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Uma década de Campus do Sertão da UFS (parte 2): pesquisa e inovação

Por Jodnes Sobreira Vieira e Lucindo Quintans Jr. *

A primeira década do Campus do Sertão da UFS foi marcada pela força mobilizadora de sua criação. Em sua trajetória, a jovem escola de ensino superior consolidou um ambiente robusto de pesquisa, inovação e formação científica voltado às necessidades regionais. Após vencer a etapa fundadora, o novo centro da Universidade Federal de Sergipe ingressou em um ciclo no qual a principal meta de docentes, estudantes e técnicos é encontrar maneiras de produzir conhecimento relevante para transformar a realidade do Sertão Sergipano.

Entre 2015 e 2024, a resposta veio na forma de um crescimento consistente das atividades de pesquisa. Grupos de pesquisa vinculados aos cursos de Zootecnia, Agronomia, Medicina Veterinária e Agroindústria, mas também dedicados a estudos nas áreas das Ciências Biológicas, Geografia, Gestão, Educação, Ciências Sociais e Tecnologias da Informação, ampliaram sua produção acadêmica, registrando aumento no número de projetos financiados, artigos publicados, experimentos de campo e parcerias institucionais. Nesse contexto, estudos sobre melhoramento genético de rebanhos, manejo sustentável de pastagens, alternativas de alimentação animal, mapeamento da caatinga, monitoramento de recursos hídricos, uso de geotecnologias no planejamento rural, controle de pragas e doenças, segurança alimentar e economia da bacia leiteira tornaram-se eixos estruturantes da pesquisa local.

Esse conjunto de investigações evidencia o quanto o desenvolvimento do Sertão Sergipano depende de conhecimento técnico sólido, capaz de dialogar com as dinâmicas produtivas da região. A bacia leiteira de Sergipe ainda é uma das bases econômicas mais tradicionais do estado e hoje se beneficia diretamente das pesquisas conduzidas no campus, que contribuem para qualificar a cadeia produtiva, apoiar cooperativas e orientar políticas públicas. A presença da UFS no sertão não apenas formou profissionais, mas passou a gerar soluções concretas para problemas locais, atuando de forma assertiva para aproximar ciência, território e desenvolvimento.

Em meio a esse cenário, destacam-se ações expressivas de inovação tecnológica, que inseriram o Campus do Sertão em redes nacionais e regionais de pesquisa aplicada. Projetos de sensores térmicos para monitoramento de rebanhos, modelagem digital de estruturas produtivas, sistemas de previsão climática para o semiárido e protocolos de biossegurança adaptados à realidade das agroindústrias locais demonstram a potência criativa instalada na região. Várias dessas iniciativas nasceram de trabalhos de conclusão de curso, estágios supervisionados ou da interação direta entre laboratórios da UFS e produtores rurais.

Ao lado da inovação tecnológica, floresceu também um campo fértil de tecnologias sociais, muitas delas concebidas em diálogo com comunidades rurais, escolas, associações de agricultores e coletivos urbanos. Entre as experiências recentes, destacam-se metodologias participativas de preservação ambiental, projetos de educação do campo, modelos de gestão cooperativa para pequenas agroindústrias e soluções de comunicação comunitária. Nesse sentido, ganha especial relevância o aplicativo “Me Deixe”, desenvolvido por estudantes e pesquisadores do grupo de pesquisa Xique-Xique, uma ferramenta promissora para o enfrentamento da violência contra a mulher. O aplicativo conecta usuárias a rotas seguras, redes de apoio e mecanismos de alerta, tornando-se um exemplo de como a universidade pode responder de modo direto a desafios sociais urgentes que atravessam o sertão.

Da mesma forma, o Programa de Residência Agrária, concebido na UFS e primeiro implantado no país em 2020, exemplificou o sucesso da estratégia de aproximar a formação superior das cadeias produtivas regionais. Sob coordenação qualificada e parceria com empresas e órgãos federais, a iniciativa permitiu que dezenas de jovens profissionais atuassem diretamente em usinas, laticínios e propriedades rurais, desenvolvendo competências práticas e ampliando a empregabilidade — muitas vezes resultando em contratação ao término da residência.

Somaram-se a isso outras conquistas expressivas: premiações em encontros científicos, participação constante na SBPC e o fortalecimento contínuo dos grupos de pesquisa. Esses indicadores demonstraram que o Campus do Sertão definitivamente deixou de ser uma unidade periférica e consolidou-se como um núcleo estruturado de produção científica, capaz de influenciar políticas públicas, fomentar inovação tecnológica e formar recursos humanos de alta qualificação.

Ademais, o avanço dessas iniciativas está vinculado ao necessário crescimento estrutural do campus, especialmente após a consolidação do complexo instalado na Fazenda Experimental. A fazenda, planejada desde o anúncio de sua criação, deverá se transformar em um laboratório vivo para experimentos agrícolas, pecuários, biológicos e tecnológicos. Ali, estudantes e professores terão acesso a áreas de cultivo, baias para pesquisa animal, laboratórios especializados, estufas, viveiros e espaços de campo que permitem análises de longa duração. Nesse complexo poderão ser desenvolvidos ensaios agronômicos, testes nutricionais, pesquisas de bem-estar animal e estudos aplicados às realidades do semiárido, possibilitando que a produção científica seja realizada em escala real, com impacto direto sobre o território.

Essa infraestrutura, construída com apoio de emendas parlamentares, tornou-se um diferencial estratégico da UFS no interior. Ela permite que o conhecimento produzido no Campus do Sertão não seja apenas teórico, mas incorporado ao cotidiano de produtores, gestores e comunidades. A presença da Fazenda Experimental, associada ao crescimento dos cursos, à chegada de novos docentes e à qualificação da pós-graduação, projeta a universidade como protagonista de uma agenda de desenvolvimento territorial baseada na ciência, na tecnologia e na inovação.

Como se pode perceber, ao completar sua primeira década, o Campus do Sertão não apenas se afirma como conquista histórica, mas como plataforma de futuro. O conhecimento técnico, a pesquisa aplicada, as tecnologias sociais e as soluções inovadoras produzidas ali já transformam vidas, economias e paisagens. Aquilo que começou como sonho coletivo hoje se consolida como um dos maiores patrimônios educacionais do semiárido sergipano. Oxalá que, em sua segunda década, o Campus do Sertão experimente tempos de expansão científica, ampliação da pós-graduação, fortalecimento institucional e renovação de compromissos com o povo que lutou por sua existência.

*Jodnes Sobreira Vieira é professor do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Sergipe (DZO/UFS) e Lucindo Quintans Jr. é professor do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de Sergipe (DFS/UFS).

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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