

Por Amâncio Cardoso*
Os bondes foram os primeiros veículos urbanos modernos do Brasil desde o século XIX. Em Sergipe, Aracaju foi a única cidade a possuir o velho transporte. Os primeiros eram puxados por burros, e funcionaram em nossa capital entre 1908 e 1926. E deste último ano até 1950, a força motriz dos bondes passou a ser por condução elétrica. No entanto, neste texto, abordaremos apenas o período de quando os vagões eram puxados por tração animal pelas ruas aracajuanas.
Através de fontes de época, percorreremos a cidade quando era vincada por trilhos e vagões puxados por burros. Desta forma, examinaremos a etimologia do termo bonde; as linhas e itinerários; a primeira crise da concessionária; a empresa de bonde na imprensa; os acidentes e queixas dos passageiros; a situação dos muares; a greve dos funcionários; a valorização dos imóveis por onde corriam os trilhos; as mudanças nos usos e costumes; a estatização da empresa; e, por fim, a troca dos bondes de tração animal pelos de tração elétrica.
O termo bonde originou-se no Brasil a partir da palavra inglesa “bond”, que significa cupons de obrigação ou título de dívida. A alteração semântica originou-se em 1868, quando se associou os bonds emitidos pelo Ministério da Fazenda aos bilhetes de passagem dos vagões da Botanical Garden, companhia inglesa que explorava o transporte no Rio de Janeiro. A empresa confeccionou cupons, nos quais vinham estampadas a palavra bond e a figura do vagão. A população então passou a chamar o veículo de bond, ou bonde, aportuguesando. Assim, houve extensão de sentido: do título de dívida para o cupom de passagem; e do cupom para designar o veículo.[1]
Em 24 de outubro de 1908, Aracaju iniciou oficialmente o tráfego de bondes puxados por dois burros. O novo meio de transporte foi anunciado em versos por um jornal: “Agora sim, não há dúvida,/ Temos bonds na cidade./ Da Fundição ao Tecido/ Na maior velocidade./ Vamos gastar nosso arame [dinheiro]/ Em tão útil novidade”. A “Fundição” situava-se na região sul da cidade, próxima à Capitania dos Portos, onde se localizava a fundição Smith. E o “Tecido” corresponde ao atual bairro Industrial, onde se localizavam duas fábricas têxteis (Confiança e Sergipe Industrial).[2]
A empresa concessionária era a Carris Urbanos de Aracaju. Os vagões tinham 05 bancos para 04 passageiros sentados. Eles foram comprados de segunda mão na cidade de Salvador. Por isso, vários testemunhos confirmaram o mau estado de conservação, além da falta de asseio dos veículos. Anos depois, esse material continuava precário.[3]
Logo após a inauguração dos bondes, os jornais passaram a noticiar a novidade. Um exemplo foram os seguintes versos jocosos: “Bonds teremos à farta. Pois já correu um cantinho;/ O povo entusiasmado. Vai deixando um nikelzinho,/ Andando de dia e noite, ao pru, pru, pru, dos burrinhos”.[4] A onomatopeia no último verso diz respeito ao barulho dos cascos das patas dos muares nas ruas de pedra por onde corriam os trilhos.
A extensão inicial das linhas era de 08 Km. O primeiro trecho teve o seguinte itinerário: da porta do palácio presidencial (atual Olímpio Campos), fazia uma curva em frente à repartição dos telégrafos (face sul da praça Fausto Cardoso), dobrava a esquina do Hotel Brasil (atual Assembleia Legislativa), e terminava em frente ao trapiche Pohlman (próximo à Capitania dos Portos), de onde voltava, e passava em frente à ponte do Governador (atual do Imperador), atravessava a rua da Aurora (trecho da atual av. Rio Branco) e ía até a Alfândega (atual Centro Cultural de Aracaju).[5]
Para ampliar a linha na direção sul, a Carris comprou novos trilhos na Bahia. Essa linha foi a do “bairro Fundição”, localizada após a Capitania dos Portos, na atual avenida Ivo do Prado, inaugurada em março de 1909. Foi preparado também um ramal em direção ao cemitério Santa Isabel, ao norte. Por isso, mais dois bondes foram comprados na Inglaterra, e outros dois fabricados nas oficinas da Linha Circular da Bahia.[6]
A Carris Urbanos, cuja razão social era Barreto, Bitencourt, Cardoso & Cia., parecia fluir. Porém, entre maio e junho de 1909, surgiram graves desentendimentos entre os três sócios. De um lado, José Cardoso e Antônio Batista Bitencourt, acusavam o sócio solidário, Lafayete Barreto Pinto filho do engenheiro e ex-diretor da Carris, Irineu Barreto Pinto, de não ter concorrido com sua importância das ações subscritas e de ter “arrogado a si” toda a gerência da sociedade, excluindo os outros dois sócios, por influência de seu pai.
