
A Empresa Municipal de Obras e Urbanização (Emurb) realiza, nesta quarta-feira (4), a instalação de dois portões rústicos decorativos nos acessos ao Beco dos Cocos, localizado no Centro de Aracaju. As estruturas contam com pilares e iluminação, além de um design diferenciado. A iniciativa tem como objetivo contribuir para a preservação do espaço, por meio do controle de acesso e do reforço à segurança da área revitalizada.
A instalação dos portões marca a etapa final do processo de requalificação do Beco dos Cocos, iniciado no começo de 2026 pela Prefeitura de Aracaju. A intervenção busca devolver ao espaço sua função social e urbana, após anos de abandono e degradação, transformando a realidade da região e criando condições para uma nova ocupação pela população.
Entre os serviços executados estão a implantação de um novo calçadão com piso intertravado, a recuperação das paredes laterais, que receberam pinturas artísticas e grafismos, e a requalificação da infraestrutura. As melhorias contemplaram a recuperação dos sistemas de drenagem e esgotamento sanitário, com a realização das interligações necessárias, além da recuperação integral do passeio público.
O projeto também incorporou novos equipamentos e elementos de valorização da identidade cultural aracajuana, como a implantação de um banheiro público e uma pintura em homenagem a Zé Peixe, personagem histórico e lendário da capital sergipana.
Com a instalação dos portões, a Prefeitura de Aracaju conclui as intervenções previstas para o Beco dos Cocos, consolidando a requalificação de um espaço histórico do Centro e ampliando as condições de segurança, acolhimento e atratividade para moradores e visitantes.
Ponte de boemia
Atualmente travessa Silva Ribeiro, o Beco dos Cocos é um dos locais mais antigos de Aracaju. Localiza-se entre a Praça General Valadão e a rua Santa Rosa. É um atalho para quem vai da praça e quer chegar aos mercados centrais.

Neste prédio da esquina entre a avenida Otoniel Dórea (conhecida como Rua da Frente) e a Rua Santa Rosa funcionou por muitos anos o Vaticano, um dos principais cabarés de Aracaju
Instalaram-se no beco boates e cabarés, dos mais simples aos mais sofisticados, e o seu apogeu foi entre as décadas de 1940 a 1960. A antropóloga Elayne Messias Passos começou a tentar perceber o Beco como um espaço de resistência no Centro de Aracaju. Fascinada pela cultura boêmia, Elayne passou a estudar a história do local e seus personagens. Como objeto de estudo, o Beco “perdido” começa a ser descoberto, sua história desvendada e seus personagens apresentados.
Em suas pesquisas, a antropóloga encontrou na literatura ricas descrições do ambiente. Na ficção, o local é lembrado em obras do modernismo: “me surpreendi com Tereza Batista Cansada de Guerra, personagem de Jorge Amado, que foi iniciada como prostituta no Beco dos Cocos”, afirma Elyane.
Na vida real, o memorialista sergipano Murilo Melins, descreve em sua obra a existência da Pensão da Marieta, que era a mais elegante e melhor frequentada. Possuía as melhores e mais caras damas da noite. Por lá trabalhavam Princesinha, Florzinha, Verdinha, Fuega, Helena Jabá, Arlete, Maura e a famosa Gilda. Essas damas, devido a discrição, eram muitas vezes confundidas com moças da sociedade e frequentavam o comércio das ruas João Pessoa e Laranjeiras e também os cinemas. O destaque também vai para o Cassino Bela Vista e o Dancing Xangai, que contava com uma decoração temática oriental.
Cabarés famosos
Democrático, o Beco dos Cocos não era frequentado apenas por carregadores de coco, estivadores e outros trabalhadores braçais. Os cabarés também recebiam banqueiros, comerciantes e membros da elite sergipana. Entres os frequentadores mais ilustres estavam o ex-secretário de educação do estado Luis Antônio Barreto e o escritor Murilo Melins. “É uma característica que se preserva até hoje. Em Aracaju não se vê os ricos tão separados dos pobres. É claro que existe a segregação econômica, mas ainda é possível ver ricos e pobres frequentando os mesmos lugares,” ressalta a antropóloga.
A Boate Xangai era uma das mais suntuosas: a decoração oriental trazia ao local charme e elegância. No térreo, funcionava um cassino e no andar superior ficavam os quartos usados para a prostituição. O cassino Bela Vista ficava localizado na divisa com o Mercado Central e misturava o sexo fácil com os jogos de azar. Já consolidado como “complexo de meretrício”, as boates e prostíbulos ganhavam fama. O Luz Vermelha, Miramar, Night and Day e o Fresca reuniam artistas, jornalistas, intelectuais e os mais variados segmentos da sociedade.
Além de funcionar como zona de prostibulo, os historiadores sergipanos Andreza e Dilton Maynard destacam em sua obra outra função do Beco dos Cocos: a de conter os estivadores para que não adentrassem na cidade em busca de sexo, bebidas e jogos. Desta forma, a gente do cais não se infiltrava entre a sociedade aracajuana.
Foto: Secom/PMA