
Por Amâncio Cardoso*
Uma das mobílias domésticas mais utilizadas pelos brasileiros é a rede de dormir. Ela foi, e é, usada em quase todo território nacional. A rede indígena, de fibra natural ou tecido de algodão, foi assimilada pelos colonizadores, permanecendo em uso social com notável valor cultural.
O estudioso da cultura popular, Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), dedicou à rede de dormir farto e saboroso ensaio antropológico de 1959. O livro é pioneiro na investigação sistemática sobre o antigo utensílio, que, segundo Cascudo, “devia ser o ‘presente’ rico, oferenda típica, para estrangeiros curiosos de nossa etnografia tradicional”.[1]
No Brasil, o primeiro registro do velho mobiliário é o testemunho do escrivão da armada de Álvares Cabral (1467-1520). Ao descrever em sua carta ao rei as casas dos indígenas visitadas pelos tripulantes, em 27 de abril de 1500, Pero Vaz de Caminha (1450-1500) anotou que elas “tinham dentro muitos esteios, e, de esteio a esteio, uma rede atada pelos cabos, alta, em que dormiam”. As redes eram penduradas no alto para se livrarem de cobras e outros bichos.[2]

Família indígena e a rede de dormir, 1578. Fonte: Jean de Lery. História de uma viagem feita à Terra do Brasil
Os povos originários chamavam a rede de dormir de “ini”. O escrivão de Cabral chamou a ini dos indígenas de “rede” por ela ter malhas parecidas com a rede de pescar.[3] O verbete lusitano rede foi dicionarizado em 1789, como objeto de “tecido de malha com ramais, os quais se atam nos extremos de uma vara, ou a duas argolas, e fica como uma funda, na qual se deitam a dormir, ou são levados às costas de pretos, que sustem cada um no ombro o extremo de tal vara”. No Brasil do século XVIII, a rede já estava adaptada aos encargos da escravização.[4]
Agora vejamos alguns testemunhos que documentaram os diversos usos da rede de dormir em Sergipe, tornando-a importante símbolo mobiliário de identidade cultural.
Na segunda metade do século XVI, por exemplo, o utensílio aborígine foi também muito utilizado pelos primeiros habitantes da região entre os rios Real e São Francisco. Na carta sobre a missão jesuítica nas aldeias de Sergipe em 1575, escrita pelo padre Inácio de Tolosa (1533-1611), temos um precioso testemunho sobre o uso da rede.
Aquela missão foi liderada pelo experiente intérprete jesuíta Gaspar Lourenço (1539-1581) e auxiliada por João Salônio. Assim, no momento em que eles se encontraram, frente a frente, com o temido chefe indígena Surubi, que já havia combatido colonos e soldados da Bahia, foram recebidos sob certa tensão. Pois os jesuítas se postaram em pé diante dele, por longo tempo, e Surubi “estava deitado em sua rede sem falar-lhes uma só palavra”. No entanto, depois de algum momento, os padres foram bem recebidos. Vê-se que, desde os primeiros contatos, o mobiliário ameríndio era de antiga usança e serviu como uma espécie de trono daquele chefe sergipense.[5]
Além do uso para descanso, a rede também servia de repouso a pessoas enfermas. O viajante naturalista George Gardner (1812-1849), por exemplo, que esteve na Ilha de São Pedro em 1838, atual município de Porto da Folha, no baixo São Francisco sergipano, foi acometido de uma disenteria e febre. Nesta situação, ele relatou o seguinte: “Aqui fiquei preso a minha rede por cinco dias, durante os quais me senti tão mal, que perdi toda a esperança no restabelecimento”. O botânico escocês sentiu a iminência da morte na rede dos ancestrais do povo Xocó.[6]

Mulher transportada por escravizados africanos no Brasil Holandês. Fonte: Zacharias Wagner: Thier-Buch, Dresden, 1634–1641
Mais um exemplo de uso da rede por enfermo, ocorreu durante a visita à província de Sergipe em 1860 do imperador D. Pedro II; da imperatriz Tereza Cristina e de suas comitivas. Quando eles estavam na cidade de Laranjeiras, o l° oficial da Secretaria do Império, Dionízio da Cunha Ribeiro Feijó, foi acometido por uma grave febre. Ele então foi “carregado em uma rede” até um barco, acompanhado pelo médico. Assim, era usual a rede servir tanto de repouso para doentes quanto de meio de transporte para enfermos.[7]
Ademais, outro uso da rede foi o costume de carregar defuntos às sepulturas. Em nossa cultura, esse velho costume passou a ser associado às pessoas de baixo estrato social. Um exemplo foi relatado pelo médico e memorialista sergipano Edilberto Souza Campos (1883-1971). No cemitério de sua cidade natal, Lagarto, ele presenciou em 1891 “um enterro de pobre”.