Em contrapartida, dr. Irineu e o filho/sócio, Lafaiete, acusavam Cardoso e Bitencourt de esconderem documentos comprobatórios durante sua ausência por viagem e de não cumprirem itens dos Estatutos da Carris. A crise interna estava instalada. Até a sede original registrada na Junta Comercial, na rua da Aurora nº 36, onde funcionava também a casa de ferragens do sócio José Cardoso, foi realocada por Lafayete para outro endereço, na mesma rua nº 27, à revelia de seus sócios.
Em resumo, Irineu e Lafayete (pai e filho) foram acusados de ter levado a empresa à falência, embora tivessem recebido mais de 60 contos de réis, “por conta de sua cota de capital e adiantamento das ações que subscrevessem”.[7]
Neste sentido, foi movida ação judicial contra o pai e o filho, em que os sócios suplicantes, Cardoso e Bitencourt, alegavam que Lafayete além de não contribuir com sua cota de capital, desviara 18 contos de réis; e que também rompera relações com seus consócios, se arvorando gerente único da empresa, deixando de recolher ao caixa “as receitas do tráfego”.
Além disso, Lafayete teria nomeado um outro guarda-livros (contador) para escrever os negócios da sociedade “em livros que não são os dela”. Pois o guarda-livros original, Cypriano Correia Duarte, havia concluído em balancete que dr. Irineu subtraíra 38 contos de réis, e que por isso deveria explicar essa falta “nos tribunais”. Desse modo, os suplicantes pediam ao Juiz rescisão do contrato com o filho/sócio, Lafayete, condenando-o a pagar-lhes os valores devidos e alegados.[8]
Por conseguinte, dr. Carlos Alberto Rolla, advogado de Miranda Souza & Cª, empresa de Recife e uma das credoras da Carris Urbanos, requereu a falência da empresa. Sendo assim, uma semana depois, o juiz de direito da Comarca de Aracaju declarou a falência da Carris, nomeando como síndicos, para gerir a massa falida, os senhores Sabino José Ribeiro, Alcino Barros e Juvenal Batista de Santana. Logo após o ocorrido, O Espião, jornal satírico da época, sapecou a notícia em versos: “De luto moças e velhas,/ De luto toda a regência,/ Que a nossa querida empresa/ Já declarou a falência”. A “regência” no segundo verso alude aos diretores da Carris.[9]
Mesmo com a crise instalada entre os regentes, os negócios na empresa não pararam. Uma semana depois de decretada a falência, por exemplo, os síndicos convidaram empresas para concorrerem à construção da nova linha do Matadouro de Aracaju, inaugurada em maio de 1909; ao tempo em que foi ampliada a linha para o “arrabalde Chica Chaves”, atual bairro Industrial, aterrando o local para receber os trilhos.[10]
Embora a empresa cumprisse o contrato de ampliação das linhas, a imprensa e a população reclamavam a chegada dos bondes em áreas habitadas, mas ainda não contempladas. A exemplo das ruas Itabaiana, Arauá, Itaporanga e Estância, que davam acesso à Tebaidinha, onde se localizava a recente igreja Salesiana, ainda existente.
