Mais de 720 mil pessoas estão inadimplentes em Sergipe
22 de janeiro de 2026
Exibir tudo

Cajueiro: árvore símbolo e patrimônio de Aracaju

Por Amâncio Cardoso*

Em novembro de 2025, a Câmara Municipal de Aracaju aprovou, e a Prefeitura sancionou, a lei, nº 6.242, projeto de autoria do vereador Iran Barbosa (PSOL), declarando o cajueiro como árvore símbolo do município; e seu pseudofruto, o caju, com seu fruto, a castanha, como bens culturais materiais da capital. A decretação foi oportuna porque o cajueiro, como patrimônio botânico, está na raiz de nossa formação histórico-cultural.[1]

Vejamos assim, através de documentos e estudos, a importância da espécie na História do Nordeste e, mais especificamente, de Aracaju. Começaremos por uma breve descrição da árvore, depois comentaremos sobre usos e costumes, por fim, examinaremos fontes histórico-literárias, desde o passado colonial até nossos dias.

J. Borges. Os cajueiros. Disponível em: https://naucultural.com.br/

O cajueiro (Anacardium occidentale) é uma árvore tropical brasileira. A maior ocorrência se concentra no Nordeste. O verdadeiro fruto é a parte conhecida como castanha-de-caju; e o que é considerado fruto, é na verdade uma haste carnosa, o pseudofruto caju. Ele pode ser amarelo, vermelho ou apresentar cor intermediária.

A castanha é nutritiva e sua casca possui um óleo poderoso. Ela pode ser assada para extrair e beneficiar a amêndoa. Quanto ao caju, também é processado de forma variada em forma de suco, doce, mel, licor, sorvete, vinho, entre outros. A resina e a casca do tronco são também aproveitadas para fármacos populares e produtos industriais.[2]

Etimologicamente, o nome caju vem do tupi antigo acayu, e teria duas acepções: o caju (pseudofruto) ou o ano (tempo). Pois os indígenas contavam os anos pela floração dos cajueiros. As aldeias do litoral faziam com a polpa do caju um vinho inebriante. O cajueiro era tão importante para os Tupinambá que a posse dos cajueirais era motivo de guerra intertribal.[3]

Já os portugueses, ao tomarem conhecimento da árvore durante a colonização, exportaram o caju e a castanha para África e para as Índias, fazendo o caminho inverso de outros frutos, segundo Câmara Cascudo (1898-1986). Ainda conforme o pesquisador potiguar, o caju é “a mais popular das frutas brasileiras”.[4]

No campo da toponímia, entre outros exemplos, temos a relação entre o cajueiro e a capital de Sergipe. Ela está patente no topônimo “Aracaju”. De acordo com os estudiosos da língua tupi, a cidade carrega em seu nome o étimo da árvore e da fruta símbolos, daí a pertinência da lei citada acima. Neste sentido, Aracaju significaria “lugar de cajueiros”, segundo Carl von Martius (1794-1868); ou “cajueiro dos papagaios”, na decifração de Teodoro Sampaio (1855-1937); ou ainda “estação/época dos cajus”, na decomposição de Silveira Bueno (1895-1989).[5]

As três hipóteses etimológicas são válidas. Porém, a mais assimilada pelos sergipanos foi “cajueiro dos papagaios”. Ela se difundiu pelo sistema escolar, pelos órgãos de cultura e pela imprensa em geral. Talvez sua aceitação popular se explique pelo fato de aludir a um cenário idílico: uma terra repleta de cajueiros, com papagaios pousando em seus galhos.

No entanto, a ideia de tempo ou estação dos cajus, aventada por Silveira Bueno, também aparece na linguagem popular associada ao pseudofruto. Assim, a expressão “de caju em caju”, por exemplo, significa “de ano em ano”, período natural de produção do cajueiro.

O caju também está nos provérbios populares. Como neste, colhido em Sergipe por Carvalho Déda (1898-1968), sobre alguém desprevenido ou pouco atento: “Besta é caju que nasce com a cabeça pra baixo”. A castanha também comparece em outro dito popular. A expressão “fulano quebrou a castanha”, significa que a pessoa faleceu.[6]

A importância sociocultural do cajueiro e seus frutos também se expressa nas diversas descrições, citações e referências “expressivas, amplas e minuciosas”, contidas em testemunhos históricos e literários ao longo dos séculos. Tomemos alguns exemplos.[7]

Em 1576, o cronista português Pero de Magalhães Gândavo (1540-1579), escrevendo da Bahia, assinalou a semelhança do cajueiro com outras árvores europeias, bem como a propriedade sumarenta e refrescante do caju. Ele escreveu: “Há outra fruta que nasce pelo mato em umas árvores tamanhas como pereiras, ou macieiras (…). A esta fruta chamam cajus: tem um sumo, e come-se pela calma para refrescar”.[8]

