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16 de março de 2026
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Perímetro Irrigado Frei Enoque: o legado de fé, técnica e desprendimento no sertão

Por Carlos Hermínio de Aguiar Oliveira (*)

Frei Enoque Salvador de Melo (1942–2026)

O sertão silenciou neste 13 de março. Com a partida de Frei Enoque Salvador de Melo, aos 84 anos, encerra-se a jornada de um gigante que transformou a piçarra seca em esperança. Para entender o frade que desafiou poderosos, é preciso voltar ao menino de Cachoeirinha, Pernambuco, nascido em 1942. Ele cresceu na pobreza digna do bairro Mocambo, em Recife, numa casinha de madeira sustentada pelo suor de sua tia Maria José.

Desde cedo, Frei Enoque foi talhado pelo desprendimento absoluto. No Colégio Diocesano de Garanhuns, enfrentou o dilema entre o sonho materno da Medicina e o seu próprio chamado pelo Direito — o desejo de advogar pela justiça. Mas o destino reservava o hábito franciscano e o solo de Sergipe, onde chegou em 1970 para provar que a fé não cabe apenas dentro das igrejas; ela deve caminhar no sol a pino, ao lado do camponês.

Minha convivência com ele remonta às frentes de trabalho do Ministério do Interior, sob a gestão de Mario Andreazza. Designado Coordenador Geral pela Codevasf, senti de perto seu senso crítico agudo. Enoque não tinha “papas na língua”. Foi a mãe do nosso dedicado técnico que atuava em Poço Redondo, o Mané de Rozinha — que posteriormente viria a ser o prefeito de Porto da Folha —, quem ouviu em uma missa dominical o Frei fustigar o descaso com as obras.

​Diante do alerta, fomos buscá-lo e percorremos todas as frentes de trabalho. Ao final da inspeção, com o ceticismo que lhe era peculiar, ele sentenciou: “Doutor Hermínio começou bem, mas serei vigilante nas ações, quero resultados”. Ele nunca fez nada para benefício próprio; sua vigília era exclusivamente pela dignidade do próximo. É esse desprendimento que precisamos imortalizar.

É justo reconhecer as obras estruturantes da época, como o Programa Chapéu de Couro e as adutoras, marcas da gestão de João Alves Filho, assim como o Projeto Califórnia. No início dos anos 90, um marco técnico fundamental foi atingido: as duas tomadas d’água na ombreira direita da barragem de Xingó. Tenho a satisfação de ter sido o autor dos estudos que originaram essas tomadas, juntamente com o competente engenheiro agrônomo Pedro Lessa. Foi esse trabalho que permitiu ao governo convencer a CHESF a construir as estruturas que hoje são a espinha dorsal da irrigação sertaneja.

Localização do Projeto Jacaré-Curituba, região semiárida de Sergipe

Posteriormente, em 1998, como Superintendente Regional da Codevasf, lancei os estudos de pré-viabilidade para o aproveitamento das águas de Xingó. No entanto, no Jacaré-Curituba, a alma social é inteiramente de Frei Enoque. Em aliança com o governador Albano Franco e o MST, ele transformou o modelo empresarial no primeiro assentamento de reforma agrária irrigado do país. É histórica a cena de suas alpercatas de couro entrando no Palácio do Planalto após autorização direta de Fernando Henrique Cardoso, garantindo a terra e a água para mais de 600 famílias.

A própria denominação do perímetro é fruto dos estudos do Jacaré/Curituba que também tive a responsabilidade de coordenar ao lado de Pedro Lessa. O nome deriva da toponímia dos riachos locais identificados em nossos levantamentos de solo, corrigindo o termo “Curitiba” que frequentemente aparece por equívoco. Em 2025, visitei o Frei em sua residência em Poço Redondo, uma tarde lúdica e memorável. Eu estava na região a convite do amigo Roberto Araújo, atual superintendente do MDA/SE, para ser palestrante em uma conferência do Território do Alto Sertão.

Guardo com carinho as memórias daquela conversa. Recentemente, em dezembro de 2025, ele recebeu a Medalha Velho Chico em sua casa. Tive a honra de receber essa mesma honraria em dezembro de 2024, em Petrolina, reconhecendo nossas décadas de dedicação ao Rio São Francisco. Através deste texto, oficializo perante o atual Superintendente Regional da Codevasf em Sergipe, Mário Dias, a proposta de renomear o projeto Jacaré/Curituba para Perímetro Irrigado Frei Enoque.

Esta iniciativa deverá contar com o respaldo unânime do Distrito de Irrigação do Jacaré-Curituba e dos membros do Colegiado do Território do Alto Sertão, que se sentirão honrados com este tributo. Que a morte do Frei sensibilize as autoridades estaduais, federais e parlamentares para que implantar o Canal de Xingó seja assumido como a obra prioritária e inadiável para o semiárido. Renomear este chão e trazer a água definitiva são os únicos atos capazes de imortalizar o homem que nada quis para si e tudo deu ao sertão.

*Ex-superintendente regional da 4ª SR da Codevasf, e atual representante dos empregados no Conselho de Administração da Codevasf.

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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