A ampliação dessas linhas era só questão de tempo, ela acompanharia o crescimento demográfico da capital. Um exemplo é a solicitação de linha para Estrada Nova até o Santo Antônio, passando pelo cemitério Santa Isabel. Por conta dessa necessidade de expansão, a empresa comprou no Rio de Janeiro mais bondes e um vagão para cargas entre 1909 e 1911.[11]

Bonde a burros passando pela praça Fausto Cardoso, 1922. O Malho. Rio de Janeiro, 18 de novembro de 1922, nº 1.053, p. 26.
Voltando ao caso da falência, com o êxito das ações dos síndicos, os sócios suplicantes logo apresentaram proposta de concordata para pagamento integral dos credores. Assim, o processo de falência “terminou por um acordo” em julho de 1909, retornando à posse da empresa apenas os sócios Cardoso e Bitencourt. Quanto a Lafayete Barreto, ele foi excluído da sociedade, mesmo depois de interpor embargos à concordata.
Assim, os sócios José Cardoso e Antônio Batista Bitencourt declararam em público a “liquidação de todos os negócios” entre eles e Lafayete; além de seu pai, o engenheiro Irineu Barreto Pinto, pivô da discórdia. Ademais, à razão social da empresa foi acrescida a palavra “Companhia” Carris Urbanos. Em seguida, Lafaiete e sr. Irineu retornaram para o Rio de Janeiro, de onde eram naturais.[12]
Desde o início da Carris que ela vinha sendo objeto de notícias nos jornais. O Correio de Aracaju, por exemplo, mantinha uma coluna sobre bondes desde novembro de 1908. Nela, dois amigos se encontravam dentro do vagão para fazer comentários críticos e chistosos contra autoridades e cidadãos. Eles iniciavam os diálogos com “Para o bonde” e encerravam com “Siga o bonde…”.
Outro jornal, O Espião, especializado em humor ácido, também mantinha uma coluna chamada “Através dos Bonds”, em que dois rapazes bisbilhotavam a vida alheia com diálogos satíricos sobre ocorrências na Carris e nos bondes.[13]
As críticas à empresa eram revestidas de queixas diversas nas folhas impressas. Seja a solicitação de uma “comissão de pessoas caritativas” contra violentas chicotadas nos muares que puxavam os vagões; ou o pedido da supressão da “linguagem áspera com que alguns condutores” costumavam tratar os passageiros; ou até mesmo o fato recorrente de o condutor não parar o bonde quando passageiros na rua lhe acenavam; ou ainda a reclamação mais frequente: o não recebimento de troco, por falta de dinheiro trocado do condutor.[14]
Diante dos maus tratos contra os animais, pois eram magros e mal alimentados, outro jornal satírico, A Rua, publicou em versos uma greve dos muares em 1911 por melhor alimentação. Somente após o ato grevista, os bichos alcançaram o pleito. Leiamos: “Foi então que houve greve/ Entre os burros da Carris/ Que clamavam contra a boia/ Que a empresa dar-lhes não quis/ Vieram de Laranjeiras/ Como pra grande festim/ Duzentos feixes de cana/ Dez arrobas de capim”.[15]
O tom sarcástico não parava de ser publicado nas gazetas. O jornal O Espião, por exemplo, criticou com galhofa a pouca higiene dos carros funerais. Lia-se numa nota: “Aquele carro fúnebre, sociedade Carris Pitanga & Panos Velhos, merece um reparo. Será possível?! Pois todo dia morre gente, variam os defuntos e só aquela coisa não muda! Desinfecte ao menos seu Pitanga, desinfecte”. Senhor Pitanga era em 1909 o condutor do carro funeral da Carris Urbanos.[16]
Apesar do escárnio, os funerais levados em bondes foi uma mudança substancial nos usos e costumes da capital. Pois empresas funerárias passaram a oferecer bondes para levar até o cemitério féretros e familiares das classes mais afortunadas.