Assim, Edilberto escreveu que “o defunto foi trazido numa rede pendurado horizontalmente num pau, aos ombros de dois homens descalços e sem chapéu, acompanhados de outros também descalços”. O mais curioso é que a rede do morto lagartense não foi sepultada com o corpo, mas “foi levada para servir em outras necessidades”, lembrou o cronista.[8]
Por falar na cidade de Lagarto, no centro-sul sergipano, lá era o lugar onde mais se fabricava redes de dormir no fim do século XIX até meados do século XX. Neste período, Lagarto, Simão Dias e Itabaiana eram centros produtores do velho móvel de tecido. Pois à época, a lavoura algodoeira e a indústria de fios de algodão se desenvolviam no Estado.[9] Neste sentido, o IBGE informou que “a indústria de redes de algodão [em Sergipe] produzira 4.280 unidades, em 1956”.[10]
Apesar de ser um bem de várias utilidades, o principal uso da rede é o repouso ou o cochilo restaurador. Tomemos, mais uma vez, um exemplo do já citado viajante Gardner, em sua estadia na Ilha dos Xocós, em 1838. Ele relatou que “os homens da aldeia se balançam em redes dentro de casa ou debaixo de alguma árvore”. E que “sob o grande zizyphus [juazeiro] diversas redes se suspendem todas as manhãs e raro ficam vagas”. Os Xocós de São Pedro perpetuavam, desse modo, o costume do uso da rede como na antiga aldeia de Surubi, registrado na carta de Tolosa.[11]
Outro viajante naturalista, o médico germânico de Lübeck, Avé-Lallemant (1812-1884), também esteve em Sergipe, mas no ano de 1859. Quando visitou o sertão do rio São Francisco, entre Sergipe e Alagoas, ele registrou que “é comum dormir-se em rede no sertão dado o medo dessa cobra [cascavel]”. O sertanejo também perpetuou a usança e a sensibilidade indígenas, respectivamente ao uso da rede de dormir e ao medo de bichos peçonhentos durante o sono.[12]
Além do médico de Lübeck, agora temos o testemunho de uma senhora de Hamburgo, que residiu em Maruim, no vale do Cotinguiba, Sergipe, entre 1858 e 1863. Trata-se de Adolphine Schramm (1826-1863), casada com um rico empresário do ramo de comércio internacional, sobretudo a exportação de açúcar.
Adolphine costumava passear por Maruim e observava costumes locais descritos em cartas aos parentes na Europa. Numa delas, a hamburguesa escreveu que seu marido, Ernst Schramm (1812-1882), se satisfazia, entre outras coisas, com uma rede de dormir “para seu bem estar material”, o que ela achou estranho para um homem rico europeu. Em outra carta, ela disse que viu “bonitas redes” na feira maruinense, mas as considerou “muito caras”. Parece que a econômica senhora não se adaptou facilmente à vida num país tropical com hábitos indígenas.[13]
Ainda no século XIX, muitos escravizados que fugiam do trabalho compulsório e de maus tratos nesse período levavam consigo objetos de sobrevivência leves e práticos. Portanto, alguns “fujões” partiram com a rede de dormir em sua posse. Este foi o caso, por exemplo, do jovem Mathias que fugiu da vila de Itabaiana, centro agreste de Sergipe, em 1844, levando “rede, lençol e surrão [bornal de couro]”. Com os dois primeiros pertences, ele teria um descanso e um sono mais confortável nas matas de Itabaiana, para onde certamente fugira.[14]
No entanto, um dos usos da rede de dormir mais inusitados, ou excepcionais, foi registrado em 1842 por “Um pai de família”. O anônimo denunciou ao Inspetor de Aulas da Província a professora primária de meninas de São Cristóvão, então capital da província, D. Ana Joaquina de Souza Coelho.
Segundo a denúncia, Dona Ana Joaquina tinha por costume ministrar aulas, em sua casa que servia de escola, “deitada em uma rede na sala de aula, em vez de assentada em uma cadeira”, enquanto aplicava chicotadas em uma menina sua escravizada. A acusação era dupla: desprezo pedagógico e “cruéis carnificinas” contra uma criança, conforme o delator anônimo.
