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O “tempo da politica” não para na arena pública digital

Por Péricles Andrade*

A esfera pública é uma categoria sociológica em contraposição à “esfera da vida privada”. Ela se refere ao surgimento, principalmente no século XVIII, de um espaço social onde indivíduos se reúnem para debater questões de interesse comum, que são consideradas de relevância pública e política. É consequência direta das lutas pela ampliação das garantias constitucionais em torno dos direitos de cidadania e, no longo prazo, na constituição do governo representativo e/ou democrático (Habermas 2003). Enquanto arena política, nas nossas memórias familiares, por exemplo, quem não tem registros de tensões nos espaços físicos durante o “tempo da política”, sobretudo nas eleições municipais, quando as tensões e disputas aumentam.

No Brasil, a cada dois anos, o(a) cidadão(ã) tem a oportunidade de se manifestar através das urnas para escolher seu(sua) candidato(a). Nos “tempos da política” as pessoas se envolvem profundamente no processo eleitoral. As cidades nesta época tornam-se o lugar das disputas, espaços de negociações em que se aglutinam diversas pessoas e com visões de mundo distintas. A experiência política em meio a essa heterogeneidade conforma as bases sociais dos conflitos e provoca, também, as mudanças nas relações de sociabilidade e de convivência urbana (Lima ET all, 2020).

Na arena pública, o fazer da política se constitui em uma atividade humana historicamente dependente da comunicação, principalmente com advento da mídia impressa no século XVI, seguida da radiofônica e da televisiva ao longo do século XX, influenciando o seu fazer com modos, gramáticas e linguagens comunicativas. Por exemplo, a série documental “Caçador de Marajás”, disponível no Globoplay, aborda a ascensão e queda meteórica de Fernando Collor de Mello à Presidência da República, respectivamente 1889 e 1992. A produção é fundamental à compreensão do fazer da politica na era da televisão, pois demonstra a centralidade da televisão na propaganda eleitoral e na cobertura política. A construção de imagem para a opinião pública em torno de Collor se deu a partir da atuação profissional televisiva. Nesse processo, as edições do “Globo Repórter” destinadas às ações do então governador de Alagoas a partir de 1986 são oriundas da mediação jornalística, assim como os espaços de visibilidades destinados ao citado político anos antes do processo eleitoral em 1989. Nos noticiários televisivos, como no Jornal Nacional da Rede Globo, as coberturas pós-debates no segundo turno fizeram cortes não equânimes e construíram a percepção do eleitorado de que o candidato Collor (PRN) teria vencido seu adversário, na ocasião Lula (PT). Na série, essa questão foi reconhecida, através de depoimentos, por profissionais da Globo que atuaram nas edições do telejornal. Tivemos, nesse caso, um evidente controle da visibilidade pública a partir do monopólio da televisão, no qual o jornalismo a transformou em capital social acumulado para um candidato a partir da atuação de apresentadores, comentaristas e repórteres mais destacados (Gomes, 2024).

Entretanto, a partir da década de 2000, temos uma nova dimensão social: a digitalização da política. Ainda na década de 1980 registra-se o advento de uma nova mídia descentralizada e diversificada que preparou a formação de um sistema multimídia. Esta revolução tecnológica concentrada nas tecnologias de informação começou a remodelar a base material da sociedade em ritmo acelerado. Constituiu-se o que se denominou de sociedade em rede (Castels, 2006). Nessa configuração social tivemos a ampliação das interações através da virtualidade da expansão e do acesso cada vez mais democratizado à Internet. Em segundo lugar, a ampliação do uso mais constante da virtualidade se tornou mais evidente a partir da massificação dos aparelhos telefônicos portáteis que permitiram o acesso à rede em qualquer local. Em terceiro lugar, foram desenvolvidos programas acessíveis para aparelhos portáteis que permitiram maior interatividade entre os usuários.

Atualmente a sociedade em rede se transformou em uma sociedade digital, na qual a digitalização está em via de se tornar o meio ambiente fundamental da comunicação interpessoal e comunitária, alargada e de amplo alcance. Não faltam pessoas conectadas, às vezes até por 24 horas e 7 dias por semana, em casa, no trabalho, nas clínicas, nos restaurantes, em qualquer espaço social e privado (Dizard Jr, 2000). Mesmo nos ambientes físicos de interação social estamos conectados, com intensidades que variam entre superconexão, hiperconexão e subconexão.