Tomemos alguns exemplos desse serviço. A família do comerciante e salineiro José Rodrigues Bastos Coelho foi “em romaria, em bonde especial” até o cemitério Santa Isabel depositar flores em seu túmulo, em maio de 1909. Já o enterro do desembargador Homero de Oliveira Ribeiro (1858-1910), ex-presidente do Tribunal da Relação de Sergipe, também foi acompanhado por um “carro funerário e grande número de bondes para os convidados”, em dezembro de 1910. E quanto ao féretro do médico do hospital de caridade Santa Isabel, Francisco de Barros Pimentel Franco (1879-1922), foi levado no bonde funerário, acompanhado por “cinco bondes especiais e muitos automóveis”, em abril de 1922, até a estação de trem “Chemins de Fer” de Aracaju, com destino a Laranjeiras, de onde o falecido era natural.[17]
Aliás, além de acompanhar cortejos fúnebres, os chamados ‘bondes especiais’ também eram usados em outras ocasiões protagonizadas pela elite da cidade. Em uma ocasião, por exemplo, oito bondes especiais foram contratados, em abril de 1911, para o casamento da filha do abastado negociante Manoel Teixeira Chaves, sócio do padrinho da noiva, Sabino Ribeiro. Os dois fundaram a fábrica de tecidos Confiança, e o segundo foi síndico da massa falida da Carris Urbanos.[18]
O bonde especial também era usado nas recepções de autoridades. A exemplo da recepção a Josino Meneses (1866-1939), ex-governador do Estado (1902 a 1905) e ex-deputado federal (substituíra o falecido Fausto Cardoso em 1906). Josino veio do Rio de Janeiro em agosto de 1909, após concluir seu mandato na Câmara; desembarcou do paquete na Alfândega de Aracaju e tomou um bonde especial até sua residência na rua da Aurora, onde o aguardavam “numerosa comitiva, um grande número de senhoritas e membros de sua família”.[19]

Bonde de tração animal passando pela rua Japaratuba, Aracaju, 1920. Renascença: revista ilustrada. Bahia, nº 65, novembro de 1920, p. 18.
Um momento inusitado enfrentado pela Carris Urbanos ocorreu em abril de 1911. Os funcionários declararam greve, em protesto contra a prisão de um condutor que fora acusado de ter “maltratado com chicote uma criança” que andava no bonde. “Todos os empregados da Companhia”, pacificamente e liderados pelo chefe do tráfego, Antônio Pedro de Aquino, decidiram que só retornariam ao trabalho após a liberdade do colega.[20]
O movimento teve relativo êxito, pois no dia seguinte o acusado foi solto e, “lentamente”, recomeçou o tráfego dos bondes. Porém, após aviso sobre a greve à polícia por um dos membros da diretoria da Carris, o líder Antônio Pedro foi detido. Ele e o cocheiro chicoteador foram demitidos da empresa; os bondes foram policiados e o local das baias da companhia foi “guardado por força armada à carabina”. Segundo um jornal, a polícia agiu com toda “prudência e energia”.[21]
Com o retorno imediato dos bondes e o aumento da mobilidade urbana, houve uma relativa valorização imobiliária nas áreas que eram contempladas pela passagem dos veículos. O Hotel Brazil, por exemplo, localizado na esquina da rua da Aurora com a praça do Palácio, onde hoje funciona a Assembleia Legislativa, publicou anúncios sobre seus serviços e acentuou que em sua porta está um “ótimo ponto de bondes para todos os ramais da Carris Urbanos”.[22]
Já a concorrente “Pensão Familiar São José”, também situada na rua da Aurora, anunciou, com letras garrafais, que tinha “bonde à porta para todas as linhas”. E o cinema que funcionava em 1911 dentro do teatro Carlos Gomes (depois Cine Rio Branco), também divulgou “bondes para todas as linhas”.
Algo semelhante aconteceu com a venda de imóveis na capital. Entre 1919 e 1922, proprietários de residências nas ruas Barão de Maruim, Propriá e estrada para Santo Antônio (atual avenida João Ribeiro) anunciaram que tinham “bonde à porta” como chamariz para valorização dos bens. O mesmo ocorreu com a venda de um sítio. O proprietário acentuou no anúncio que o imóvel ficava “distante 10 minutos, a pé, do bonde de Santo Antônio”, cuja parada era ao sopé da colina.[23]

Antônio Bitencourt, um dos sócios diretores da Carris Urbanos. O Malho. Rio de Janeiro, nº 1.087, julho de 1923, p. 34.