Quanto à professora Ana Joaquina, ela oficiou ao inspetor que somente dava aulas na rede quando se sentia indisposta, ou no tempo em que estava grávida.[15]

Debret. Sábio trabalhando no seu gabinete no RJ, 1827. Acervo: Fundação Raimundo de Castro Maia, Rio de Janeiro
Passando para o século XX, encontramos outros testemunhos de usos da rede de dormir. Os irmãos sergipanos Gilberto (1887-1969) e Genolino Amado (1902-1989), primos do baiano Jorge Amado, também eram escritores e memorialistas.
Gilberto Amado, em “História da Minha Infância”, 1ª edição de 1954, lembra que se hospedou em um sítio próximo à cidade de Itabaianinha, no sul de Sergipe. Ao chegar a cavalo na propriedade, o anfitrião ofereceu “redes armadas no alpendre”. Mas o jovem escritor as desprezou, preferindo deitar-se em mantas no chão.[16]
Quanto a seu irmão Genolino, no livro “Um Menino Sergipano”, de 1977, não rejeitou o conforto da rede. Numa viagem com a família em 1908, de Itaporanga até Estância, em carros de bois, Genolino relembrou que eles pararam no meio da estrada para almoço. Logo depois de se fartarem, fizeram a sesta em “redes armadas” entre arvoredos. Esta cena, com certeza, marcou a memória afetiva do menino sergipano.[17]
Além da história e da memória, a literatura sergipana também documentou passagens em que a rede de dormir foi protagonista. O poeta nascido em Maruim-SE, Cleómenes Campos, por exemplo, escreveu o soneto “Onde a ventura mora”. Nele, o escritor mostra que a felicidade está na simplicidade, como numa rede de dormir. Ouçamo-lo uma estrofe: “Uma casa de palha à beira de uma estrada./ Dentro, um pote, um baú, uma rede e uma esteira/ Fora, dando alegria à casa, uma roseira./ Em torno, a solidão: a grande paz sonhada…”.[18]
Mas a rede de dormir era, e é, usada indistintamente por todas as classes sociais. Como registrou o poeta aracajuano João Freire Ribeiro (1911-1975), que escreveu um poema em 1957 intitulado “Cântico em Louvor da Rede de Dormir”. Em uma das estrofes, ele diz: “Nos lares humildes,/ na casa dos ricos/ as redes balançam/ inocentes meninos./ A mãe vai cantando/ o filho embalando/ canções mais suaves/ lembrando essas aves/ dos reinos de Deus!”.[19]
Saindo do poema para o romance, temos Os Corumbas, publicado em 1933 por Amando Fontes (1899-1967), cuja infância o autor passou em Aracaju. A obra de estilo realista conta a saga de uma humilde família do interior de Sergipe que migra para a capital do Estado, em que os filhos passam a trabalhar na indústria têxtil e ferroviária.
Em certo passo da obra, a filha mais velha do casal Corumba, Rosenda, estava dormindo “numa redezinha ‘trançada’, de fios brancos e vermelhos”. Pela manhã, sua mãe a despertou “da rede e sacudiu-a”, gritando: “- Avia-te, acorda! Já é mais de quatro e meia”. Rosenda deveria se levantar para trabalhar numa das fábricas de tecido, no Bairro industrial, em Aracaju. Vê-se que a rede de dormir também era móvel de descanso da família proletária.[20]
No imaginário popular, a rede de dormir tornou-se mobília associada à família desvalida. Talvez, esse preconceito seja por conta de sua origem indígena. Assim, a pessoa estaria na mais grave situação social se passasse a dormir no chão, por falta de uma rede ou de cama.
Um exemplo dessa imagem está expresso em quadras cantadas nas lúdicas folclóricas sergipanas – dança de São Gonçalo e canto das pescadoras de sururu – colhidas na segunda metade do século XX. Vejamos: “- São Gonçalo D’Amarante,/ feito de pau de alfavaca./ Quem não tem cama nem rede,/dorme no couro da vaca…”.[21] E tem essa variante: Lá em cima daquele morro/ Tem um pé de alfavaca/ O homem que não tem rede/ Dorme no couro da vaca.”.[22]
Vimos que a trajetória da rede de dormir em nossa História se inicia entre os povos originários, os tecelões da ini. Depois ela foi assimilada pelos portugueses, demais europeus e africanos que para aqui emigraram. Em seguida, foi associada ao repouso dos alpendres das casas grandes rurais; dos mocambos e do casebre do proletariado urbano. Há algum tempo, a rede também foi relacionada à mobília dos desvalidos. E mais recentemente virou móvel decorativo e utilitário para turistas hospedados em hotéis e pousadas, como signo de identidade regional.
