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25 de janeiro de 2026
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O século do algoritmo e a morte do capitalismo clássico

Por Jorge Santana*

Após a Segunda Guerra Mundial, os países centrais do Ocidente viveram o que o economista francês Thomas Piketty classifica como “exceção histórica”: décadas de crescimento econômico, forte regulação estatal e relativa distribuição de riqueza, que ampliaram a classe média e sustentaram democracias robustas. Esse arranjo, conhecido como social-democracia, garantiu estabilidade política e coesão social.
Desde os anos 1980, porém, essa engrenagem vem sendo desmontada. Desregulação financeira, enfraquecimento de políticas públicas e globalização sem contrapesos deslocaram empregos, comprimiram salários e favoreceram a concentração de renda. Piketty mostra, com dados históricos, que quando o retorno sobre o capital cresce mais rapidamente do que a economia, a desigualdade dispara — e foi exatamente isso que aconteceu.
Esse vácuo abriu espaço para o discurso fácil e perigoso da extrema-direita. Incapaz de oferecer soluções para problemas estruturais — desigualdade, precarização do trabalho e a erosão do futuro — a política tradicional viu emergir narrativas simplistas que elegem inimigos imaginários. No Brasil, essa frustração é canalizada contra um comunismo inexistente, enquanto a precarização do trabalho via aplicativos (a chamada “uberização”) cria uma massa de trabalhadores sem proteção que se torna solo fértil para o discurso do empreendedorismo messiânico de direita. Nos Estados Unidos e na Europa, apontam-se imigrantes como ameaça civilizatória. A fórmula é velha: medo, ressentimento e a promessa de soluções mágicas que nunca chegam.
A História oferece um paralelo inquietante. Nos anos 1920 e 30, a crise de 1929 corroeu o pacto social e abriu caminho para autoritarismos. Os tempos, claro, são outros, mas as condições emocionais e materiais — frustração e descrédito na democracia — se repetem com desconfortável familiaridade.
Há, contudo, dois elementos novos nessa crise. O primeiro é a ascensão da China, que combina planejamento estatal com abertura ao capital e desafia o dogma neoliberal de que só o mercado “resolve”. Esse modelo híbrido não apenas reorganiza a geopolítica, mas serve de combustível retórico para a extrema-direita ocidental, que utiliza a perda da soberania industrial para alimentar um nacionalismo defensivo e xenófobo.
O segundo elemento é o que Yanis Varoufakis chama de tecnofeudalismo. Para o economista grego, plataformas digitais ultrapassaram o capitalismo tradicional: elas controlam mercados por meio de algoritmos. Empresas como Meta e Google extraem riqueza pelo monopólio sobre dados e pela manipulação do comportamento. Não à toa, chamamos consumidores do século XXI de “usuários” — o mesmo termo aplicado a quem consome drogas. Esse novo poder algorítmico é, hoje, a infraestrutura por onde circulam as fake news que sustentam regimes autoritários, transformando o ódio em mercadoria rentável.
Se essa leitura estiver correta, a eleição e reeleição de figuras como Donald Trump não são desvios históricos, senão sintomas de um sistema exaurido. Perguntas incômodas se impõem: chegamos ao clímax dessa nova crise? E o que vem depois — reformas profundas que regulem o poder das plataformas e resgatem a dignidade do trabalho, um novo pacto democrático ou a escalada de conflitos que já se desenha do Oriente Médio ao Leste Europeu?
Prever o futuro é impossível, mas uma lição permanece: quando a política abandona a promessa de inclusão, o autoritarismo volta a bater à porta. E, como já vimos antes, nem sempre ele pede licença para entrar.

*Jorge Santana é engenheiro, empreendedor e ativista pela democracia.

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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