a volta da delegação brasileira com o “voo da muamba” resultou em mais desgaste político do que benefício eleitoral.
Em 1998, o Brasil perdeu a final contra a França, que jogou em casa, e a tristeza da perda da Copa não atrapalhou em nada a reeleição de FHC, que ganhou no primeiro turno.
Para confirmar que Copa não influencia resultado de eleição, no Japão e Coreia do Sul em 2002, quando o Brasil conquistou o pentacampeonato de forma brilhante, com Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho, e Vampeta dando cambalhota na rampa do Palácio, o candidato palaciano José Serra (PSDB) perdeu para Lula da Silva (PT). O primeiro mandato presidencial que o líder trabalhista conquistou depois de três eleições frustradas.
A Copa de 2006 coincide com a reeleição de Lula. A Seleção Brasileira chegou ao torneio na Alemanha com grande favoritismo, mas foi eliminada pela França nas quartas de final. O início da série de fracassos do Brasil na Copa não impediu o presidente de se reeleger com relativa facilidade, derrotando Geraldo Alckmin (PSDB) no segundo turno com mais de 60% dos votos.
Em 2010, novo fracasso na Copa, na África do Sul, não atrapalhou o projeto de Lula de fazer sua sucessora, Dilma Rousseff (PT), que se elegeu para o primeiro mandato derrotando José Serra no segundo turno. Seleção Brasileira derrotada mais uma vez nas quartas de final, dessa vez pela Holanda.
A tragédia de 2014, quando o Brasil realizou a Copa do Mundo em casa e levou uma surra colossal da Alemanha na semifinal, o sofrível 7 a 1, não impediu a reeleição de Dilma, dessa vez derrotando Aécio Neves (PSDB) por pequena margem de votos no segundo turno. Desde o ano anterior, após os protestos de junho de 2013, a princípio contra os serviços públicos ofertados e que também teve como bandeira a oposição à realização da Copa, a presidenta passou a sofrer uma campanha pesada contra a sua gestão, mas não o suficiente para barrar a chegada ao novo mandato.
Em 2018, no impopular governo de Michel Temer (MDB), o selecionado brasileiro amargou novo vexame, na Copa da Rússia, voltando a se despedir nas quartas de final, dessa vez perdendo para a Bélgica. Mas nada disso impediu a eleição do candidato palaciano Jair Bolsonaro (PSL), derrotando Fernando Haddad (PT) com relativa facilidade no segundo turno.
Já em 2022, pela primeira vez desde que o Brasil se redemocratizou, o presidente da República foi derrotado ao tentar a reeleição. Na Copa do Catar, a primeira realizada no Oriente Médio, o Brasil perdeu uma inacreditável disputa de pênaltis para a Croácia novamente nas quartas de final e o presidente Bolsonaro (agora PL) perdeu uma eleição apertada para o arquirrival Luiz Inácio Lula da Silva. O derrotado tentou de tudo para não largar o poder, inclusive um golpe de estado, acabou condenado e preso.
Será que o último vexame da Seleção Brasileira na Copa da América do Norte vai influenciar no resultado da próxima eleição para presidente da República? A história registra que o futebol jogado na Copa pouco interfere na política, embora a política agora interfira mais do que nunca no futebol.
*Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com
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