Atualmente, os municípios da região sul de Sergipe concentram a fabricação de redes de dormir artesanais no Estado, sobretudo Estância, onde existem duas empresas no distrito industrial, às margens da BR-101. Naquela região e em Aracaju há considerável comércio de redes em lojas, nas ruas e nos mercados municipais. Eles atendem à ampla clientela e sobretudo aos turistas.[23]
Assim sendo, parafraseando o mestre Câmara Cascudo, “depois da farinha de mandioca a rede foi o primeiro elemento de adaptação, de acomodação, e de conquista do português”. Eu diria do brasileiro, especialmente do nordestino e mais intimamente do sergipano.[24]
*Historiador.
Referências:
[1] CASCUDO, Luís da Câmara. Rede de Dormir: uma pesquisa etnográfica. Rio de Janeiro: MEC, 1959. p. 13.
[2] CAMINHA, Pero Vaz de. Carta a El-Rei D. Manuel I sobre o achamento do Brasil. São Paulo: Martin Claret, 2002. p. 109.
[3] SAMPAIO, Teodoro. O Tupi na Geografia Nacional. 4. ed. Salvador-BA: Câmara Municipal, 1955. p. 220; CASCUDO, Luís da Câmara. Rede de Dormir. Rio de Janeiro: MEC, 1959. p. 167.
[4] BLUTEAU, Rafael, SILVA, Antônio de Morais. Dicionário da Língua Portuguesa. Lisboa: Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1789, v. 2. p. 302.
[5] FREIRE, Felisbelo. História de Sergipe (1575-1855). Rio de Janeiro: Typographia Perseverança, 1891. p. 11; SANTANA, Márcio Conceição de (Editor). A Carta de Tolosa: notícias de uma jornada evangelizadora. Aracaju: SEDUC, 2022. p. 41.
[6] GARDNER, George. Viagem ao interior do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1975. p. 71.
[7] GALVÃO, Manuel da Cunha. Viagem Imperial à Província de Sergipe. Bahia: Typographia do Diário, 1860. p. 92.
[8] CAMPOS, Edilberto. No cemitério de Lagarto. In MEDINA, Ana (Org.). Crônicas da passagem do século. Aracaju: Santa Marta, 2017. p. 479-480.
[9] SILVA LISBOA, L. C. Corografia do Estado de Sergipe. Aracaju: Imprensa Oficial, 1897. p. 105-112; FREIRE, Laudelino. Quadro corográfico de Sergipe. Rio de Janeiro: Garnier, 1898. p. 101-111.
[10] FERREIRA, Jurandyr Pires (Org.). Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. IBGE: Rio de Janeiro, 1959. p. 347.
[11] GARDNER, George. Viagem ao interior do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1975. p. 73.
[12] AVÉ-LALLEMANT, Robert. Viagens pelas províncias da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe: 1859. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1980. p. 313-314.
[13] SCHRAMM, Adolphine. Cartas de Maruim. Aracaju: UFS, 1991. p. 22-23.
[14] Correio Sergipense. São Cristóvão, 04 de maio de 1844, nº 537. p. 04.
[15] Carta de “Um pai de família”. Correio Sergipense. São Cristóvão, 12 de outubro de 1842, nº 391. p. 02-04; Correio Sergipense. São Cristóvão, 05 de novembro de 1842, nº 398. p. 01-02.
[16] AMADO, Gilberto. História da minha infância. São Cristóvão: EDUFS; Fundação Oviêdo Teixeira, 1999. p. 45.
[17] AMADO, Genolino. Um menino sergipano. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. p. 56.
[18] CAMPOS, Cleómenes. Onde a ventura mora. In ARAÚJO, Acrísio Torres. Literatura Sergipana. Aracaju: Imprensa Oficial, 1972. p. 85.
[19] RIBEIRO, J. Freire. Cântico em louvor da rede de dormir. In CASCUDO, Luís da Câmara. Rede de Dormir: uma pesquisa etnográfica. Rio de Janeiro: MEC, 1959. p. 197-198.
[20] FONTES, Amando. Os Corumbas. 23. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999. p. 15.
[21] DÉDA, José de Carvalho. 2. ed. Brefáias e Burundangas do folclore sergipano. Maceió: Edições Catavento, 2001. p. 129.
[22] MARQUES, Núbia. O luso, o lúdico e o perene, e outros ensaios. Rio de Janeiro: Imago, 1999. p. 121.
[23] Disponível em: ttps://www.econodata.com.br/. Acesso em: 07/03/2026.
[24] CASCUDO, Luís da Câmara. Rede de Dormir: uma pesquisa etnográfica. Rio de Janeiro: MEC, 1959. p. 23.
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