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A UFS, a autonomia universitária e os gritos do bolsonarismo contra a política

Por Christian Lindberg*

Deparei-me, na semana passada, com algumas informações vindas de São Cristóvão e de Aracaju. O conteúdo delas fazia alusão ao cancelamento da prova de redação do vestibular promovido pelo Centro de Educação Superior à Distância (CESAD), órgão vinculado à Universidade Federal de Sergipe (UFS). A aplicação da prova aconteceu no dia 10/08. Na mesma noite e no dia seguinte, o vereador Lúcio Flávio (PL), de Aracaju, acusou a UFS de realizar proselitismo político na redação e o desfecho final dos fatos ocorreu com a decisão da reitoria de cancelar a prova.

Feito esse breve relato, quero começar minha argumentação citando o texto constitucional, que é nítido em seu artigo 207: “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”. Há regulamentações na legislação infraconstitucional, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), leis federais, normas estabelecidas pelos órgãos de controle e o regramento existente em cada instituição universitária.

O arcabouço legal materializa o aspecto conceitual da universidade moderna, que se caracteriza como uma instituição laica, que promove a pluralidade de ideias e o espírito crítico, defende a democracia etc. A autonomia universitária não é palco para a arbitrariedade, como alguns afirmam. Pelo contrário, a autonomia universitária significa o comprometimento político da instituição com a verdade, independentemente das opiniões de plantão. Com base em Kant, autonomia significa pensar por si próprio e não de acordo com outrem.

A redação apresentou uma provocação interessante aos postulantes a uma vaga nos cursos ofertados pelo CESAD: Os discursos de extrema-direita e ultranacionalistas são disseminados e potencializados por meio dos novos formatos de comunicação, como as plataformas digitais. Diante do cenário, como assegurar a defesa da democracia e dos direitos humanos. Além disso, indicou dois textos para subsidiar a construção da dissertação, como acontece no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). O primeiro recorte foi extraído da página eletrônica da Revista Fórum e tem por título A ameaça atual: neonazismo no século XXI. O segundo, extraído da revista Veja, A eleição de Jair Bolsonaro.

No entanto, o vereador Lúcio Flávio (PL) recortou um trecho do segundo texto com o objetivo de lacrar nas redes sociais, manter o engajamento de seus seguidores e, talvez com isso, angariar votos nas eleições de 2026. O recorte diz: “Foi a partir de 2019 que as células neonazistas se multiplicaram no país. Na esteira do discurso do presidente Jair Bolsonaro e do avanço da direita política no Brasil, esses grupos se sentiram autorizados a atuar”.

Qualquer pessoa com discernimento identifica que o texto projeta a multiplicação dos grupos neonazistas no país, nos últimos anos, na esteira do crescimento do bolsonarismo, ou seja, o recorte não afirma que o bolsonarismo é neonazista. Todavia, o vereador afirmou, na tribuna da Câmara dos Vereadores de Aracaju, o contrário. Ele disse que o texto faz proselitismo político ao afirmar que Bolsonaro e o bolsonarismo estão alinhados ao neonazismo no século XXI. Farei um exercício de imersão para compreender a opinião do vereador e procurar dialogar com suas afirmações sobre o episódio.

Sabe-se que o nazismo é um movimento político que surgiu no século passado, especificamente na Alemanha, muito embora seus ideais tenham conquistado adeptos em vários cantos do planeta, inclusive no Brasil. Sob o comando de Adolf Hitler, milhões de judeus, comunistas, ciganos etc. foram assassinados e uma guerra mundial foi eclodida para combater sede expansionista dele. Com a derrota na II Guerra Mundial, a apologia ao nazismo virou crime em vários cantos do mundo, inclusive no Brasil.

Com o passar dos anos, o nazismo ganhou novos contornos, propiciando o que se denomina de neonazismo. Embora tenha uma conotação peculiar em cada país, esse movimento se espalha pelo mundo. No caso do Brasil, o Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) identificou o crescimento de células neonazistas em nosso território nos últimos anos. Segundo o relatório, uma “tendência preocupante que contribui para o ódio racial, incluindo o ódio online, é o aumento do número de células neonazistas nos estados do sul do Brasil, incluindo Santa Catarina”. O documento acrescenta: “O neonazismo e outras formas de extremismo de direita são perigosos impulsionadores do racismo e de outras formas semelhantes de ódio e intolerância”[1].

