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Notícias da cachaça

O mais velho registro da cachaça remonta ao século 17, em notícia tem como autor o naturalista holandês Guilherme Piso

Professor Francisco José Alves

Departamento de História-UFS

EMAIL: fjalves@infonet.com.br

Em memória de Luiz da Câmara Cascudo (1898-1986) e de José Calazans Brandão da Silva (1915-2002), pioneiros no estudo da cachaça brasileira.

A cachaça, no Brasil, é sem dúvida, bebida alcoólica muito popular. Evidência dessa popularidade é o volume dos nomes dados à bebida. O folclorista Mário Solto Maior levantou centenas deles espalhados por todos os quadrantes do território nacional. Vão de A a Z, de “Abrideira” a “Zuninga”. O mesmo estudioso consigna a presença da cachaça em adagios, crenças e na medicina popular. Consideremos os registros históricos sobre esse hábito tão nacional: beber pinga. Vejamos as menções a geribita feitas por cronistas da era colonial, dicionaristas do século 19 e ficcionistas do século 20.

O mais velho registro da cachaça remonta ao século 17. A notícia tem como autor o naturalista holandês Guilherme Piso (1611-1678). Falando da cana-de-açúcar o estudioso menciona a “cagassa” (sic.). No entender de Cascudo “cagassa” é a forma estropiada do português “cachaça”.

Outro cronista Holandês a noticiar a bebida é o naturalista George Marcgrave (1610-1643). O cientista esteve em Pernambuco entre 1638 e 1643 na companhia do já citado Guilherme Piso. Em obra que descreve a fauna e a flora brasileira, Marcgrave informa sobre a cachaça. Conforme ele, a cachaça era as delícias dos escravos vindos da África.

Dos inícios dos setecentos vem outro registro do termo cachaça. O informante é o André João Antonil, pseudônimo do jesuíta João Antônio Andreone (1648-1716). Antonil viveu no Brasil 33 anos, de 1681 a 1716 e o seu texto foi publicado em 1711. Em Antonil, “cachaça” ainda não é sinônimo de aguardente. Diz ele que cachaça é a primeira escuma da cana que sai da caldeira.

Também vem do século 18 preciosa menção ao uso da cachaça pelos escravos. A notícia é dada pelo jesuíta Prudêncio do Amaral (1675-1715) em poema publicado em 1781, intitulado “De Saccari Oficio Carmina”, ou seja poema sobre o ofício de preparar o açúcar. O texto descreve o processo de fabricação do açúcar e seus subprodutos. Sobre a cachaça, o religioso informa que muito agrada aos escravos os copos de cachaça com que “molham a garganta a largos tragos”.

Apesar da antiguidade do hábito, o termo para designar o usuário da cachaça foi somente dicionarizado em fins do século 19, em 1895. O registro foi obra do dicionarista Antônio Cândido de Figueiredo (1846-1925) no Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Consta na obra o termo “cachaceiro”.

Na literatura do século 20, a cachaça (e seu usuário) tem o seu apogeu numa novela de Jorge Amado publicada em 1959: A morte e a morte de Quincas Berro D’água. A obra conta a história de Joaquim Soares da Cunha, servidor público baiano que passa da “cachaça caseira e comedida” para a bebedeira cotidiana e desbragada.

Quincas Berro D’agua é, talvez, o cachaceiro mais famoso da ficção brasileira. No romance, Jorge Amado retrata os cenários, os rituais e os personagens do consumo popular da cachaça no Salvador da primeira metade do século 20. É um mergulho no submundo dos bebuns daquele contexto e época.

FONTES UTILIZADAS:

SOUTO MAIOR, Mário. Cachaça. Em: Alimentação e folclore. Rio de Janeiro: Funarte, 1988. p. 31-36.

PISO, Guilherme; Marcgrave. História Naturalis Brasiliae. Lugdon: Franciscum Hackium, 1648. Livro 4. Capítulo 1. p. 51

MARCGRAVE, G. História Natural do Brasil. São Paulo: Imprensa Oficial, 1942.

ANTONIL, André João. Cultura e Opulência.  Ed. Facsimilar. Recife: Instituto do Açúcar e do Álcool, 1969. Livro II, capítulo X, p. 67.

  1. MELO, José Rodrigues; AMARAL, Prudêncio do. Temas Rurais do Brasil. Ponta Prosa: Editora UEPG, 1997. p. 229. Linhas 521-527.

FIGUEIREDO, Antonio Cândido de. Novo dicionário da Língua Portuguesa. Lisboa: Taume Cardoso e Irmão, 1899. v.1. p. ?.

AMADO, Jorge. A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água. São Paulo: Cia das Letras, 2008. Capítulo 2. p. 10.

 

 

 

 

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