Obviamente que o mundo da política não estaria alheio ao processo de digitalização social, explorando o que denominamos de esfera pública digital, que emergiu com a incorporação dos recursos de informação, integração e interação social. Na era da hiperconexão verificamos a politização das plataformas, a difusão de blogs de opinião e de informação política, o aumento dos arsenais dos meios de publicação on-line de pessoas sem formação em jornalismo ou na política (influenciadores) e o crescimento do espaço dos comentários políticos nos rodapés online. Emerge uma nova esfera pública, com novas vozes e agentes sociais, às vezes, com discursos selvagens e irracionais (Gomes, 2024).

Essa digitalização da política se evidencia com a campanha de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos, em 2008. Temos naquele momento a eleição da internet social, com o uso do monitoramento e da mineração moderada de dados. Em 2016, a campanha de Donald Trump inaugura a analítica de comportamentos automatizados de distribuição digital. A partir dessa eleição, se constitui a era dos grandes volumes de dados e da analítica dos rastros digitais, com o uso dos bots e outras formas de inteligência computacional para, online, distribuir informações, atacar adversários e criar falsos climas de opinião e falso apoio de base (Gomes, 2024).

No Brasil as interações sociais virtuais se tornaram uma febre nas eleições de 2014, principalmente na disputa presidencial. As primeiras eleições em que se verificou a presença significativa das interações via web foram aquelas realizadas em 2010. Boatos e denúncias estiveram presentes naquele pleito. Entretanto, a era da política digital se constitui em 2018 a partir da campanha de Jair Bolsonaro, que adotou, a partir do exemplo trumpista, a logística de disseminação centralizada em aplicativos de mensagens instantânea, grandes plataformas de redes sociais digitais e um sistema de blogs e sites de notícias, que se constituiu em uma ecologia midiática da ultradireita naquele pleito (Gomes, 2024).

A política da era da televisão registrada no documentário “Caçador de Marajás” não existe mais no Brasil. A arena da discussão e do debate público digital não é secundário. Os meios de comunicação digitais não são apenas meios. São arenas, não secundárias! Os sites, plataformas e aplicativos para redes sociais tornaram-se espaços essenciais da discussão pública sobre temas de interesse políticos. Por outro lado, os mundos da política da interação corpórea e dos conteúdos digitais se convergem e se encaixam. De certo modo, não há mais a separação radical entre empresas e ambientes profissionais de jornalismo e da televisão e os ambientes de produção e circulação de conteúdos online (Gomes, 2024). Temos agora a indistinção das fontes dos conteúdos digitais e a integração das plataformas. Praticamente não há mais política online versus off-line.

A esfera pública se reconfigura a partir da digitalização, o que requer novas ações e configurações legais. É significativo o aumento dos processos envolvendo crimes digitais abertos na Justiça Eleitoral, sobretudo nos casos de desinformação, ataques ao sistema de votação e o uso indevido de plataformas digitais. O Tribunal Superior Eleitoral passou a tipificar a disseminação de desinformação como forma de abuso de poder e o uso indevido dos meios de comunicação. Em outubro de 2021, por exemplo, em uma decisão inédita, o Plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cassou o mandato e tornou inelegível, por divulgar notícias falsas contra o sistema eletrônico de votação, o delegado e deputado estadual pelo Solidariedade mais votado (428 mil votos) no Paraná em 2018, Fernando Destito Francischini (TSE: Deputado Francischini é cassado por propagar desinformação contra a urna eletrônica, 2021. Disponível: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2021/Outubro/plenario-cassa-deputado-francischini-por-propagar-desinformacao-contra-o-sistema-eletronico-de-votacao. Acesso 28 out. 2025).

Nesse sentido, em 2021 foi instituído o Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação (PPED), que estrutura a atuação do TSE em três eixos: informar, capacitar e responder (Brasil, 2022). No âmbito do PPED destaca-se o Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral (Siade), que permite que qualquer cidadão denuncie conteúdos falsos; entre junho e outubro de 2024, foram registrados 5.250 apontamentos, com mais de 2.100 encaminhados diretamente às plataformas digitais para análise. Uma rede de comunicação em tempo real conecta o Tribunal Superior e os tribunais estaduais, a Polícia Federal, o Ministério Público Federal, a Advocacia Geral da União, a Anatel e plataformas como WhatsApp, Telegram, TikTok e X Brasil, facilitando a contenção rápida de deepfakes e campanhas coordenadas (Ver: https://www.tre-pb.jus.br/administracao/painel/sistema-de-alertas-de-desinformacao-eleitoral-siade).