Outro exemplo do século XVI, é o do jesuíta português, Fernão Cardim (1549-1625). Escrevendo em 1584, ele identificou as várias serventias do cajueiro: da madeira soltava uma goma que servia para pintar e escrever; da casca se extraía uma tinta que servia para tingir fios e cuias, e também servia de remédio; e, por fim, dos cajus faziam-se os vinhos tão apreciados pelos indígenas.[9]

Três anos depois, 1587, o português sertanista e senhor de engenho na Bahia, Gabriel Soares de Souza (1540-1591), anotou o modo de fazer o doce de caju cozido em conserva de açúcar com canela. Uma iguaria que “não tem preço”, acrescentou. A fruta indígena virou doce em conserva com a contribuição lusitana.[10]

Entrando agora no século XVII, tomemos o testemunho do viajado frade baiano, Vicente do Salvador (1564-c.1636), que bem conhecia o litoral do Nordeste, onde jaziam cajueirais. Ele escreveu, em 1627, que os cajus eram colhidos pelos indígenas no mês de dezembro, em muita quantidade, e que neste período “os gentios” não queriam outro mantimento, bebida ou regalo, porque os cajus lhes “servem de fruta, o sumo de vinho, e de pão lhes servem umas castanhas que vêm pegadas a esta fruta”. Vê-se, mais uma vez, a multiplicidade de usos desse patrimônio botânico.[11]

Chegando ao século XVIII, temos o testemunho do poeta barroco e capitão-mor de ordenanças baiano, Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711). Em 1705, ele acentuou, em versos singelos, o sabor, a beleza e a variedade do caju; além da superioridade da castanha, comparada com as da Europa. Ouçamo-lo: “De várias cores são os cajus belos,/ Uns são vermelhos, outros amarelos,/ E como vários são nas várias cores,/ Também se mostram vários nos sabores;/ E criam a castanha,/ Que é melhor, que a de França, Itália, Espanha”.[12]

Ainda no mesmo século, escreveu o historiador luso-baiano, Sebastião da Rocha Pita (1660-1738), acerca da castanha de caju verde; ou maturi, na língua dos indígenas. Ele exaltou o preparo de pratos para regalo dos comensais. Do maturi, disse ele, “se fazem excelentes guisados, e compostos regalados”. No Nordeste, sobretudo na Bahia e Sergipe, serve-se o maturi no ensopado, na frigideira ou na moqueca. E mais recentemente, utilizado na culinária vegetariana e vegana.[13]

Passando para o século do romance no Brasil, o XIX, encontramos diversos exemplos de alusão ao caju ou ao cajueiro nos textos literários. O escritor cearense Franklin Távora (1842-1888), por exemplo, em suas crônicas romanceadas do livro “O Matuto”, de 1878, anunciou as chuvas que fazem brotar os cajus e molhar a terra, no árido verão do Nordeste. Escutemo-lo: “Chegou dezembro. O tempo estava enxuto, não obstante se mostrarem os campos borrifados das chuvas-do caju, …”.[14]

Chegando ao início do século XX, em 1902, temos o testemunho do clássico, Os Sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909). Nele, o autor nos informa sobre a presença do cajueiro anão, onde brota o cajuí (caju pequeno), mais adaptado à aridez da paisagem sertaneja nordestina da Bahia. Leiamos: “arbúsculos de pouco mais de metro de alto, de largas folhas espessas e luzidias, exuberando floração ridente em meio da desolação geral. São os cajueiros anões, os típicos Anacardium humile das chapadas áridas, os cajuís dos indígenas”.[15]

Fiquemos ainda no século XX, mas agora com testemunhos da presença do cajueiro em Sergipe.

No clássico romance sergipano, Os Corumbas, de Amando Fontes (1899-1967), publicado em 1933, o casal de namorados, Cabo Inácio e Rosenda Corumba, marcavam encontros nas cercanias de Aracaju, “em sítios afastados”, coalhados de cajueiros. Assim, o policial “dizia-lhe que faltasse ao serviço para ir com ele à Getimana, ao Saco, onde havia os cajus mais bonitos da cidade…”. [16]

Em outro texto literário, uma singela crônica, “Aracaju cheia de graça”, de 1943, o jornalista Joel Silveira (1918-2007) apresenta a capital de Sergipe a um visitante. Em um passo do texto, ele destaca o diferencial do sabor e do tamanho dos cajus nascidos em terras aracajuanas. Ouçamo-lo: “Pode ficar tranquilo que estes cajus daqui não têm travo nem amargor – são doces e grandes, cajus assim jamais você verá em outras terras”.[17]

Da literatura passemos para a ciência. O engenheiro agrônomo da UFS (Universidade Federal de Sergipe), Emmanuel Franco (1919-2008), em seu estudo “BioGeografia do Estado de Sergipe”, de 1983, nos informa que em Sergipe, os cajueirais estão localizados nos campos e matas de Restinga, áreas próximas ao litoral. Uma curiosidade é a de que, neste ambiente, os cajueiros perdem as folhas durante os meses de junho ou julho, no inverno; e “rapidamente” se renovam, produzindo folhas tenras e avermelhadas.[18]

Percebemos, até aqui, que o cajueiro é um patrimônio botânico de expressiva importância cultural na formação histórica do Nordeste, de Sergipe e de sua capital. Inclusive, Aracaju abriga um parque urbano popularmente conhecido como “Parque dos Cajueiros”, localizado às margens do rio Poxim, zona de ocorrência de cajueirais.

