

Por Antenor de Oliveira Aguiar Netto*
No dia 4 de setembro de 2024, a nossa água foi vendida num leilão público na bolsa de valores de São Paulo. Uma parte da Companhia de Saneamento de Sergipe (DESO) foi privatizada, com enorme comemoração. O atual Governo de Sergipe, em vez de assumir a sua responsabilidade institucional, ou seja, planejar e começar a construir novas adutoras ou fazer novas barragens para fins de abastecimento público, resolveu usar o velho e absurdo conceito neoliberal de vender ou privatizar o patrimônio do povo sergipano. O Brasil, como um dos membros e um dos fundadores da ONU, é signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos que, em seu artigo terceiro, afirma que “a água é um dos direitos básicos do ser humano”.

Na B3, o festivo leilão promovido pelo Governo de Sergipe para a concessão da prestação dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário, vencido pela Iguá Saneamento
A ONU publicou, em 2026, um relatório para alertar a humanidade que entramos na era da falência hídrica. Esse conceito, importado do setor bancário, tem um significado simples: não temos água em quantidade e qualidade suficiente para atender às necessidades de nossa sociedade. Farei uma analogia, utilizando a ideia de um pequeno mercado (antiga bodega) para exemplificar. Um comerciante reuniu suas economias e pediu um empréstimo para inaugurar uma bodega num local estratégico, em uma cidade do interior de Sergipe. Foi um sucesso, vendeu bem todos os dias, afinal ficava aberto 12h, durante 7 dias da semana, tinha produtos de qualidade e um público carente de novidades na área de alimentação e utensílios de cozinha. O comerciante pouco precavido, em vez de pagar suas dívidas e repor seu estoque com bons produtos, comprou uma caminhonete cabine dupla nova, reformou casa, fez festas e começou a ter muitas namoradas, negligenciando sua bodega, sem repor o capital de giro necessário todos os dias, além de pegar outro empréstimo e, dessa vez, com um agiota. O resultado foi simples: faliu, quebrou, entrou em bancarrota, perdeu tudo: bodega, casa, carro e as namoradas.
O estado de Sergipe pode estar na era da falência hídrica. Vamos investigar! Mas, antes disso, já sabíamos que os rios e riachos estaduais não são capazes de abastecer a população sergipana nem suportar uma produção agrícola e industrial com força para um desenvolvimento humano de primeiro mundo. Um dos argumentos usados para que a capital não fosse transferida de São Cristóvão para Aracaju foi a ausência de fontes de água com qualidade para atender a população da capital. Outro conceito técnico simples: uma parte significativa de nossas pequenas e médias bacias hidrográficas tem balanço hídrico negativo, afinal temos uma enorme área de semiárido. Em meados do século XX o estado de Sergipe teve um corpo técnico com competência, representado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico de Sergipe (CONDESE), que identificou que água seria um promotor de desenvolvimento. Assim, o olhar foi para o rio São Francisco, na divisa norte do estado, uma fonte hídrica com qualidade e quantidade para abastecê-lo. Com isso, fomos capazes de resolver essa questão: a primeira transposição das águas do São Francisco para as águas da bacia hidrográfica do rio Sergipe foi concluída no final da década de 70, depois duplicada.
Outro aspecto importante: Sergipe conduz água em tubulações pressurizadas, o que minimiza a perda de água por evaporação e infiltração. Algumas adutoras e barragens foram construídas e todas as sedes municipais do estado de Sergipe foram e continuam abastecidas com água para as necessidades humanas e animais. O resultado desse longo trabalho é que Sergipe apresenta 91,36% da população com acesso à água tratada, um número bom, mas que deve ser 100%. Mas, o planejamento e a gestão de recursos hídricos demandam tempo. O plano estadual de recursos hídricos, os planos das bacias hidrográficas do rio Sergipe, rio Japaratuba e rio Piauí estão caducados. Duas importantes bacias hidrográficas, como o Vaza Barris e o rio Real, não tem planos e nem comitês. Devo aqui fazer um registro: os técnicos do governo de Sergipe, das empresas estatais, das Universidades, do Ministério Público e outras instituições repetem sistematicamente a necessidade de renovar os planos. Faz mais de 5 anos que ouço em palestras, mesas redondas, reuniões e, mesmo em conversas informais, a necessidade de um Plano de Segurança Hídrica que sequer saiu do discurso.