O Conselho da ONU reforça pesquisas realizadas nos últimos anos. Enquanto viva, a antropóloga Adriana Dias (UNICAMP) identificou 530 células neonazistas em 2021. Segundo ela, 1.659 páginas foram derrubadas na internet por fazerem apologia a ideias neonazistas, contra 329, em 2015[2]. Outro levantamento aponta que o número de inquéritos abertos pela Polícia Federal para investigar casos de apologia ao neonazismo cresceu entre 2018 e 2020, saltando de 20 para 110 casos registrados[3]. De igual modo, o Relatório de eventos antissemitas e correlatos no Brasil aponta que, em 2019, a Central Nacional de Crimes Cibernéticos recebeu 1.071 denúncias anônimas de neonazismo. Esse número saltou para 14.476, em 2021[4].

Embora não haja uma relação causal entre os dados destacados e o bolsonarismo, quero acreditar que o aumento de células, inclusive no estado de Sergipe, reflete apenas uma coincidência factual. Será que é só coincidência?

Em 1998, de acordo com a Revista Veja[5], o então deputado Jair Bolsonaro proferiu o seguinte discurso: “Quero deixar patente minha revolta com a grande mídia, um tanto quanto servil, que criticou duramente o Colégio Militar de Porto Alegre apenas porque nove entre 84 alunos resolveram eleger entre Conde Drácula, Hércules, Nostradamus, Rainha Catarina, Átila – só faltou FHC -, Hitler como personalidade histórica mais admirada”. Embora tenha dito, no mesmo discurso, que não compactuava com as ideias do líder nazista, Bolsonaro defendeu a liberdade dos estudantes escolherem Hitler como personalidade.

Adriana Dias encontrou provas de que neonazistas apoiavam Bolsonaro. A afirmação foi publicada, em 2021, na página do The intercept[6]. Segundo a matéria, um dos grupos publicou uma carta de felicitação escrita supostamente por Bolsonaro em sua página eletrônica. A entrevista foi publicada uma semana após Jair Bolsonaro receber, no Palácio do Planalto, Beatrix von Storch, parlamentar pelo partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) e neta de um ministro de Adolf Hitler. Não quero nem detalhar o discurso do próprio Bolsonaro na votação do impeachment da presidenta Dilma, onde dedicou seu voto a um torturador do regime militar.

Para aumentar o discurso das coincidências, em 2020, o então Secretário Nacional de Cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim foi demitido por parafrasear um discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista[7]. Outro assessor do ex-presidente, Filipe Martins foi condenado por ter feito gestos supremacistas[8].

Coincidências podem acontecer, como também não, deixo a análise política dos fatos e direciono meu olhar ao aspecto técnico, analítico da prova. O primeiro aspecto diz respeito às fontes. Embora o vereador tenha mencionado que a Revista Fórum seja um periódico petista, ninguém em sã consciência pode atribuir o mesmo alinhamento editorial para a Revista Veja. Diga-se de passagem, o trecho destacado por ele não é da “revista petista”, mas da revista da editora Abril.

Ainda do ponto de vista da seleção dos trechos, o CESAD poderia ter escolhido outro fragmento. Porém, nada impede, do ponto de vista político, pedagógico e legal, recorrer às fontes utilizadas na redação. Falo isso com a tranquilidade de quem avaliou criticamente a avaliação do CESAD e procurou diagnosticar a fundamentação que justificou seu anulamento por parte da administração da UFS.

O formato da questão segue as atuais diretrizes do ENEM para a prova dissertativa, sendo capaz de aferir se os candidatos possuem as competências requeridas para um bom desempenho na escrita. Uma rápida consulta nos temas das últimas redações do ENEM constata-se que abordaram a herança africana no Brasil, a invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher, o combate ao racismo, o combate à intolerância religiosa, o controle de dados na internet etc. Como se vê, são temas voltados para a promoção dos Direitos Humanos a partir de um dado concreto da realidade.

Não é adequado, muito menos justo, afirmar que a universidade utiliza seu status de instituição autônoma para fazer proselitismo político. Caso assim fosse, provavelmente não teríamos 26% dos estudantes identificados com ideias de direita e outros 16,7% com as de centro.[9] A mesma pesquisa identificou que são os estudantes alinhados ao pensamento de direita, e não os de esquerda, que se sentem mais à vontade para emitir suas opiniões sobre temas controversos, como o aborto e o porte de armas.