Mas os bondes puxados por burros não animavam apenas a venda de imóveis, eles também participavam dos eventos de celebração e festas do Aracaju de antanho. Na festa de Bom Jesus dos Navegantes de 1910 e 1911, por exemplo, uma das mais tradicionais da capital, foram disponibilizados “bondes a partir da praça de Palácio [do governo] ao [cemitério] Santa Isabel, até a volta da procissão”.[24]
Apesar de participar de momentos memoráveis da cidade, os bondes movidos por muares também se envolviam em acidentes. Um dos primeiros sinistros ocorreu em dezembro de 1908, dois meses após a instalação dos bondes. No fim da tarde de um domingo, um vagão da Carris “apanhou um rapazito, (…), machucando-o bastante sob suas rodas”. O cocheiro José Faustino “não pode evitar o desastre” que causou “profunda impressão no espírito público”. A polícia deteve o cocheiro para “proceder com as diligências legais”. A implantação de modernas inovações, às vezes, custa muito alto para a sociedade.[25]
Já em 1911, em vez de um transeunte, o acidente feriu um dos passageiros que estava no bonde. A nota de jornal dizia: “o bonde nº 2 virou em frente da casa do desembargador Caldas Barreto (1871-1928). Dos dois passageiros que conduzia, um, o dr. Costa Valente, sofreu uma luxação no artelho e na perna direita”.
O passageiro acidentado foi levado até a casa do desembargador e socorrido pelo dr. Berilo Leite (1878-1952). Conforme a nota, o “desagradável incidente” foi motivado porque um dos animais que puxava o bonde teria “mergulhado uma das pernas num cano de esgoto” que saía de uma casa vizinha à do desembargador.[26]
Em novembro de 1922, o governador Graccho Cardoso (1874-1950) afirmou que os descarrilamentos e acidentes com os velhos bondes puxados por burros em Aracaju seriam provocados, em grande medida, pela “negligência dos cocheiros e condutores”. Ele pediu, por isso, que o Secretário Geral do Governo “chamasse a atenção” do diretor da então Viação Urbana.[27]
A Carris Urbanos passou a se chamar Viação Urbana, a partir de 09 de maio de 1919. Desde então, o governo assumiu o serviço, estatizando a empresa. Ao tempo em que projetou, em 1920, o tráfego para bondes elétricos, efetivado seis anos depois.
O Estado adquiriu a Carris com má conservação do material rodante e de linhas. Os motivos principais alegados para a aquisição foram o não cumprimento de horários dos bondes e número insuficiente de veículos para tráfego. Apesar de tudo, a empresa era muito útil para a cidade, pois no segundo semestre de 1916, por exemplo, pouco mais de 352 mil pessoas utilizaram os bondes puxados a burro. Número expressivo para uma população de cerca de 40 mil habitantes.[28]
Três anos após à estatização, o serviço a cargo da nova Viação Urbana parecia melhorado. Conforme relato oficial, o material fixo e rodante foi remodelado; novos muares foram comprados; as oficinas atendiam às demandas; a empresa obteve superávit, ou seja, a saúde financeira era positiva. Contudo, pouco antes da aquisição pelo Estado a Carris esteve envolta por vários problemas, tais como paralisação do serviço, intervenção policial e agressões entre agentes públicos e acionistas da companhia.