A Universidade Federal de Sergipe possui um corpo docente qualificado para debater, investigar e propor ideias para o presente e para o futuro. Registro que a efetiva produção de política pública precisa dialogar com a ciência. A instituição dispõe de mestrado e doutorado acadêmicos em recursos hídricos, um mestrado profissional em gestão e regulação de recursos hídricos e vários cursos de graduação e pós-graduação com competência para debater e pesquisar os reais problemas sergipanos. Somente para comparar, o estado da Bahia, maior em tamanho territorial e com um PIB maior que o sergipano, com 5 universidades federais e 4 estaduais, não tem um doutorado em Recursos Hídricos. Estamos prontos para contribuir com o debate e com o povo sergipano.
A venda da DESO foi realizada e confesso que os inevitáveis prejuízos para o povo foram mais rápidos do que eu pude prever. A falta da água aconteceu em diversos locais ao longo do ano de 2025. Em menos de dois anos estamos sem água na capital sergipana e em outros municípios sergipanos. Os transtornos para o povo são muitos, sem uma solução de curto nem médio prazo. Faz longos sete dias que não chega água nas torneiras de meu bairro, em Aracaju, bem como em vários outros bairros. Faz longos sete dias que parte da imprensa está praticamente calada; faz longos sete dias que a comunicação da Iguá e do Governo de Sergipe é lacônica. Vou voltar para a bodega. O agiota tomou a bodega de nosso primeiro comerciante e a vendeu para outro comerciante. Acontece que esse segundo cidadão não sabia trabalhar, era ineficiente. Não sabia onde comprar nem como vender e a população, perplexa, teve de ir comprar sua comida em outra cidade. No caso da água, um monopólio estatal, não temos saída: clínicas fechadas, comércios em pânico, casas sem água nem para beber nem para cozinhar. Tomar banho, talvez na praia. O governo de Sergipe tinha e ainda tem a DESO para trabalhar essa questão de modo integrado, mas preferiu não assumir a sua responsabilidade pelo abastecimento e vender a nossa água. O resultado foi um absurdo: ficamos sem água.
Para não finalizar, deixo aqui registrado o momento histórico e icônico que marcou Sergipe do Século XXI: o dia em que as autoridades, sorridentes, bateram o martelo e venderam a nossa água.
*Pós-Doutor em Recursos Hídricos. Professor Titular da UFS.
O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.
4 Comments
Esse governo de Sergipe, age de forma irresponsável porque O menor estado da federação não tem lei, nem observador.
Cara o Brasil nao tem jeito. A educação ai na educação em vez de educar simplesmente vai doutrinar para ser esquerda nas empresas doutrinar para ser escravo, sindicatos comprados. Na empresa que trabalhei a empresa pagava menos que o mínimo o sindicatos fechou os olhos. Sistema ta todo corrompido. Juiz, promotor, advogado, polícia e políticos. Nao tem jeito. Infelizmente. Você acha que privatizar dentro de um sistema desse vai da certo. Piada. Kkkkkk
A DESO, já era uma empresa falida e sem condições de continuar nos servindo, tão somente por isso foi passada adiante, livrando a população de ter de arcar com tarifas ainda mais exorbitantes das que nos cobram. Adutoras e tubulações rompendo, aqui, acolá e lá também, além de servidores que não serviam e aliás, lá não compareçam. Nas mãos da iniciativa privada, uma hora ou outra, com essa atual empresa ou outra, vai melhorar, será só uma questão de tempo.
“Já era uma empresa falida e sem condições de continuar nos servindo”. Olha só que frase interessante. Uma empresa pública que não pode falir, que trabalha em regime de monopólio fornecendo um bem que todos pagam para consumir e que além do mais recebe recursos públicos. Uma empresa sob tutela do governo estado, fiscalizada e acompanhada pela AGRESE, pela câmara, pelo governo estadual e pelo TCE, cujos dirigentes são, inclusive, indicados pelo governador. Veja que ela não é uma empresa avulsa, que faz o que quer, ela tem lei instituidora, tem metas e planos de longo prazo e anuais aprovados e fiscalizados por esses órgãos, que são agora responsáveis por fiscalizar também a Iguá. Ora, se estava “falindo” e os servidores não iam trabalhar, por que os responsáveis não fizeram nada a respeito? Não entendo como uma empresa privada, especializada em cortar custo para lucrar com o bem público pode vir a servir melhor o povo sergipano do que uma empresa nossa, criada especificamente para conhecer e sanar nossas demandas, atuando há quase 60 anos no território. Tava bom? Não. Tava horrível, péssimo. Mas como sempre o governo quando não está ocupando criando soluções para problemas que não existem, está criando soluções falsas para problemas reais.