

A redução da receita apurada com a doação do dízimo é um dos principais motivos dessa briga de pastores contra o fechamento das igrejas evangélicas, determinação que visa conter a propagação da covid-19. Em reportagem sobre o assunto, publicada neste domingo (11), o jornal O Estado de São Paulo revela que as contribuições de fiéis de todas as denominações religiosas levam cerca de R$ 15 bilhões para dentro das instituições. O valor equivale a 65% de tudo o que as entidades arrecadam, de acordo com os mais recentes dados da Receita Federal, de 2018. Líderes religiosos admitem encolhimento de 5% a 40% nas receitas.
Incomodada com as decisões de governos estaduais e municipais para que as igrejas católicas e evangélicas permaneçam fechadas durante esta fase mais aguda da pandemia, a bancada evangélica no Congresso emitiu uma nota pedindo a reabertura dos templos religiosos para enfrentar o que chamou de “pandemia maligna”. Preocupados com a queda na arrecadação das igrejas, pastores de megaigrejas, como Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, e R. R. Soares, da Igreja Internacional da Graça, têm feito apelos em vídeo e nas redes sociais para que os fiéis paguem dízimos e ofertas.
Segundo publica o Estadão, com a decisão liminar que permitia a abertura de templos ainda em vigor, o pastor Valdomiro Santiago convocou seus fiéis para um culto presencial, no domingo de Páscoa, prometendo “um tempo poderoso de milagres e salvação” na pandemia de covid-19. Em São Paulo, a imponente sede da Igreja do Poder de Deus que abriga até 10 mil pessoas, encheu. Ao final de mais de duas horas de sermões e testemunhos, Valdemiro pediu doações. “Queria dizer que estamos dando um duro danado para pagar aluguéis, funcionários, fornecedores. Está tão difícil para todo mundo…”, implorou o pastor.
Pequenas igrejas sofrem mais
Mas não apenas as megaigrejas que sofrem com a queda da arrecadação. A preocupação também atinge pastores de igrejas pequenas, que fizeram longas viagens de várias partes do país para visitar Bolsonaro no Palácio da Alvorada, no último dia 2, e pedir a abertura de uma linha de crédito especial para as igrejas. “A igreja evangélica tem muitos pastores […] com seus aluguéis atrasados, com suas despesas avançadas”, disse um integrante do grupo ao presidente.
Segundo a professora do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense, Christina Vital, acrescenta: “Para as igrejas menores o baque financeiro da suspensão das atividades presenciais é maior do que entre as denominações maiores. No caso das igrejas pequenas as ofertas e o dízimo são, muitas vezes, o único meio de arrecadação e manutenção dos trabalhos e único meio de custear o pastorado e de pagar o aluguel dos espaços.
Outros negócios
Christina Vital revela que as igrejas maiores, embora suas estruturas sejam muito mais onerosas, a manutenção dos pastores e das estruturas físicas podem ocorrer por meio dos ganhos com editoras, redes de tv a cabo etc. “Chegam ainda as arrecadações online que já eram recebidas. Ou seja, o culto presencial para eles é importante para arrecadação, mas menos até do que para as igrejas menores”.
Mas por que então são justamente líderes de algumas megaigrejas que estão se posicionando mais fortemente contra o fechamento dos templos? Christina responde: “Mais uma vez questões políticas e econômicas travestidas e, às vezes, somadas às religiosas. A maior parte dos líderes evangélicos são empresários de diferentes segmentos. Ou seja, não se trata nem do baque financeiros das igrejas, mas nas próprias finanças das empresas de seus líderes”, explica a pesquisadora.
Mas não são apenas dízimos e poder político que impulsionam as igrejas evangélicas a fazerem lobby para manter os templos abertos. O engajamento e a conversão de novos membros também entram nessa conta, segundo Christina Vital. “Como se trata de uma religião de conversão, o contato presencial é muito importante. Neste sentido, o culto é importante para a conversão de novas pessoas e também para esta inculcação de valores, dos códigos de comportamento, de um repertório religioso específico, de estabelecimento e/ou fortalecimento de laços entre o fiel e a comunidade”.
Fontes: Portal Pública e o Estadão (Foto: Folha Gospel)