A solução encontrada para esses problemas foi a venda e cessão dos direitos da Carris ao Estado com vistas ao “bem público”, afirmou o presidente Pereira Lobo (1864-1933). As principais mudanças na nova Viação Urbana foram a remodelação do depósito dos bondes, situado na rua da Estrada Nova (atual João Ribeiro); construção de galpões para baias dos muares e de oficinas de marcenaria, carpintaria e selaria; reforma e construção de linhas, a exemplo da linha do cemitério ao Santo Antônio; além de reparos e asseios dos bondes.[29]
O número de muares era de oitenta e nove. “A maioria imprestáveis”, declarou o governador em mensagem à Assembleia em 1920. Nessa época, o serviço de tração animal estava projetado para ser extinto. Já se pensava na transição para tração elétrica. Os maiores entraves para continuar com os muares eram: falta de forragem e seu encarecimento, e o areal da maioria das ruas de Aracaju. Desta forma, o governador Pereira Lobo encomendou dados e a confecção de um projeto de viação elétrica a empresas europeias: Companhia Suíça; Siemens e Westinhouse.[30]
A partir de então, o fim do bonde puxado por burros estava iminente. O que ocorreu em 1926, no governo seguinte de Graccho Cardoso, pois as demais capitais já usavam a nova tecnologia de tração elétrica. Aliás, Aracaju foi a última capital a despachar os bondes puxados por muares, popularmente chamados de “caixinhas de fósforo” ou “arranca bofes”, por serem pequenos, apertados e sacolejantes, como está registrado em relatório oficial de 1925.[31]
Nos últimos dias dos “Arranca Bofes”, o material rodante era composto por 09 carros de passageiros; 03 especiais; 02 estavam fora do tráfego por defeito; 01 usado para transporte de carne do matadouro; mais 01 para serviço funerário e 02 troles para transporte de carga. Mas todo esse material precisava de “conservação e asseio”.
Nesse período, além da substituição dos bondes a burro por elétricos, Aracaju passava por uma reforma modernizante, sobretudo com investimentos de capital privado, como a iluminação por energia elétrica; abastecimento de água encanada, construção do novo mercado, do matadouro modelo, do Hospital de Cirurgia, do Instituto Parreiras Horta, abertura e calçamento de ruas, etc.[32]
Portanto, é neste cenário das primeiras décadas do século XX que os bondes puxados por muares se despediram de Aracaju bem devagar, no compasso dos esquálidos burrinhos, deixando saudade nos moradores, conforme registrou liricamente Jacintho de Figueiredo (1911-1999): “Os bondinhos de burro … – que poesia …/ ‘Fundição’, ‘Santo Antônio’, ‘Circular’ …/ Tempo feliz aquele! Não havia/ Essa pressa da hora de chegar! …”.[33]
*Historiador-IFS
Referências:
[1] Bonde. Disponível em: <http://www.aulete.com.br/bonde>. Acesso em: 10 de setembro de 2015.
[2] As fábricas de tecido eram: Sergipe Industrial (1884) e Confiança (1908). Folha de Sergipe. Aracaju, 01 de outubro de 1908, nº 142, p. 03.
[3] MORRINSON, Allen. “The Tramways of Aracaju”. Disponível em: <http://www.tramz.com>. Acesso em: 20 agosto de 2015; PEREIRA LOBO, José Joaquim. Mensagem apresentada à Assembleia Legislativa. Aracaju, 07 de setembro de 1919. p. 81-85; GRACCHO CARDOSO. Mensagem apresentada à Assembleia Legislativa. Aracaju, 07 de setembro de 1923. p. 30.
[4] Folha de Sergipe. Aracaju, 05 de novembro de 1908, nº 152, p. 02.
[5] Carris Urbanos. Correio de Aracaju, 29 de outubro de 1908, nº 203, p. 01; Linha de bondes. O Estado de Sergipe. Aracaju, 24 de outubro de 1908, nº 2.930, p. 03.
[6] Correio de Aracaju, 26 de novembro de 1908, nº 211, p. 02; Folha de Sergipe. Aracaju, 07 de março de 1909, nº 184, p. 02; Correio de Aracaju, 21 de fevereiro de 1909, nº 235, p. 02; Correio de Aracaju, 11 de fevereiro de 1909, nº 232, p. 02.
[7] O Estado de Sergipe. Aracaju, 08 de outubro de 1910, nº 3392, p. 04; Correio de Aracaju, 06 de maio de 1909, nº 255, p. 03.
[8] Correio de Aracaju, 20 de maio de 1909, nº 259, p. 03; Correio de Aracaju, 09 de maio de 1909, nº 256, p. 03.