Na esfera pública digital o “tempo da política” foi ampliado. Chama a atenção como à digitalização da política ampliou o interesse e a participação social, geralmente mais visível anteriormente nos espaços públicos nos períodos eleitorais. Praticamente, não há tempos da “política” e da “não política”. As fricções sociais e as cadeias infinitas de transmissões voluntárias, produções, discussões e disseminações de conteúdos digitais, inclusive violentos, não cessam na arena política digital, com recorrentes trocas de argumentos, pontos de vistas e agressões. Nesse espaço de interação as pessoas se dedicam à promoção de certos conteúdos de visibilidade pública e/ou esferas de decisão política. Aqui os termômetros políticos não baixam e se ampliaram nos últimos anos com a polarização entre o lulismo e o bolsonarismo, com novos atores políticos que devotam suas energias para lutar pelas suas causas, agendas e ideias. (Gomes, 2024). Quem não brigou e/ou saiu de algum grupo de WhatsApp por questões políticas?

Enfim, deixamos algumas reflexões. Na esfera pública os assuntos de interesse geral podem ser discutidos e as opiniões podem ser formadas, o que é necessário para a efetiva participação no processo democrático. Essa esfera, pelo menos, em princípio, envolve a reunião de indivíduos igualitariamente em fóruns para os debates públicos (Habermas 2003). Entretanto, nas próximas eleições registraremos nas interações políticas, além de pessoas, a presença de máquinas pós-mecânicas, cada vez mais indistinguíveis de nós. Essas formas de inteligências não apenas processam dados, mas simulam interações e interfaces humanas on-line.

Tal questão, inclusive, foi retratada no documentário “O Dilema das Redes”, lançado em 2020 pela Netflix, que demonstra como os algoritmos do Instagram e do Facebook influenciam diretamente o conteúdo que aparece no feed dos usuários, incluindo aquelas postagens que podem gerar controvérsias ou “brigas”. Eles funcionam selecionando e priorizando o que acreditam serem mais relevante para cada usuário, baseados em uma complexa análise de fatores como interação prévia, engajamento (curtidas, comentários, compartilhamentos) e preferências pessoais. Essa seleção inclui também conteúdos polêmicos, que tendem a gerar alto engajamento e, portanto, são mais promovidos pelos algoritmos (Redes sociais escolhem cada vez mais o que você vai ver; saiba os motivos… – Disponível: https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2016/06/20/por-mais-anuncios-e-posts-redes-sociais-trocam-tempo-real-pela-relevancia.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 29 out. 2025).

Os algoritmos das redes sociais interferem diretamente nos processos eleitorais ao moldar comportamentos com base nos dados coletados dos usuários, como cliques, curtidas e tempo de leitura. Gradativamente no jogo político os dispositivos, scripts e códigos aprendem padrões, utilizando a capacidade de processar enormes volumes de dados sobre preferências, comportamentos e linguagens, personalizando e segmentando as campanhas políticas. São direcionadas mensagens específicas a grupos de eleitores com base em seus perfis, preferências e comportamentos, o que pode influenciar suas decisões de voto de maneira sutil e também manipular a opinião pública (Inteligência Artificial: força ou ameaça nas eleições? Disponível: https://portal.unit.br/blog/noticias/inteligencia-artificial-forca-ou-ameaca-nas-eleicoes/#:~:text=filtrar%20ou%20direcionar%20conte%C3%BAdo%20pol%C3%ADtico . Acesso 28 out. 2025)

Quais serão as consequências da inteligência computacional para a política, a vida pública e a democracia?

*Professor Titular de Sociologia da UFS. Doutor em Sociologia pela UFPE. E-mail: periclesdcs@academico.ufs.br

Referências

ANDRADE, Péricles. A política e nova mídia no Brasil. 2014. Disponível: https://www.ufs.br/conteudo/15257-a-pol-tica-e-nova-m-dia-no-bra. Acesso 28 out. 2025.

BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação no âmbito da Justiça Eleitoral: plano estratégico: eleições 2022. Brasília: Tribunal Superior Eleitoral, 2022.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 9 ed., São Paulo: Paz e Terra, 2006.

DIZARD JR, Wilson. A nova mídia: a comunicação de massa na era da informação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.

GOMES, Wilson. Transformações da política na era digital. São Paulo, Paulus, 2024.

HABERMAS, Jürge. Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003.

LIMA, Elizabeth Christina de Andrade; BRASILEIRO, Cyntia Carolina Beserra; PESSOA, Carlos Eduardo Queiroz. “O Tempo da Política”: uma visão antropológica do comportamento eleitoral e poder local em Afogados da Ingazeira – PE. Revista NEP – Núcleo de Estudos Paranaenses da UFPR, [S. l.], v. 6, n. 1, p. 40–72, 2020. DOI: 10.5380/nep.v6i1.74594. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/nep/article/view/74594 . Acesso em: 28 out. 2025.

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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