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A desigualdade não tem uma única causa

Por Elayne Messias Passos*

No Brasil, o debate público frequentemente simplifica a origem das desigualdades sociais. Ora se afirma que tudo é “questão de classe”, ora se atribui os problemas exclusivamente ao racismo ou ao machismo. No entanto, essa fragmentação empobrece a análise e, o que é pior, dificulta soluções consistentes. A realidade social é mais complexa. Por essa razão, raça, classe e gênero não atuam isoladamente, mas se articulam de forma estrutural.

A tradição social crítica destacou, com razão, o peso da exploração econômica. A posição que cada grupo ocupa no mundo do trabalho influencia consideravelmente suas oportunidades de vida. Todavia, a experiência histórica brasileira revela que o mercado nunca foi neutro. Ele foi organizado desde o período colonial a partir da racialização do trabalho e da naturalização de hierarquias sociais.

Consequentemente, não é possível compreender a pobreza no Brasil ignorando que ela tem cor e território. Tampouco se pode analisar o mercado de trabalho sem reconhecer que mulheres, sobretudo mulheres negras, enfrentam barreiras específicas. Quando se observa quem ocupa os empregos mais precários, quem recebe os menores salários e quem acumula jornadas invisíveis de cuidado, percebe-se que as desigualdades se sobrepõem e se reforçam. Eis aí uma assimetria resistente como poucas em nossa sociedade.

Assim sendo, reduzir o debate a uma só dimensão produz diagnósticos incompletos. Políticas exclusivamente econômicas tendem a falhar se não considerarem o racismo estrutural. Por sua vez, medidas focadas apenas em gênero podem ignorar o peso da desigualdade de renda. O equilíbrio entre as perspectivas é mais do que necessário e o desafio contemporâneo é reconhecer que a injustiça social é relacional.

Portanto, superar desigualdades exige abandonar explicações simplistas. A sociedade brasileira foi construída por estruturas que combinaram exploração econômica, hierarquização racial e dominação patriarcal. Ignorar essa articulação é manter intacto o problema que se pretende resolver. É varrer para debaixo do tapete o lixo da histórica desigualdade e vilipendiar as suas múltiplas causas.

*Licenciada em História pela UFS. Doutora em Antropologia pela UFBA. Assessora do Ministro da Educação.

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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