

Por Lucimar Ferreira Aragão*
A construção dos discursos em torno da sergipanidade teve como marco a Emancipação Política em 08 de julho de 1820. Nessa data, Dom João VI assinou um decreto que elevava Sergipe à condição de capitania independente da Bahia. Ainda naquele ano, a autonomia foi contestada pelas Cortes portuguesas e pela Província da Bahia, que a reincorporou ao seu domínio. Em 24 de outubro de 1824, Dom Pedro I reestabeleceu a separação definitiva, transformando Sergipe em Província do Império do Brasil. Nesse processo histórico pelo qual se construiu, a partir de Sergipe, a distinção em relação à Bahia, teve início durante o processo de autonomia política da província, entre 1820 e 1824, quando Sergipe se tornou uma unidade política independente, com governo próprio e controle sobre seu território e finanças. Antes desse período, havia uma ligação com a capitania da Bahia, que remontava a 1590, quando os luso-baianos conquistaram o território entre os rios Itanhy (rio Real) e Opará (rio São Francisco) (Cardoso, 2020).
Após a emancipação política de Sergipe, houve um movimento de rejeição à identificação com a cultura baiana e um fortalecimento do sentimento de sergipanidade. Instituições, eventos cívicos, obras literárias e acadêmicas foram utilizados para promover e afirmar a distinção entre ser sergipano e ser baiano. Surgiram discursos que valorizavam um passado singular de Sergipe, criando mitos fundadores, instituições dedicadas à preservação da memória coletiva e símbolos como bandeira, brasão e hino, entre outros elementos, que contribuíram para a consolidação da identidade sergipana como algo distinto e independente da identidade baiana. No Hino de Sergipe, cuja letra é do poeta e professor Manoel Joaquim de Oliveira Campos e a música é do Frei José de Santa Cecília, oficializado pela Assembléia Provincial em 5 de julho de 1836, esses sentidos de autoafirmação e distinção são explícitos: “Cansado da dependência. Com a província maior. Cansado da dependência. Com a província maior. Eis, patrícios sergipanos. O nosso dia singular. Eis, patrícios sergipanos. O nosso dia singular (Disponível: https://www.letras.mus.br/hinos-de-estados/1658617/. Acesso 23 out. 2025).
A primeira data de celebração não foi o 8 de julho. Foi exatamente o 24 de outubro, data em que tivemos, em 1836, a primeira festa com características de busca identitária. Era o dia da comemoração da Emancipação, muito popular e festejado em todo o Sergipe. Segundo a antropóloga Beatriz Góes Dantas (2020), durante mais de um século, o estado de Sergipe manteve essas duas datas oficiais de comemoração de sua independência. Em 1920, no centenário da emancipação, houve um conflito: o Instituto Histórico e Geográfico celebrava o evento em 8 de julho, enquanto o Governo do Estado, liderado pelo presidente Pereira Lobo (1864-1933), festivamente comemorava em 24 de outubro (Dantas, 2020). No ano de 2000, a Assembleia Legislativa de Sergipe, alterou o artigo 47 da Constituição Estadual, que estabelecia duas datas de comemoração da Emancipação Política de Sergipe, insituindo o dia 24 de outubro como “Dia da Sergipanidade” (LEI Nº. 8.601 DE 08 DE NOVEMBRO DE 2019. Institui o dia 24 de outubro como “Dia da Sergipanidade”. Disponível: https://al.se.leg.br/Legislacao/Ordinaria/2019/O86012019.pdf. Acesso em 23 out. 2025). Temos, atualmente, duas datas distintas, embora não excludentes: de emancipação (08 de julho) e da sergipanidade (24 de outubro).
Nessa data, 24 de outubro de 2025, vamos refletir com as sergipanidades e não necessariamente a sergipanidade. Proponho uma reflexão à dimensão plural, híbrida e não fixa. A abordagem dessa temática tem sido crucial e recorrente nos estudos sociais e culturais contemporâneos. Tendo como argumento central que as antigas identidades, que por muito tempo conferiram estabilidade ao mundo social, estão em declínio, gerando o surgimento de novas identidades, resultando na fragmentação do indivíduo, que antes era percebido como um sujeito unificado a partir de uma classificação identitária. A “crise de identidade”, denominada dessa forma, é vista como parte de um processo mais amplo de mudança que está deslocando as estruturas e processos fundamentais das sociedades, abalando os referenciais que costumavam ancorar os indivíduos de maneira estável no mundo social (Hall, 2006).
Essa perspectiva teórica pode ser constatada a partir da abordagem de Stuart Hall (2006), que desafiou as concepções convencionais sobre identidade ao propor uma visão dinâmica e multifacetada desse fenômeno. Ao longo de suas contribuições, Hall rejeita a ideia de identidade como fixa, intrínseca ou unificada. Sua abordagem analisa as mesmas como uma “celebração móvel” que redefine a compreensão tradicional do sujeito, destacando a natureza fluida e em constante transformação dessa construção social. Adota-se a desmistificação da noção de identidades fixas, coerentes e estáveis ao longo da vida, argumentando que essas são moldadas historicamente. Ao mesmo tempo, ilustra sua complexidade, ressaltando a presença de identidades contraditórias dentro de cada indivíduo, provocando uma diversidade de identificações ao longo do tempo.