[9] O Espião. Aracaju, 06 de junho 1909, nº 47, 02. Bitencourt e Cardoso denunciaram e se defenderam nos jornais da “manobra” financeira que Lafayete teria feito a partir de um empréstimo tomado a Miranda Souza & Cª, do Recife. Eles acusaram Lafayete de se apoderar das receitas do tráfego e gastar a sua vontade; de se arvorar em tesoureiro, secretário e único proprietário e de contrair empréstimos simulados. Eles alegaram também que dr. Irineu usou o filho como testa de ferro para aplicar nos sócios o “mais estupendo e colossal dos contos do vigário que ainda houve nesta terra”. Um pseudônimo Marcus desvelou por um jornal toda a trama do “conto do vigário” aplicado por Irineu aos sócios solidários e acionistas da Carris, usando seu filho como “testa de ferro”.
[10] Correio de Aracaju, 30 de maio de 1909, nº 262, p. 02; Correio de Aracaju, 06 de junho de 1909, nº 264, p. 02; Correio de Aracaju, 24 de junho de 1909, nº 269, p. 03; Correio de Aracaju, 10 de junho de 1909, nº 265, p. 03; Correio de Aracaju, 13 de junho de 1909, nº 266, p. 03.
[11] A linha do Chica Chaves (bairro Industrial) foi inaugurada em setembro de 1909. Em janeiro de 1910, inaugurou-se o trecho que ligava as ruas Itabaiana e Arauá. E em março de 1910, inaugurou-se a linha que percorre a avenida Barão de Maruim até a rua de Arauá. Correio de Aracaju, 09 de março de 1910, nº 370, p. 02; Correio de Aracaju, 26 de janeiro de 1910, nº 353, p. 03; Correio de Aracaju, 19 de setembro de 1909, nº 297, p. 02. Correio de Aracaju, 18 de julho de 1909, nº 276, p. 02; O Espião. Aracaju, 16 de maio de 1909, nº 44, p. 03; O Espião. Aracaju, 25 de julho de 1909, nº 04, p. 02.
[12] Em janeiro de 1911, houve aquisição de mais dois bondes e sugestão de prolongamento das linhas para o “aprazível bairro Santo Antônio”. Folha de Sergipe. Aracaju, 29 de julho de 1909, nº 224, p. 03; Correio de Aracaju. Sergipe, 01 de janeiro de 1911, nº 497, p. 02. Correio de Aracaju, 27 de maio de 1910, nº 410, p. 02; Correio de Aracaju, 11 de julho de 1909, nº 274, p. 02; Correio de Aracaju, 01 de julho de 1909, nº 271, p. 02-03; Correio de Aracaju, 17 de junho de 1909, nº 267, p. 03; Correio de Aracaju, 29 de julho de 1909, nº 279, p. 02.
[13] Correio de Aracaju, 22 de julho de 1909, nº 277, p. 02; O Espião. Aracaju, 07 de março de 1909, nº 35, p. 02 e 04; O Espião. Aracaju, 20 de junho de 1909, nº 49, p. 01.
[14] Correio de Aracaju, 19 de novembro de 1908, nº 209, p. 01; O Espião. Aracaju, 12 de janeiro de 1909, nº 31, p. 03;
[15] Correio de Aracaju, 26 de março de 1909, nº 244, p. 02; Diário da Manhã. Aracaju, 05 de março de 1911, nº 26, p. 02; A Rua. Aracaju, 21 de maio de 1911, nº 07, p. 02; A Rua. Aracaju, 16 de julho de 1911, nº 14, p. 02; Correio de Aracaju, 27 de setembro de 1911, nº 605, p. 03.
[16] O Espião. Aracaju, 11 de abril de 1909, nº 40, p. 01-02.
[17] Correio de Aracaju, 16 de maio de 1909, nº 258, p. 03; Correio de Aracaju. Sergipe, 21 de dezembro de 1910, nº 496, p. 01; Correio de Aracaju, 25 de abril de 1922, nº 3402, p. 01.
