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A era dos velhos!

Por Antonio Samarone *

Quase sempre, falar dos Velhos, não encontra uma boa acolhida.

O Brasil ignora os seus Velhos. O Estatuto do Idoso é uma lei que não pegou. Ninguém sabe por onde anda, nem cobra o seu cumprimento.

Durante a quarentena da Pandemia, o Velho que botasse o pé na rua era admoestado com rigor: “olha aí, depois não sabe porque morre.”

Os mitos e os clichês negam a própria existência dos Velhos: “só é velho quem quer, se diz de boca cheia, é uma questão de mentalidade.”

Em qualquer roda, quem alega a condição de velho é imediatamente contestado: “deixe de besteira, ninguém é velho.”

A juventude é eterna! As indústrias farmacêutica e de suplementos alimentares exploram essa utopia, vendendo produtos rejuvenescedores.

O Velho passa a ser objeto de exploração de um mercado de serviços médicos, farmacológicos, fisioterápicos, “clínicas de repousos”, asilos, residências adaptadas.

Os velhos são consumidores vorazes de medicamentos e serviços médicos.

No Brasil, o sistema bancário saqueia os proventos dos aposentados, com juros extorsivos dos empréstimos consignados.
Juros e remédios empobrecem os Velhos, levando-os em muitos casos a indigência.

No Brasil, não existe uma rede qualificada de assistência pública (nem privada) aos Velhos, tornando-os dependentes da boa vontade e sensibilidade dos familiares e filantropos.

A solidariedade e o acolhimento dos filhos é cada vez mais rara. Muitas vezes por falta de condições objetivas.

Cobra-se dos velhos sabedoria e prudência. Um desapego que se aproxima da submissão consentida. Ser sábio é calar, silenciar, fazer de conta que não está enxergando.

Visitei o velho Agenor das Candeias, numa casa de repouso aqui em Aracaju. Ele não parou de falar, contando-me o desprezo e maus tratos que recebia, mesmo pagando.

Eu, comprei a briga, fui questionar com a diretora, cobrar respeito. Seu Agenor foi muito amigo do meu pai.

A diretora se mostrou preocupada e foi comigo no quarto de Agenor, para obter mais detalhes. Quebrei a cara. Seu Agenor negou tudo, que aquilo era maluquice minha, que vivia arrumando encrenca. Passei por mentiroso.

Quando a diretora saiu, Seu Agenor me deu uma bronca. “Você é um imbecil? Quando você sair, como eu fico? Com essa denúncia, os funcionários vão passar a me odiar. Eu dependo da boa vontade deles. Eu bonzinho, calado, o tratamento já é ruim, imagine eu causando problemas.

“Doutor Samarone, o senhor nada sabe sobre a vida.” Ouvi calado!

Continuou o Velho Agenor:

“Um velho briguento, cheio de direitos, morre à mingua. A minha dependência, a minha falta de autonomia é crescente. Perderei em pouco tempo a fala, a consciência e os movimentos.”

“Doutor, a morte é solitária, morre-se só!”

“O respeito aos velhos não depende de bronca, mas de civilização, de respeito que a sociedade tenha ou não pelos idosos.”

“No Brasil, estamos na mais profunda barbárie”, concluiu, com certa melancolia, o Velho Agenor das Candeias.

* É médico sanitarista

 

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