
Em 2018, durante a campanha presidencial, Eduardo Bolsonaro afirmou que bastariam “um soldado e um cabo” para fechar o Supremo Tribunal Federal. A frase tornou-se símbolo de uma concepção de poder na qual instituições vistas como obstáculos poderiam ser enfrentadas pela força.
Oito anos depois, em 2026, o cenário é diferente. Flávio Bolsonaro não apresenta uma proposta de intervenção militar, mas procura transformar a força conquistada nas urnas e no Congresso em capacidade para reorganizar as regras institucionais.
Em outubro de 2026, Flávio afirmou que a nova composição do Congresso permitiria “mudar a Constituição” e “redemocratizar” o país. Depois, explicou que se referia a mudanças no Judiciário, nas regras de escolha de ministros do STF, na responsabilização criminal, na tributação e no fim da reeleição. Parte dessas propostas exigiria emendas constitucionais. Agência Brasil — Flávio Bolsonaro fala em mudar a Constituição
O resultado das eleições legislativas de 2026 ampliou o peso do bolsonarismo no Congresso. O PL elegeu 121 deputados federais e 28 senadores, tornando-se a maior bancada. Isso, porém, não significa poder absoluto. Uma emenda constitucional exige três quintos dos votos, em dois turnos, nas duas Casas. Será necessário negociar e formar maiorias.
É justamente nesse contexto político que as propostas de Flávio ganham dimensão institucional. Mudar regras não é, por si só, antidemocrático. Democracias também se transformam por reformas constitucionais. O problema surge quando essas mudanças reduzem a capacidade das instituições de controlar quem venceu. A Constituição não serve apenas para organizar eleições: ela também limita maiorias, protege direitos e estabelece mecanismos de controle. O risco está em utilizar a força eleitoral para enfraquecer os próprios limites que devem conter o poder.
É nesse ponto que o cenário político brasileiro de 2026 pode ser compreendido pela chave da política do ódio. O conceito não se refere apenas à agressividade do debate público ou à polarização. Ele ajuda a compreender quando a diferença política deixa de ser reconhecida como legítima e o adversário passa a ser construído como ameaça moral. Estudo sobre a política do ódio no Brasil — SciELO
Democracias são sociedades de conflito. O problema começa quando a discordância se transforma em desvio, traição ou ameaça. A política passa a funcionar pela lógica do “nós” contra “eles”, e a vitória eleitoral pode adquirir um sentido moral: finalmente, “nós” teríamos derrotado “eles”.
Quando o adversário é convertido em inimigo, a política pode assumir uma dimensão de vingança. A derrota deixa de ser aceita como resultado legítimo da disputa e passa a ser vista como injustiça a ser corrigida. A vingança não precisa ser física. Pode aparecer na tentativa de deslegitimar instituições, restringir o espaço da oposição ou alterar regras para enfraquecer o campo derrotado.
Não é possível atribuir automaticamente essa intenção a Flávio Bolsonaro. A análise sociológica precisa distinguir entre propostas concretas e imputação de intenções. A questão democrática, neste momento, é saber o que impede uma força política vitoriosa de transformar sua vitória em autorização para reduzir a legitimidade de quem perdeu.
A comparação com 2018 precisa, portanto, ser feita com cuidado. “Um soldado e um cabo” expressavam uma imagem de força contra o Supremo. Em 2026, a força apresentada por Flávio é de outra natureza: está nas urnas, na bancada parlamentar e na capacidade de formar alianças. O soldado e o cabo deram lugar à negociação política.
Mas uma bancada numerosa também pode ser utilizada para ampliar a representação ou para reduzir mecanismos de controle. O desafio está em saber se a força eleitoral será usada para ampliar a capacidade de governar ou para enfraquecer aqueles que podem limitar o governo.
O Brasil chega ao final de 2026 ainda profundamente dividido. Os milhões de votos dados a diferentes projetos políticos continuam representando posições legítimas na sociedade. O vencedor recebe um mandato para governar, não o direito de apagar o capital político do derrotado. O voto em Flávio não deve ser tratado como ignorância, assim como o voto em Lula não pode ser reduzido a manipulação ou ameaça.
O 8 de janeiro deve ser lembrado como advertência, não como profecia. Não há fundamento para afirmar que as propostas de Flávio conduzirão necessariamente a uma ruptura democrática. A advertência está em outro lugar: quando a derrota eleitoral deixa de ser aceita e as instituições passam a ser tratadas como inimigas, a própria competição democrática fica ameaçada.
Em 2018, a força era imaginada como solução para enfrentar o Supremo. Em 2026, Flávio Bolsonaro apresenta outra estratégia: transformar força eleitoral e parlamentar em capacidade para alterar as regras do jogo. O soldado e o cabo deram lugar às urnas e ao Congresso. A pergunta democrática, entretanto, permanece: quem controla aqueles que controlam o poder?
No fim, talvez esteja aí a diferença decisiva entre ganhar uma eleição e governar uma democracia: vencer permite exercer o poder; não permite eliminar o outro da política.
*Professor Titular da UFS. periclesdcs@academico.ufs.br
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