[18] Diário da Manhã. Aracaju, 04 de abril de 1911, nº 50, p. 01; O Estado de Sergipe. Aracaju, 04 de abril de 1911, nº 3530, p. 01.
[19] Folha de Sergipe. Aracaju, 08 de agosto de 1909, nº 227, p. 02.
[20] O Estado de Sergipe. Aracaju, 04 de abril de 1911, nº 3530, p. 01; Correio de Aracaju, 05 de abril de 1911, nº 536, p. 02.
[21] Diário da Manhã. Aracaju, 25 de abril de 1911, nº 64, p. 02.
[22] Correio de Aracaju, 08 de outubro de 1909, nº 303, p. 03; Diário da Manhã. Aracaju, 07 de março de 1911, nº 27, p. 04.
[23] O Estado de Sergipe. Aracaju, 11 de dezembro de 1910, nº 3439, p.04; Diário da Manhã. Aracaju, 01 de abril de 1911, nº 48, p. 04; Correio de Aracaju. Sergipe, 03 de maio de 1919, nº 2.588, p. 04; Correio de Aracaju. Sergipe, 07 de maio de 1919, nº 2.590, p. 04; Correio de Aracaju, 23 de junho de 1922, nº 3. 446, p. 03; Correio de Aracaju, 30 de dezembro de 1922, nº 3.588 p. 03.
[24] Correio de Aracaju, 18 de dezembro de 1910, nº 495, p. 04; Folha de Sergipe. Aracaju, 12 de janeiro de 1911, p. 02.
[25] Lamentável acidente. Folha de Sergipe. Aracaju, 24 de dezembro de 1908, nº 166, p. 02.
[26] Correio de Aracaju, 30 de abril de 1911, nº 546, p. 02. Manoel Caldas Barreto Neto bacharelou-se em Direito no Recife em 1892. Em 1908, foi nomeado desembargador do Tribunal de Relação de Sergipe. Presidiu a instituição de 1912 a 1924. Ele foi um dos fundadores e um dos dirigentes do IHGSE. Já o dr. Berilo Vieira Leite colou grau em medicina pela Faculdade da Bahia em 1906. Berilo exerceu por muitos anos o cargo de Inspetor Sanitário dos Portos de Sergipe. Disponível em: https://acervo.tjse.jus.br/ e https://medicosilustresdabahia.blogspot.com/. Acesso em: 04/02/2026.
[27] Correio de Aracaju, 25 de novembro de 1922, nº 3562, p. 01.
[28] VALADÃO, Manuel. Mensagem dirigida à Assembleia Legislativa. Aracaju: Imprensa Oficial, 1917. p. 37 e 51; PEREIRA LOBO, José Joaquim. Mensagem apresentada à Assembleia Legislativa. Aracaju, 07 de setembro de 1919. p. 85; PEREIRA LOBO, José Joaquim. Mensagem apresentada à Assembleia Legislativa. Aracaju, 07 de setembro de 1920. p. 87-89.
[29] LOBO, Joaquim Pereira. Mensagem apresentada à Assembleia Legislativa. Aracaju: Imprensa Oficial, 1919. p. 15-17/27/81-85; LOBO, Joaquim Pereira. Mensagem apresentada à Assembleia Legislativa. Aracaju: Imprensa Oficial, 1922. p. 57.
[30] LOBO, Joaquim Pereira. Mensagem apresentada à Assembleia Legislativa. Aracaju: Imprensa Oficial, 1920. p. 35/87-89/106.
[31] CARDOSO, Maurício Graccho. Mensagem apresentada à Assembleia Legislativa. Aracaju: Imprensa Oficial, 1925. p. 107; Renascença: revista ilustrada. Salvador-BA, outubro de 1923, nº 108. p. 15.
[32] CARDOSO, Maurício Graccho. Mensagem apresentada à Assembleia Legislativa. Aracaju: Imprensa Oficial, 1923. p. 29-30; DANTAS, Ibarê. História de Sergipe: República (1889-2000). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2004. p. 38-40.
[33] FIGUEIREDO, Jacintho de. Motivos de Aracaju. 3. ed. Aracaju: Funcaju, 2000. p. 31.