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“And then one day you find Ten years have got behind you”

O juiz Roberto Alcântara e o advogado Marcelo Augusto Carvalho

(Time, Pink Floyd)

Por Marcelo Augusto Carvalho *

Num 3 de março de 2009 – dia comum da lida do foro -, ali estava eu, no saguão do Gumersindo Bessa, estradando à 7.ª Vara Cível, onde participaria de uma audiência de instrução em processo em que atuava.

De relance, notei a presença de um indivíduo bem trajado e de reta atitude corporal, que, no entanto, apresentava certa precariedade no percurso, como se estivesse à procura da exata rota que o conduziria ao seu destino.

Embora aparentasse um tal deslumbramento, era-lhe assinalável a hesitação; um paradoxo ínsito àqueles que acabam de celebrar uma grande conquista, mas que carregam a sisudez dos pesados ônus que o triunfo traria no engate.

Distingui-o, de logo, e pensei com meus botões: aquele sujeito foi um dos que tomaram posse ontem no cargo de Juiz Substituto; presente à solenidade do dia anterior no Palácio Tobias Barreto, pude lhe gravar o semblante, dado o ar de seriedade com o qual ele se destacava.

Interpelei-o, em apresentação; artimanhas da sorte, ressaltou-me estar à espera de Aldo, Juiz Titular da 7.ª Vara Cível, juízo perante o qual seria batizado na atividade judicante, na condição de auxiliar, por designação do tribunal.

Assíduo do Gumersindo, presente às duas cerimônias de inauguração em 1997, eu já era familiar de seus corredores, salas de audiência, gabinetes, e, passados mais de 10 anos, de há muito habituado às mesas de audiência que parecem enormes pranchas de surfe, muito controversas à época.

Norteei o rumo, e me conduzi em sua companhia, exornando pelo caminho uma boa conversa, que permeou a sua naturalidade alagoana, as provações do rigoroso e disputado concurso, e a tribulação do exercício da carreira.

Eis que, pouco tempo chegados ao juízo de nossos desígnios, fomos informados de que ele presidiria a audiência à qual eu agiria; seria eu, portanto, participante da sua première, do seu primeiro ato como Juiz de Direito.

O processo envolvia boa discussão (mais tarde, o estrangeirismo passaria a chamar tal situação de hard case); qualquer decisão ao caso, a favor do autor ou da empresa ré (que eu defendia), seria admissível, razoável.

Por atrevimento e sem consulta à minha constituinte, mas na intenção de dar fim à questão e tornar a inserção daquele magistrado na carreira o mais airosa possível, fiz uma proposta de composição à parte adversária, e disse que assim o agia em um preito ao juiz, que começaria a missão com pé direito.

E o foi; aceito o acordo, o processo ali mesmo se finou, e me enobrece ter tido alguma contribuição para que o primeiro ato judicante daquele espartano magistrado tenha sido a presidência de uma audiência que terminou em acordo, e sentença homologatória.

Isto é: a introdução desse juiz nas funções teve o emblema da minha participação, dela fui dignitário, e o tempo haveria de espelhar o meu orgulho por esse simbolismo.

No atravessar do tempo, esse magistrado amadureceu, aperfeiçoou o feitio, aprimorou o que eu já vaticinava; nada como o grande Cícero “o tempo faz com as pessoas o que faz com o vinho: os bons, ele apura; os ruins, ele azeda”. A toga lhe cai bem, sob medida.

Com pouco mais de 10 anos em Sergipe, esse presente que Pontes de Miranda deu a Tobias Barreto infirma a má fama que nos puseram, de que somos fechados e arredios àqueles que não são filhos do nosso mesmo solo.

Sob o comando da AMASE – Associação dos Magistrados de Sergipe já no segundo mandato, Roberto Alcântara pode saborear a façanha de, por méritos próprios, gozar do respeito e admiração de todo o Poder Judiciário deste Estado.

Porém, não só: nas instituições co-irmãs – advocacia, procuradorias, defensorias, promotorias, etc… -Roberto percorre átrios, faz conferências, sempre a cavalheiro, sabendo entrar e sair de qualquer ambiente, e deixando excelentes lembranças. É um grande tipo da humanidade.

Não privo de sua amizade restrita; desse privilégio não desfruto; mas tal circunstância robustece a sinceridade do meu depoimento, apartado de qualquer sensação de estima pessoal que não seja atrelada à admiração e respeito.

Ontem, encontramo-nos casualmente no tribunal; os desígnios da fortuna tornaram que a coincidência reprisasse 14 anos depois; a sede do encontro não foi a casa de Gumersindo, mas sim o palácio de Tobias.

Rememoramos esses vetustos acontecimentos, falamos relevâncias e também trivialidades.

Mas o Roberto constrito de antanho cedeu espaço ao impertérrito de agora; desinibido, à vontade, bem-humorado, como é a sua característica, senhor absoluto de sua persuasão e do seu espaço.

Lapidado nesses 14 anos de magistratura, a sociedade festeja o juiz completo.

Nesse grupo, há outros, de exímia envergadura, a merecerem semelhantes predicamentos.

Desnecessário propagandeá-los nominalmente – o petit comité, que às vezes manca, desta saberá ao certo identificar a quem estico esse depoimento franco e livre de qualquer rasgo de suspeição e parcialidade.

A estes, na pessoa de Roberto, os meus parabéns pelos 14 anos de magistratura.

* É advogado

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