A afirmação do parlamentar pressupõe, me parece, a existência de uma neutralidade no conhecimento científico, ideia compactuada por alguns tecnocratas da gestão pública e pelos adeptos do movimento Escola sem partido (ESP), que, diga-se de passagem, encontra-se sem rumo após as sucessivas derrotas no Supremo Tribunal Federal (STF). Não vou cobrar que o vereador conheça o conteúdo da obra Técnica e ciência enquanto ideologia, de Habermas. Porém, não posso ter a mesma atitude diante de meus colegas doutores que administram a UFS.

Como gosto sempre de dizer, falar em neutralidade pressupõe determinada decisão, intencionalidade, o que representa uma postura política diante dos fatos, e isso é ter opinião política. Parafraseando Aristóteles, o ser humano é um animal político por natureza[10].

Infelizmente, a administração da UFS cedeu, com ou sem intenção, às ameaças feitas por um parlamentar que apoia um ex-presidente que sucateou a ciência e a educação brasileira, que passou os quatro anos de mandato presidencial atacando a universidade de todas as formas, inclusive propondo medidas privatistas, a exemplo do Future-se. Além disso, a única intervenção sofrida pela UFS em toda sua história foi promovida pelo ex-presidente, quando nomeou a professora Liliadia da Silva Oliveira Barreto como interventora. Em resumo, o bolsonarismo não tem interesse em manter e fortalecer a universidade pública e gratuita com qualidade.

A nota publicada pela administração da universidade, quando diz que “a UFS não coaduna com qualquer forma de discriminação, polarização política ou radicalismos ideológicos”, só reforçou os argumentos do vereador por Aracaju, além de colocar em suspensão a credibilidade do CESAD para realizar os próximos vestibulares. Além disso, qualquer docente que venha a promover alguma atividade para discutir o neonazismo no Brasil no interior da UFS estará desprotegido, ainda mais se considerarmos o silêncio da ADUFS diante dessa situação.

Para concluir, tenho a sensação de que o ato de cancelar a prova deixa uma grande cicatriz na autonomia de nossa universidade. Tomara que eu esteja errado.

*Graduado em Filosofia (UFS), doutor em Filosofia da Educação (UNICAMP) e pós-doutor em Educação (UNICAMP). É professor do Departamento de Filosofia e possui vínculo com os Programas de Pós-graduação em Filosofia da UFS e da UFPE. Atualmente, encontra-se afastado para realizar um estágio de pós-doutoramento no Programa de Pós-graduação em Filosofia da UFABC.

[1] Agência Brasil, 09/04/2024. Disponível em < https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2024-04/conselho-leva-onu-alerta-sobre-avanco-do-neonazismo-no-brasil >.

[2] Folha de São Paulo, 14/08/2021. Disponível em < https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/08/brasil-vive-escalada-de-grupos-neonazistas-e-aumento-de-inqueritos-de-apologia-do-nazismo-na-pf.shtml >.

[3] Jornal O Globo, 07/08/2021, disponível em < https://oglobo.globo.com/politica/numero-de-inqueritos-abertos-pela-pf-sobre-apologia-ao-nazismo-cresce-59-em-2020-1-25145142 >.

[4] Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil. Relatório de eventos antissemitas e correlatos no Brasil. 2022.

[5] Congresso em foco, 20/01/2020, disponível em < https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/24007/bolsonaro-ja-defendeu-estudantes-que-admiravam-hitler-confira >.

[6] The intercept, 28/07/2021. Disponível em < https://www.intercept.com.br/2021/07/28/carta-bolsonaro-neonazismo/ >.

[7] Folha de São Paulo, 17/01/2020. Disponível em < https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/01/secretario-de-bolsonaro-e-exonerado-apos-pronunciamento-semelhante-a-de-ministro-de-hitler.shtml >.

[9] Agência Brasil, 11/12/2024, disponível em < https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2024-12/ex-assessor-de-bolsonaro-e-condenado-por-gesto-racista-no-senado >.

[9] Jornal O Globo, 10/08/2025, disponível em < https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/08/10/metade-dos-universitarios-evita-debater-temas-polemicos-no-ambiente-academico-aponta-pesquisa-inedita.ghtml >.

[10] Aristóteles, na Ética e Nicômaco, afirma que “o homem é um animal político por natureza”.

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2 Comments

  1. Ana Lucia Assunção da Silva disse:

    Absurdo a UFS dobrar-se a argumentação!

  2. Renato Rocha disse:

    Boa reflexão. Vejo que um texto diz por suas linhas e também pelo que está em suas entrelinhas. A política, muitas vezes, se faz pela entrelinhas.

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