

Por Patricia Rosalba Salvador Moura Costa*
Nestas breves reflexões, escrevo sobre um assunto que permeia as rodas de conversas de mulheres progressistas de todas as classes sociais, etnias, raça/cor, idade ou geração. Mulheres que cultuam a vida, que participam de distintos ritos e crenças espirituais, que leem, mulheres escritoras e feministas, que falam de desigualdades sociais, guerras, questões geopolíticas, reformas administrativas, luta sindical, sororidade, cotas, meio ambiente, educação e muitos outros temas que pautam o cotidiano de quem compreende que a sobrevivência diária requer muita potência e pulsão de vida.
Mesmo com o tardio reconhecimento de alguns direitos, temos que ratificar, diariamente, que isso é fruto da intensa luta histórica travada por nossas antecessoras e continuada por nós, em cada reivindicação pela sobrevivência diária, que implementamos em distintos espaços, públicos e privados. As importantes conquistas que tivemos foram possíveis, porque mulheres colocaram seus corpos nos espaços públicos e privados em prol de um bem maior e coletivo: o surgimento de uma irmandade entre nós – necessária à transformação, na luta contra o patriarcado, o racismo e as desigualdades de gênero.
Inspiro-me aqui na autora bell hooks para falar sobre irmandade. Trata-se de um conceito de extrema importância e central na obra da escritora, filósofa e ativista antirracista. hooks explica que a irmandade não deve ser encarada como um sentimento, mas, sobretudo, como um ato político e solidário, que tem como objetivo a união entre mulheres para o enfrentamento ao patriarcado, racismo, sexismo, violências e desigualdade social.
Quando hooks conceitua a irmandade, ela menciona também que a solidariedade surge como um combustível indispensável à manutenção das nossas vidas, na luta incessante para a transformação social, que nós, mulheres, almejamos.
Por que venho aqui, através dessas breves reflexões, escrever sobre irmandade entre mulheres, inspirada em hooks? Porque tenho vivenciado algumas experiências na luta diária por uma sociedade igualitária, que me fazem ter a compreensão de que, todavia, necessitamos aprender mais sobre conceitos caros ao feminismo e à experiência das mulheres. Não adianta se apresentar como progressista, gritar por igualdade e proferir atos opressores. Nós precisamos estar atentas, vigiar as nossas ações, a nossa forma de falar, argumentar com base nos fatos, estudar às teóricas feministas do Sul Global e não repetir atitudes violentas contra outras mulheres. Se for necessário o enfrentamento, que façamos de forma inteligente!
Podemos discordar de mulheres? Sim. O debate é salutar e faz parte das sociedades democráticas e civilizadas. Agora, atacar a dignidade profissional, os aspectos físicos ou pessoais de uma mulher, isso é violento e desnecessário.
E quando estamos em lados opostos da disputa política? Estar em lados opostos também faz parte do jogo, no entanto, o debate precisa ser de alto nível, porque há sim assuntos que nos separam, mas quando somos mulheres, há também marcas e cicatrizes que nos conectam. Invocar atitudes grosseiras e performances violentas contra outras mulheres para justificar formas de ver o mundo nos faz descer ao mais baixo nível das reproduções da misoginia, fortalecendo o patriarcado. Vamos continuar a lutar para ocupar todos os espaços, mas não vamos violentar mais as mulheres. Afinal, o foco do debate deve se concentrar no poder das ideias e nunca, jamais no tom de voz.
Nós, mulheres progressistas, entendamos, o nosso dia a dia já é repleto de violências. Só para citar algumas: no que diz respeito à violência doméstica e familiar, no Brasil, mulheres são vítimas a cada minuto de violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Somos um país que registra diariamente um número vergonhoso de violência política de gênero. Pobreza e racismo estruturam relações de hierarquia na nossa sociedade, atingindo desproporcionalmente mais as mulheres, sobretudo as mulheres negras e trans. As estatísticas de transfeminicídio em nosso país são as piores, quando comparadas com as dos outros países.
Não normatizem atitudes e atos violentos quando veem em outras mulheres uma adversária. Façam o debate inteligente, criem estratégias de luta, mas nunca atinjam uma mulher na sua dignidade. Isso o patriarcado já faz diariamente. E nós? Continuamos com a árdua tarefa de treinar todos os dias para sobreviver ao patriarcado.
A quem serve o ataque misógino contra mulheres, feito por mulheres, para a defesa institucional ou particular do poder representado no masculino?
Como nos ensinou a diva Elza Soares: Até o fim eu vou cantar; Eu vou cantar até o fim; Eu sou a mulher do fim do mundo; Eu vou, eu vou, eu vou cantar; Me deixem cantar até o fim. (Mulher do fim do mundo)
*Professora da Universidade Federal de Sergipe.