Como vimos, a relação entre o cajueiro e a cidade de Aracaju é antiga, faz parte de sua história. Por conta disso, a lei municipal em vigor, em seu artigo 3º, reza que o Poder Público fica autorizado a promover “campanhas elucidativas que tratem da relevância da árvore símbolo de Aracaju, através de iniciativas educativas que destaquem a importância da preservação dos cajueiros existentes na área territorial do município e do incentivo ao seu plantio”.[19]

Por fim, Aracaju merece ter como símbolo da cidade uma árvore que está presente tanto em seu nome, quanto no imaginário coletivo de seus cidadãos. A exemplo do juiz de direito e professor Bonifácio Fortes (1926-2004), que em seu discurso, durante as comemorações do 1º centenário de Aracaju, em 1955, encerrou dizendo que Aracaju tem um chamariz especial, feito de brisa, areia e “cheiro de caju”.[20]

*Historiador-IFS

Referências:

[1] JEREMIAS, Ivo. É Lei em Aracaju: Cajueiro é declarado como árvore símbolo do município. Disponível em: https://www.aracaju.se.leg.br/. Acessos em: 12/01/2026.

[2] Caju. Disponível em: https://www.embrapa.br/. Acesso em: 13/01/2026; CAJU. Disponível em: https://www.cerratinga.org.br/. Acesso em: 13/01/2026.

[3] SAMPAIO, Teodoro. O Tupi na Geografia Nacional. 4. ed. Salvador: Câmara Municipal, 1955. p. 166; ALVES, Francisco José. Notícias do caju (séc. XVI ao XX). Correio de Sergipe. Aracaju, 10 de maio de 2017. p. 02.

[4] CASCUDO, Luís da Câmara. História da alimentação no Brasil. 3. ed. São Paulo: Global, 2004. p. 636.

[5] GUARANÁ, Armindo. Glossário Etymológico dos Nomes da Língua Tupi na Geografia de Sergipe. Revista do IHGSE, Aracaju, v. 3. F. 1-4, p. 297-326, 1916. Citação p. 289; SAMPAIO, Teodoro. O Tupi na Geografia Nacional. 5. ed. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1987. p. 197; ALVES, Francisco José. “Aracaju”, que significa? Revista Sergipe Mais. Aracaju, 2004. p. 30-31.

[6] DÉDA, José de Carvalho. Brefáias e burundangas do folclore sergipano. 2. ed. Maceió: Edições Catavento, 2001. p. 172 e 189; RIBEIRO, João. Frases feitas: estudo conjetural de locuções, ditados e provérbios. 3. ed. Rio de Janeiro: ABL, 2009. p. 101; Caju. Expressões: de caju em caju (fig. a cada ano que passa). Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/. Acesso em: 13/01/2026.

[7] CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário histórico das palavras portuguesas de origem tupi. São Paulo: Melhoramentos, 1978. p. 86.

[8] GANDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2008. p. 109.

[9] CARDIM, Fernão. Tratados da terra e gente do Brasil. Rio de Janeiro: J. Leite & Cia., 1925. p. 57.

[10] SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Typographia Universal de Laemmert, 1851. p. 178.

[11] SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil. São Paulo/Rio de Janeiro: Weiszflog Irmãos, 1918. p. 31.

[12] OLIVEIRA, Manuel Botelho de. Música do Parnasso. Lisboa: Oficina de Miguel Manescal, 1705. p. 131.

[13] PITA, Sebastião da Rocha. História da América Portuguesa. Lisboa: Oficina de Joseph Antonio da Sylva, 1730. p. 26-27; MENEGUELLO, Lígia et al. Maturi. Disponível: https://slowfoodbrasil.org.br/. Acesso em: 15/01/2026.

[14] TÁVORA, Franklin. O Matuto: chronica pernambucana. Rio de Janeiro: Typographia Perseverança, 1878. p. 74.

[15] CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 20. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998. p. 51-52.

[16] FONTES, Amando. Os Corumbas. 23. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999. p. 41.

[17] SILVEIRA, Joel. Aracaju cheia de graça. Revista de Aracaju. Prefeitura Municipal, 1943. p. 164.

[18] FRANCO, Emmanuel. Biogeografia do Estado de Sergipe. Aracaju: Segrase, 1983. p. 89.

[19] ARACAJU. Prefeitura Municipal. Lei Ordinária 6.242, de 11 de novembro de 2025.

[20] NETO, José Bonifácio Fortes. Evolução da paisagem humana da cidade do Aracaju. Aracaju: Livraria Regina, 1955. p. 42.

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

Compartilhe:

2 Comments

  1. José Vieira da Cruz disse:

    Excelente texto. Recomendo a leitura!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *