
Por Péricles Andrade*
O comportamento eleitoral brasileiro passou, nas últimas duas décadas, por transformações que alteraram simultaneamente a estrutura da competição política, as identidades partidárias e as formas pelas quais os(as) eleitores(as) interpretam a política. Entre 2002 e 2014, as eleições presidenciais foram organizadas fundamentalmente em torno da competição entre PT e PSDB. A partir de 2018, entretanto, essa configuração foi profundamente modificada com a emergência de Jair Bolsonaro e a reorganização da disputa nacional em torno de uma oposição entre lulismo e bolsonarismo. A literatura recente aponta que essa mudança não pode ser explicada apenas pela substituição de partidos ou candidatos: ela envolve a intensificação da polarização, o crescimento do partidarismo negativo, a importância das pautas morais, a presença pública da religião, a expansão das redes digitais e mudanças nas bases sociais do voto. Jairo Nicolau (2020), ao analisar as eleições presidenciais de 2002 a 2022, demonstra como a composição social e territorial do eleitorado brasileiro se modificou ao longo desse período, enquanto Gabriela Tarouco (2022) evidencia a importância das posições ideológicas e programáticas na reorganização da competição eleitoral.
O caso de Sergipe deve ser inserido nesse processo nacional, mas sem ser reduzido a ele. A especificidade sergipana resulta da combinação entre uma população eleitoral relativamente pequena em termos nacionais, forte concentração territorial, diversidade socioeconômica e religiosa e diferenças expressivas entre a capital, os centros regionais e os pequenos municípios.
Para as Eleições 2026, Sergipe possui 1.740.240 eleitoras e eleitores aptos a votar, segundo os dados divulgados pela Justiça Eleitoral. O número é particularmente significativo quando se considera a dimensão territorial do estado: são 75 municípios e uma distribuição do eleitorado bastante desigual entre eles. Aracaju concentra 421.507 eleitores(as), o equivalente a aproximadamente 24,2% do eleitorado estadual. Em seguida aparecem Nossa Senhora do Socorro, com 123.714, Lagarto, com 82.402, Itabaiana, com 76.700, e São Cristóvão, com 62.018. Somados, esses cinco municípios alcançam 766.341 eleitores(as), aproximadamente 44% de todo o eleitorado sergipano.
A concentração é uma das características mais importantes para compreender a eleição no estado, mas não significa que Sergipe possa ser dividido simplesmente entre capital e interior. Aracaju exerce centralidade administrativa, econômica, universitária e comunicacional; Nossa Senhora do Socorro está fortemente vinculada à dinâmica metropolitana; Itabaiana e Lagarto funcionam como importantes polos regionais; e São Cristóvão combina proximidade metropolitana, relevância histórica e características socioespaciais próprias. Ao mesmo tempo, dezenas de municípios possuem eleitorados bastante reduzidos, o que produz uma estrutura territorial simultaneamente concentrada e fragmentada. O TSE disponibiliza essas informações por município e zona eleitoral e mantém séries históricas do eleitorado, permitindo observar a evolução da composição territorial do cadastro (Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe, 2026).
Essa configuração territorial é sociologicamente relevante porque o eleitorado sergipano não constitui um conjunto homogêneo. A experiência política de quem vive em Aracaju não é necessariamente equivalente à de quem reside em Itabaiana, Lagarto, Nossa Senhora do Socorro ou em um município de pequeno porte. As formas de acesso a serviços públicos, os mercados de trabalho, as redes familiares, os meios de comunicação, as relações comunitárias e as estruturas de sociabilidade apresentam diferenças importantes. Em municípios menores, relações pessoais, familiares, comunitárias e religiosas podem adquirir maior visibilidade na experiência política cotidiana; nos maiores centros urbanos, a política é atravessada de maneira mais intensa por meios de comunicação, redes digitais, universidades, organizações profissionais e instituições públicas.
Isso não permite afirmar que eleitores de um determinado município votarão de uma maneira específica, mas demonstra que o território interfere nas condições sociais nas quais as preferências são formadas. A análise eleitoral de Sergipe, portanto, precisa combinar a dimensão quantitativa do tamanho dos eleitorados municipais com uma leitura qualitativa das diferentes formas de sociabilidade política existentes no estado.
A própria concentração do eleitorado em cinco municípios exige uma interpretação cuidadosa. Os aproximadamente 44% concentrados em Aracaju, Nossa Senhora do Socorro, Lagarto, Itabaiana e São Cristóvão representam uma parcela expressiva da população eleitoral, mas os outros 56% encontram-se distribuídos pelos demais 70 municípios. Isso significa que o sistema eleitoral sergipano articula concentração e dispersão: grandes colégios eleitorais possuem peso demográfico elevado, enquanto numerosos municípios menores compõem uma extensa rede territorial.
Essa característica é especialmente importante nas eleições estaduais, nas quais a competição política precisa atravessar diferentes escalas de representação. O eleitorado não se organiza apenas pela dimensão populacional; ele também se estrutura por vínculos territoriais, redes políticas locais, identidades municipais e relações entre lideranças estaduais e comunidades. Assim, a geografia eleitoral sergipana constitui uma dimensão indispensável para compreender a formação das preferências políticas, sem que isso autorize inferências deterministas sobre o voto de cada território.
A composição das candidaturas oferece outro elemento relevante para compreender o pleito de 2026. Em 4 de setembro, o TRE-SE registrava 408 candidaturas, sendo 159 mulheres e 249 homens. As mulheres correspondiam, portanto, a 38,97% das candidaturas, enquanto os homens representavam 61,03%. O tribunal informou, naquele momento, que Sergipe apresentava a maior proporção de candidaturas femininas do país. (Justiça Eleitoral). Esses dados, contudo, não devem ser confundidos com a composição do eleitorado. O cadastro eleitoral descreve as pessoas aptas a votar; a base de candidaturas registra aqueles que disputam cargos; e os resultados eleitorais correspondem ao comportamento efetivamente manifestado nas urnas. A distinção é importante porque permite analisar simultaneamente a estrutura social do eleitorado e a oferta política apresentada aos eleitores. A presença de quase 40% de candidaturas femininas constitui um dado sobre a composição da disputa eleitoral e não uma evidência de que mulheres possuam determinado comportamento eleitoral. Para compreender gênero e voto seria necessário cruzar dados eleitorais específicos com pesquisas de opinião e resultados desagregados, evitando transformar características da oferta política em características do eleitorado.
A dimensão ideológica apresenta igualmente uma configuração que merece atenção. Pesquisa do DataSenado realizada em 2024 encontrou, em Sergipe, 42% dos(as) entrevistados(as) sem identificação com esquerda, centro ou direita; 26% identificados(as) com a direita; 15% com a esquerda; e 12% com o centro. Esses números não são estatísticas do eleitorado de 2026, mas dados de opinião produzidos em uma pesquisa anterior. Sua relevância está em mostrar que uma parcela expressiva dos entrevistados não se reconhecia nas classificações ideológicas convencionais. Essa informação dialoga com a literatura sobre o comportamento eleitoral brasileiro porque mostra a distância que pode existir entre a estrutura polarizada da competição política e a maneira como os indivíduos definem suas próprias posições. Um sistema eleitoral pode apresentar forte polarização entre seus principais concorrentes sem que todos os eleitores se identifiquem igualmente com os polos em disputa. Em Sergipe, portanto, a análise da eleição precisa considerar simultaneamente a existência de uma competição nacional fortemente polarizada e a presença de eleitores que não se classificam segundo as categorias tradicionais de esquerda, centro e direita.
Esse dado ajuda a compreender uma característica importante do eleitorado sergipano: a possível distância entre identidade ideológica e decisão eleitoral. Um eleitor que não se define como de esquerda ou direita não é necessariamente politicamente indiferente. Pode possuir opiniões bastante definidas sobre saúde, segurança, educação, economia, religião, costumes ou políticas sociais, mas não converter essas opiniões em uma identidade ideológica abrangente. Do mesmo modo, identificar-se com a esquerda ou com a direita não determina automaticamente uma escolha eleitoral específica. A decisão é construída na interação entre avaliações do governo, identificação partidária, rejeição a determinados candidatos, experiências pessoais e questões consideradas prioritárias. A literatura sobre partidarismo negativo é especialmente útil nesse ponto, pois mostra que a escolha pode ser organizada tanto pela identificação positiva quanto pela rejeição a um adversário. No Brasil pós-2014, o antipetismo e o antibolsonarismo tornaram-se dimensões importantes da competição política, mas suas presenças não eliminam outras formas de orientação política. Em Sergipe, essa dinâmica precisa ser investigada em articulação com as especificidades sociais e territoriais do estado.
A religião constitui outra dimensão particularmente importante. O crescimento da presença pública de igrejas e organizações religiosas alterou o espaço de circulação de discursos políticos no Brasil, especialmente em temas relacionados à família, gênero, sexualidade, aborto, segurança e costumes. Entretanto, não se deve estabelecer uma relação automática entre pertencimento religioso e comportamento eleitoral. A religião pode fornecer redes de sociabilidade, repertórios morais, formas de interpretação da realidade e canais de circulação de informação, mas seus efeitos são mediados por classe, escolaridade, gênero, geração, território e conjuntura. Estudos sobre as eleições de 2018 mostram justamente que religião, ideologia e antipetismo se relacionaram de maneiras diferenciadas. Para Sergipe, essa dimensão é particularmente relevante porque a presença de diferentes tradições religiosas precisa ser analisada não apenas em termos de tamanho dos grupos, mas também de suas formas de organização institucional e inserção comunitária. O pertencimento religioso pode influenciar a maneira como determinados temas são interpretados, mas não constitui, por si só, um mecanismo suficiente para explicar a decisão eleitoral.
A análise do comportamento eleitoral sergipano também precisa incorporar as experiências concretas do cotidiano. A política é interpretada a partir da vida social: preços, emprego, renda, saúde, educação, segurança, transporte e acesso a serviços públicos formam parte das experiências através das quais os eleitores avaliam governos e instituições. Em Sergipe, essas experiências assumem configurações diferentes segundo o território. Aracaju concentra serviços e instituições que não estão igualmente disponíveis nos pequenos municípios; os municípios do interior possuem diferentes estruturas econômicas e relações com centros regionais; e a região metropolitana apresenta problemas próprios de mobilidade, urbanização e acesso a serviços. Dessa maneira, questões nacionais podem adquirir significados locais diferentes. A economia nacional, por exemplo, é percebida a partir das condições concretas de vida das famílias, enquanto a avaliação da saúde ou da segurança pode estar diretamente associada às experiências do município e do bairro. O comportamento eleitoral resulta, assim, da combinação entre interpretações sobre a política nacional e experiências territoriais imediatas.
Essa perspectiva permite compreender por que não é adequado procurar um único “perfil” do(a) eleitor(a) sergipano(a). O estado reúne eleitores(as) de diferentes gerações, condições econômicas, níveis de escolaridade, identidades religiosas e experiências territoriais. Aracaju possui uma estrutura social distinta daquela encontrada em municípios de menor porte; Itabaiana e Lagarto possuem funções regionais próprias; Nossa Senhora do Socorro integra intensamente a dinâmica metropolitana; São Cristóvão articula características metropolitanas e históricas; e os demais municípios apresentam outras configurações sociais. A análise eleitoral precisa, portanto, trabalhar com a ideia de pluralidade interna. O eleitorado sergipano é uma categoria administrativa comum, mas sociologicamente constitui um conjunto heterogêneo de indivíduos inseridos em diferentes redes sociais e territoriais.