De acordo com Benedict Anderson (1983), as nações são construções sociais e culturais que surgem da imaginação coletiva dos indivíduos. Ele define uma nação como uma comunidade política imaginada, porque mesmo em países pequenos, a maioria dos cidadãos nunca se conhece pessoalmente, mas mesmo assim se consideram parte de uma mesma comunidade, com uma ligação e identidade em comum. A “imaginação” que Anderson descreve não significa que a nação seja uma fantasia ou mentira, mas sim que ela é construída mentalmente pelos indivíduos, baseada em um senso de pertencimento e compartilhamento de valores, cultura e história. Ele argumenta que a ideia de nação é uma construção que surgiu a partir da convergência de eventos históricos, culturais e tecnológicos, e que essas comunidades imaginadas são cruciais para a organização política moderna, influenciando fortemente as identidades e os comportamentos sociais dos indivíduos.
Conforme Eric Hobsbawm (1997), a ideia de que muitas das tradições consideradas antigas e profundamente enraizadas na sociedade são, na verdade, construções recentes ou inventadas. Para os autores várias práticas culturais, rituais, símbolos e narrativas que são frequentemente percebidos como parte do patrimônio histórico de uma nação ou cultura foram, na verdade, fabricados ou reinventados em momentos específicos do passado recente para atender a necessidades políticas, sociais ou culturais. Portanto, muitas dessas tradições foram criadas ou revividas para fortalecer a coesão social, reforçar a identidade nacional, legitimar estruturas de poder ou promover certos valores e ideologias.
As identidades são constituídas por um conjunto diversificado de elementos, como lugares, práticas, objetos, conhecimentos, valores e crenças. Esses elementos estabelecem fronteiras simbólicas entre as pessoas e criam imagens de si mesmas e dos outros. No livro Identity Theory (2009) Peter J. Burke e Jane Stets discutem que a definição de identidade é delineada como um conjunto de significados que definem quem somos em diferentes papéis sociais, grupos aos quais pertencemos e características individuais. Nesse sentido, as teorias das identidades nas Ciências Sociais na contemporaneidade buscam explicar os significados específicos que os indivíduos atribuem às múltiplas identidades que reivindicam e como essas se relacionam entre si, como influenciam o comportamento, os pensamentos e os sentimentos individuais e como estão ligadas às estruturas sociais.
Essas reflexões teóricas podem ser adotadas em relação às questões identitárias quando se analisa a questão das sergipanidades. Podemos então perguntar o que é ser Sergipano(a)? Quais características das Sergipanidades? Qual(is) são a(s) identidade(s) sergipanas? Será que a ideia de sergipanidade é inclusiva de sua diversidade e representatividade cultural? Será que as Sergipanidades foram construídas, por exemplo, sem sofrerem influências das características étnicas e culturais da Bahia?
Pensar as sergipanidades a partir da noção de “identidades híbridas” é importante nesse contexto. Stuart Hall (2008) argumenta que, em uma era de globalização, as pessoas frequentemente experimentam identidades híbridas, que não podem ser reduzidas a uma única categoria. Essas identidades são complexas e incorporam elementos de diferentes culturas e influências. Elas são moldadas por múltiplas influências, incluindo cultura, história pessoal, linguagem, classe social, raça e gênero. Cada uma dessas influências desempenha um papel na formação da identidade de um indivíduo. A questão da identidade é um intricado mosaico de influências históricas, sociais, políticas e culturais que moldam a forma como indivíduos e comunidades se percebem e são percebidos. O estudo da construção da identidade, à luz das teorias contemporâneas, como as de Stuart Hall (2018), revela a natureza fluida, dinâmica e multifacetada desse fenômeno. É importante notar que a identidade de um povo não é estática e pode ser contestada, reinterpretada e reconstruída ao longo do tempo.
As identidades são, muitas vezes, subjetivas e estão enraizadas na ligação afetiva e cultural com Sergipe como um espaço geográfico, histórico e sociocultural. Envolve como nos percebemos e nos contruímos socialmente, em processo de interação entre as disposições internalizadas pela experiência social e as estruturas que condicionam a vida societária (Bourdieu, 2008). As Sergipanidades podem ser analisadas como um conjunto de características que nos diferenciam das demais culturas, podendo ser entendido como a representação dos traços distintivos da cultura sergipana, trazendo assim sigularidades e a relação especial que as sergipanas e sergipanos têm com sua terra e cultura.
As construções das identidades sergipanas se constituem em processos dinâmicos que refletem a complexidade da experiência humana e das interações sociais. Portanto, compreender as Sergipanidades implica reconhecer sua natureza dinâmica, influenciada por fatores históricos, culturais e sociais, e entendê-la como um processo contínuo de negociação e construção, em constante transformação à medida que os indivíduos e comunidades se envolvem na sua definição e redefinição ao longo do tempo.
Ao abordar a Sergipanidade como identidades plurais e não como uma segunda natureza, compreendemos que essa noção vai além de características geográficas ou históricas. É um conjunto complexo de narrativas, símbolos e práticas culturais que se transformam e se redefinem ao longo do tempo. Através de datas comemorativas, manifestações culturais e históricas, os sergipanos constroem e reconstroem suas identidades.
Enfim, os sentimentos de Sergipanidades podem ser comprendidos como contruções plurais, dinâmicas e híbridas, moldadas pela interações entre as sergipanas e os sergipanos, não-sergipanas e não-sergipanos, que cada vez mais, estão presentes na nossa sociedade com suas diversas experiências individuais e coletivas.
Ensaio elaborado para avaliação final na disciplina Identidades e Poder nas Ciências Sociais, ministrada pelo professor Dr. Frank Marcon no PPGS/UFS, a quem agradece pelas correções e sugestões.
* Mestra em Sociologia (UFS). Doutoranda em Sociologia pela UFS. Bolsista CAPES/MEC. E-mail: luccyaragao@academico.ufs.br
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