É também necessário evitar a transformação do crescimento ou da composição do eleitorado em previsão automática do resultado eleitoral. O aumento do número de pessoas aptas a votar não significa, por si só, aumento proporcional dos votos válidos, nem permite antecipar mudanças no comportamento eleitoral. Da mesma forma, a concentração de eleitores em determinados municípios não significa que essas localidades apresentem comportamento político uniforme. No sistema proporcional, inclusive, o quociente eleitoral depende dos votos válidos e do número de vagas em disputa, e não simplesmente do tamanho do cadastro eleitoral. (Justiça Eleitoral) A análise rigorosa precisa distinguir população eleitoral, comparecimento, abstenção, votos válidos, distribuição territorial e resultados. Essa cautela é especialmente importante em Sergipe, onde pequenas diferenças absolutas podem adquirir significado quando analisadas em municípios de eleitorados muito distintos.
O que emerge, portanto, é um quadro no qual as Eleições 2026 podem ser compreendidas como parte de uma transformação mais ampla do comportamento eleitoral brasileiro, mas cuja expressão em Sergipe depende de características próprias. O estado apresenta um eleitorado de aproximadamente 1,74 milhão de pessoas, fortemente concentrado em cinco municípios, mas territorialmente distribuído por 75 localidades. Apresenta também uma oferta eleitoral cuja composição de gênero merece atenção, uma população pesquisada que em 2024 demonstrou baixa identificação com categorias ideológicas convencionais e uma estrutura social na qual religião, território, experiências econômicas e redes comunitárias podem interagir de formas variadas. O principal desafio analítico consiste justamente em compreender essas dimensões em conjunto, sem transformar nenhuma delas em explicação exclusiva.
O caso sergipano mostra, finalmente, que compreender o comportamento eleitoral exige articular escalas. A política nacional fornece categorias importantes — lulismo, bolsonarismo, polarização, partidarismo negativo, religião e ideologia —, mas essas categorias são apropriadas pelos eleitores a partir de experiências concretas e situadas. Em Sergipe, essas experiências são atravessadas por uma estrutura territorial singular, marcada pela concentração de aproximadamente 44% do eleitorado nos cinco maiores municípios e pela dispersão do restante entre dezenas de cidades.
A análise das Eleições 2026 deve, por isso, deslocar a pergunta de uma busca por um eleitor sergipano homogêneo para a investigação das diferentes formas pelas quais território, religião, ideologia, condições sociais e experiências cotidianas se articulam na formação das preferências políticas.
É nessa relação entre transformações nacionais e especificidades estaduais que o eleitorado sergipano pode ser compreendido sociologicamente, não como um bloco eleitoral uniforme, mas como uma estrutura social diversificada na qual diferentes trajetórias individuais e coletivas se encontram diante da competição política de 2026.
*Professor Titular da Universidade Federal de Sergipe. E-mail: periclesdcs@academico.ufs.br
Referências
BOLOGNESI, Bruno; RIBEIRO, Ednaldo; CODATO, Adriano. Uma nova classificação ideológica dos partidos políticos brasileiros. 2023.
LUZ, Leonardo Neves. Religião, ideologia e antipetismo nas eleições presidenciais brasileiras de 2018. 2025.
NICOLAU, Jairo. O Brasil dobrou à direita: uma radiografia da eleição de Bolsonaro em 2018. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
NICOLAU, Jairo. O país dividido: duas décadas de eleições presidenciais no Brasil (2002–2022). Rio de Janeiro: Zahar, 2026.
TAROUCO, Gabriela. Esquerda, direita e eleições presidenciais no Brasil. Brasília: Tribunal Superior Eleitoral, 2022.
TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DE SERGIPE. Eleições 2026: Sergipe tem 1.740.240 eleitoras e eleitores aptos a votar. Aracaju: TRE-SE, 2026.
TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DE SERGIPE. Sergipe lidera ranking nacional de candidaturas femininas nas eleições 2026. Aracaju: TRE-SE, 2026.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Estatísticas do eleitorado. Brasília: TSE, 2026.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Estatísticas eleitorais. Brasília: TSE, 2026.
SENADO FEDERAL. INSTITUTO DATASENADO. Panorama Político 2024. Brasília: Senado Federal, 2024.
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